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Coronavírus Trincheira Covid

Não subestime o trabalho de formiguinha

Como os insetos, é preciso nos organizarmos para venceremos o inverno, ou essa realidade sombria, relata médica em diário

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Fernanda Wendel

Médica com residência de Medicina de Família e Comunidade, atua como socorrista do Samu e em pronto-socorro de São Paulo

São Paulo

Num desses dias em que saía do plantão, atordoada pela privação de sono, fui vitalizada com uma chamada por vídeo. Era a mãe de uma amiga, que estava recebendo alta da UTI. Com uma expressão toda animada, perguntou se eu era a "médica das formiguinhas".

Quando ela foi internada, eu orientava constantemente a filha que a caminhada seria longa, a passo de formiguinhas, um trabalho contínuo. Pois veio a intubação, a melhora do quadro, a extubação e a alta para o quarto de enfermaria. E, mesmo depois deste período, a mensagem ficou marcada na memória da adorável senhora.

Aprendi a jamais subestimar o trabalho de formiguinha. Simbolicamente, vivencio-o diariamente com meus pacientes. No plano concreto, vejo ele acabar com a minha horta. Permitam-me fugir um pouco da Trincheira Covid e compartilhar um pouco sobre os dias de folga.

Junto ao meu marido, também profissional de saúde, cultivamos uma horta. É nosso modo de plantar vida depois de vermos tanta dor. Nos primeiros meses de pandemia, me senti tragada pela realidade. Não achava forças para cuidar das plantas. Minha alegria estava secando, e elas também.

Quando pareceu que o quadro ia mudar, que a curva de casos estava caindo e os dias de verão traziam luz por mais tempo, resolvemos resgatar nosso cultivo. Dá-lhe tirar mato, preparar a terra, transplantar mudas, regar o berçário. Para, na volta do nosso primeiro plantão, ver que as formigas tinham devastado todos os pés de couve. No plantão seguinte, foram-se os espinafres. Depois o manjericão. Recentemente, as vítimas foram as rúculas. Resistem ainda alguns poucos guerreiros pés de alface, a pimenteira e o alecrim.

Tudo bem que não são pequenas formiguinhas que fazem esse estrago todo. São graúdas saúvas, que encheriam os olhos de Lima Barreto. Acho que, mesmo turbinadas, ainda seriam aceitas para protagonizar a fábula com a cigarra.

Meu ponto é que elas seguem seu trabalho diário, juntando alimentos para o inverno. Não ligam para as armadilhas que colocamos, simplesmente ignoram nossas tentativas de afastá-las da horta. Parece que armam estratégias para atacar fileira por fileira, numa ordem admirável. Mesmo com os dois gigantes humanos lutando contra.

Tento me prender a esse delicado apelido de "médica das formiguinhas". Porque é isso que precisamos fazer: seguir o trabalho. Alguns na linha de frente, outros na retaguarda, cuidando do formigueiro. Enfrentando os gigantes que tentam sabotar nossos esforços. Basta nos organizarmos que venceremos o inverno. E não estou mais falando do enredo da fantasia. Acredito, com afinco, que esta realidade sombria vai passar. Não vejo a hora de celebrar como a cigarra.

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