Descrição de chapéu Coronavírus

Parentes abanam pacientes com papelão em hospital de Manaus

Técnicos de saúde se queixam da falta de macas; cidade vive caos no setor

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Manaus

Espremidos em salas minúsculas, uma dezena de pacientes com Covid-19 caçavam o ar no hospital Platão Araújo, na zona leste de Manaus.

A indisponibilidade de oxigênio hospitalar, aliada à nova onda de casos, causou uma crise sem precedentes no sistema de saúde da cidade.

Os acompanhantes dos internados, protegidos apenas por máscaras, se valiam de pedaços de papelão para abanar os parentes doentes e aplacar o calor amazônico.

Um homem idoso, sentado numa cadeira no meio da sala, dizia: “Eu acho que não vou sobreviver desta vez”. “Vai, sim. Todos aqui sairão recuperados”, rebateu a técnica de enfermagem que buscava colocar ordem no caos.

Mulher abana com papelão parente internada com Covid-19 em hospital de Manaus
Mulher abana com papelão parente internada com Covid-19 em hospital de Manaus - Dhiego Maia/Folhapress

Em uma das três salas, a Folha conversou com outro paciente que se queixava de não ter tomado nenhum remédio. “Estou desde as 22h de ontem [sexta-feira (15)] sem medicação e até agora não acharam o meu prontuário”, disse.

O repórter da Folha entrou no setor de internação do Platão Araújo na tarde de sábado (16) sem se identificar, ajudado pela irmã de um dos pacientes, que é enfermeira e lhe emprestou o jaleco de um hospital em São Paulo onde trabalha. Em nenhum momento o jornalista se identificou como médico ou enfermeiro.

O hospital, gerenciado pelo governo do Amazonas, tem sido um dos mais demandados na zona leste de Manaus, a mais populosa da capital.

A alta procura também fez os corredores da internação ficarem abarrotados de macas com pacientes de todas as idades que aguardavam por atendimento.

A reportagem também encontrou dois técnicos do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) desolados. Eles já tinham perambulado pelo hospital inteiro em busca de macas, mas saíram de lá de mãos vazias.

Uma técnica disse que todas as macas haviam sido cedidas aos hospitais e que os resgates em ambulâncias estavam sendo feitos com o paciente no assoalho.

Uma família inteira chorava no pátio diante da entrada do setor de internação pela morte de sua matriarca pelo coronavírus.

Maria Alves Barbosa, 60, ficou oito dias internada. Ela seguiu o mesmo script de seus conterrâneos: aguardou numa cadeira até surgir uma vaga de um leito.

A saúde de Maria se fragilizou quando, além de Covid-19, contraiu H1N1 e, depois, pneumonia.

Todo o tratamento que a idosa precisou foi custeado pela família, disse a nora Lidiane Barbosa, 41. “Pagamos pela tomografia que ela fez no domingo passado [dia 10] e pelo oxigênio que ela usou, afirmou a nora.

A Folha também viu muitos fisioterapeutas pulmonares contratados pelas famílias para ajudar os pacientes com Covid-19 na unidade.

Os fisioterapeutas têm sido muito requisitados nas casas de famílias com mais recursos, que montaram seus próprios mini-hospitais.

Um relatório obtido pela Folha mostrou que no sábado 13 pessoas haviam morrido por crise respiratória aguda ou Covid-19 no Platão Araújo. Todo o estado contabilizava cerca de 230 mil casos e pouco mais de 6.000 mortes por Covid-19, sendo 4.000 dos óbitos na capital.

Quem vem enterrando mais vítimas de baixa renda por Covid-19 em Manaus é o cemitério do Tarumã, que tem como vizinhos o aeroporto internacional Eduardo Gomes.

Nos últimos dias, um congestionamento de carros funerários tem sido registrado na ala que concentra os enterros de vítimas da Covid-19. Para dar conta da demanda, uma retroescavadeira acelera a abertura de covas.

Foi lá que a Folha encontrou na tarde de sábado a família de Darcy Lopes, 60, diante da grade do cemitério segurando balões brancos e rosas com gás hélio que foram soltos assim que o corpo dela foi enterrado.

Dados do governo do Amazonas apontaram pico de 76 óbitos por Covid-19 na quinta (14) e 43 na sexta (15), dois dos dias mais agudos da falta de oxigênio hospitalar nas redes pública e privada de Manaus.
Darcy, que tinha síndrome de Down, ficou internada no Serviço de Pronto-Atendimento Dr. José Lins, no bairro da Redenção.

A unidade virou um emblema da crise quando relatos de familiares sobre a falta de oxigênio na unidade caíram na internet e expuseram o caos, com pacientes recebendo ventilação mecânica pela equipe de enfermagem, também exaurida na crise.

“Vamos processar o estado pela forma como não tratou a minha querida Darcy”, prometeu o irmão da vítima, Paulo Sérgio de Oliveira.

Sobre os problemas apontados pela reportagem, a Secretaria de Saúde do Amazonas disse que as unidades de saúde em Manaus vivem uma situação excepcional.

Além de fazer a transferência de ao menos 200 pacientes para outros estados, o governo do Amazonas disse ter firmado convênios para comprar oxigênio hospitalar e criar por volta de 167 leitos em Manaus, a única cidade do estado com UTI.

O único que saiu feliz do Platão Araújo naquele sábado foi o servidor público Euládio Gomes. Internado por oito dias no hospital, dos quais três dias sobre uma cadeira, ele se curou da Covid-19.

Ainda muito abatido, Gomes segurava com força um cartaz onde se lia “eu venci a Covid”, tocou um sino para comemorar a cura e só repetia uma recomendação para todos em sua volta: se cuidem.

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