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Pausa inspiratória

Doentes suplicam para não serem intubados, relata médica em diário

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Num dos meus primeiros plantões de recém-formada, lembro-me de um médico veterano dizendo que um paciente exausto em insuficiência respiratória me imploraria para ser intubado. Como a Covid deixou tudo de cabeça para baixo, o que vivencio hoje é exatamente o oposto. Doentes suplicando para não serem intubados, mesmo em quadros muito mais graves do que aquele que estava atendendo no começo da minha carreira.

Talvez, no imaginário comum, a indicação da ventilação mecânica represente uma sentença fechada, sem retorno. O que não é verdade. Nunca estive no papel de paciente intubada, mas imagino que haja uma sensação de suspensão do tempo enquanto a pessoa está sedada, com uma máquina atrelada à sua respiração. Como a ilusão de que o mundo externo deixasse de existir momentaneamente quando prendemos o fôlego enquanto damos um mergulho profundo. Entendo perfeitamente o medo de não voltar do mergulho, de não ter a chance de rever quem ficou do lado de fora.

Paciente intubado em hospital de campanha em Santo André (SP) - Miguel Schincariol - 26.mar/France Presse

Vejo a expressão de temor, quase pavor, nos olhos dos pacientes ofegantes quando pedem, praticamente sem forças para manter a respiração, “por favor, não me intube”. Queria ter uma fórmula para expressar, também pelos meus olhos, alguma tranquilidade, um sentimento de conforto. Saber que o olhar ressoa com a voz dizendo “confie na gente, estaremos aqui, cuidando de você, enquanto seus pulmões se recuperam”. Porque praticamente só me resta o olhar descoberto atrás de máscara, gorro, óculos de proteção (que no meu caso são enormes, ajudando também a corrigir minha miopia).

A indicação do tubo é a esperança que temos de auxiliar a função ventilatória de pulmões que estão tão amargurados pelo vírus que já não conseguem mais mandar oxigênio suficiente para o sangue. Os músculos que auxiliam a respiração tentam compensar o esforço, trabalhando com mais intensidade e maior frequência. Por horas, dias... E nos casos graves, isso não basta. Chega-se ao limite do esgotamento, em que o corpo não aguenta mais. Ou damos um descanso para ele, usando as máquinas, ou ele para.

Não posso garantir que todos os pacientes voltarão desse mergulho. O que posso é assegurar que estaremos ali, como timoneiros, ajustando a trajetória dessa luta. Uma batalha conjunta, o paciente com seu corpo, a equipe de saúde com a técnica. Dando o tempo necessário de a tempestade passar, o vírus encerrar seu ciclo e o organismo se recuperar das feridas. Com águas mais calmas, podermos traçar o caminho de volta à superfície. Desligar a sedação e, com sorriso nos olhos, comemorar um novo despertar.

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