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Relações e cuidados à distância

Em diário, médica conta que no início resistiu às teleconsultas

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Tudo está diferente desde que começou a pandemia. Vamos nos ajustando e nos reinventando com a necessidade de manter um distanciamento físico, achando modos de estar perto mesmo estando longe. A medicina não escapou disso. Muitos pacientes, com medo de se expor em clínicas e hospitais, começaram a optar pela consulta por telemedicina. E muitos profissionais tiveram que aprender este novo modo de atendimento. Fui um deles.

Não montei um consultório virtual, mas gradualmente vi meu telefone sendo preenchido por um monte de solicitações. Confesso que no início resisti bastante à ideia. Gosto de ver o paciente desde o momento em que ele levanta para vir até o consultório. Antes mesmo do “bom dia”, estou espiando o modo de caminhar, a postura, a expressão facial. O exame clínico para mim é sagrado. Conseguir auscultar, mobilizar, apalpar, sentir cheiros, ver cores, perceber a reação quando pressiono segmentos anatômicos... Como fazer isso pela tela do celular?

Equipe do Hospital Sabará, de São Paulo, faz atendimento por teleconsulta - Danilo Verpa - 24.fev/Folhapress

É o desafio de superar o que nos foi ensinado por anos como sendo parte essencial do exercício médico. Mas, na limitação, surgem as novas habilidades. Perceber o nível de cansaço pela fala do paciente, aguçar os olhos para perceber fácies que acendem sinais de alerta, ensinar o uso de aparelhos como o oxímetro, entender os hábitos de comunicação do doente. Aqueles que sempre mandam mensagem antes de ligar, quando fazem diretamente uma chamada dizendo que estão piorando me causam uma preocupação especial (e geralmente com razão).

A modificação no modo de interagir precisa abarcar o fortalecimento do vínculo médico-paciente, o pacto de confiança. O atendimento à distância chega até um determinado limite. Quando a situação dá indícios de que pode se agravar, precisamos do acordo claro de avançar para a consulta presencial, para o exame clínico ao vivo, o suporte in loco. É necessário que as duas partes se comprometam no reconhecimento dessas limitações do cuidado remoto.

Um dos aspectos da Covid que mais me surpreende é como ela muda de padrão rapidamente. O paciente está bem e avança para um estado grave em pouco tempo. Recebo pessoas que estão conversando, andando sozinhas, porém com uma saturação baixíssima. Ou pacientes compensados, aparentemente num quadro apenas moderado. E quando abrimos os exames, surpresa! Pulmões muito comprometidos, outros órgãos começando a entrar em disfunção. Não dá para ficar esperando em casa quando as luzes de alerta estão todas piscando. E aí está mais uma habilidade que precisa estar muito desenvolvida: reconhecer esses alarmes à distância.

Por felicidade (ou simplesmente seguindo a estatística de que cerca de 80% dos casos de Covid se resolvem na forma leve), a maioria da minha lista de teleconsultados não precisou de hospitalização. Uma parte precisou de internação e já teve alta (ou está perto de voltar para casa). E, tristemente, alguns não poderei abraçar de novo.

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