Descrição de chapéu Coronavírus

Povo paiter-suruí vê aumento de 240% nos casos de Covid-19 nas aldeias

Em uma semana, indígenas de RO perderam três lideranças

Manaus

Em uma semana, o povo paiter-suruí perdeu três lideranças em decorrência da Covid-19. Foram as três primeiras mortes registradas na Terra Indígena (TI) Sete de Setembro, em Rondônia, que até esta segunda (31) tinha 172 casos confirmados da doença em nove aldeias —um aumento de 240% em pouco mais de 15 dias, segundo a liderança da aldeia Lapetanha, Celso Lamitxab Suruí.

A primeira morte entre os paiter-suruís foi a do cacique da aldeia Amaral, Iabibi Surui, de 75 anos, que estava internado no Hospital Regional de Cacoal desde o dia 10 de agosto. O óbito foi confirmado no dia 25 de agosto.

Três dias depois foi a liderança Renato Labiway Paiter Suruí, 43, que teve a morte confirmada por Covid-19. Renato, que também estava internado desde o início de agosto, no mesmo hospital, chegou a esperar dois dias por um leito de UTI na unidade.

Renato Suruí, que morreu aos 43 anos em decorrência da Covid-19; o líder indígena aparece com trajes e pinturas típicas de seu povo, abraçado a uma menina indígena com blusa azul e bermuda jeans, num local gramado
Renato Suruí, que morreu aos 43 anos em decorrência da Covid-19 - Povo Paiter-Suruí / Divulgação

Nesta segunda (31) os paiter-suruís registraram mais uma morte por Covid-19: a liderança Yabalapixi Fabio Suruí, 50, da aldeia Central Linha 10. Ele estava internado havia mais de dez dias na UTI do Hospital Regional de Cacoal, contou Celso Suruí .

"Perdemos três parentes em apenas uma semana para essa doença que está assolando nossas aldeias. Já temos 172 casos confirmados em nove aldeias e suspeitos em pelo menos outras cinco e não temos estrutura para combater essa doença", disse.

Celso criticou a estrutura de saúde destinada aos indígenas na região, que estão sofrendo com a falta de alimentos, itens de higiene e proteção. "Além da transferência para a UTI demorar demais, dos quatro indígenas que foram para a UTI, três morreram e um está em estado grave", conta Celso, que diz que os paiter-suruís não estão recebendo a assistência adequada.

Apesar do luto pela perda das lideranças, os paiter-suruís estão seguindo as recomendações do Ministério da Saúde (MS) e realizando os enterros sem rituais, de forma rápida, na própria aldeia.

"Para nós é muito difícil não podermos nos despedir de nossos parentes. Em uma situação normal nós faríamos um dia todo de ritual, com a presença de parentes de outras aldeias, para só no outro dia enterrar. Mas, pela pandemia, ele [ Yabalapixi Fabio Suruí] morreu de madrugada e foi enterrado, sem ritual, no início da tarde [de segunda, 31]", disse Celso.

Para outra liderança, Almir Suruí, a responsabilidade sobre as mortes entre os indígenas e o avanço da pandemia sobre as aldeias é do governo federal.

"Isso não são perda só de líderes, mas também de seres humanos. Isso é um fator de não implementação de políticas públicas dentro da Terra Indígena, que o governo deveria ter a responsabilidade de implantar", criticou.

No hospital mais próximo da TI Sete de Setembro, no município de Cacoal, faltam profissionais de saúde, medicamentos e leitos de UTI, segundo ele. Em agosto os indígenas divulgaram uma carta aberta, onde cobravam, entre outras medidas, a instalação de um hospital de campanha na região.

As lideranças também relatam que faltam insumos e alimentos para os indígenas que estão em isolamento nas aldeias. "A nossa aldeia está com grande dificuldade de infraestrutura para enfrentamento dessa doenca", disse Almir Suruí, irmão de Renato Suruí.

De acordo com dados da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Rondônia registrava 1.126 casos confirmados em 15 povos indígenas e 20 mortes por Covid-19 em oito povos.

Os paiter-suruís estão entre as etnias com o maior número de mortes no estado, abaixo apenas dos cinta-largas, que já registraram quatro óbitos. Os dados são do último boletim epidemiológico da Coiab, de 28 de agosto.

Em toda a Amazônia brasileira, são 21.757 casos confirmados e 615 mortes entre idígenas de 126 povos diferentes. Estado com a maior população indígena, o Amazonas tem também o maior número de casos confirmados entre índios —5.017— e de óbitos: 194.


Campanha

Enquanto as ações do governo federal não chegam à TI Sete de Setembro, os paiter-suruís se organizam para atender as necessidades dos 1.800 indígenas que vivem nas 28 aldeias.

Eles devem lançar, nesta quarta, 2 de setembro, uma campanha de financiamento coletivo viabilizar o fornecimento de alimentos e materiais de higiene para 280 famílias em 28 aldeias.

"Nossos pajés soam a Flauta do Soeyaetê para pedir ajuda aos seres espirituais. Hoje soamos nossas flautas para pedir ajuda contra a Covid-19", dizem, em nota divulgando o lançamento da campanha. Quem quiser contribuir com a campanha pode entrar em contato por meio dos telefones (69) 99264-0738, (69) 99935-1002 e (69) 99342-0757.

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