Vencedora da Bola de Ouro se surpreende ao virar ícone feminista

Ada Hegerberg se recusou a dançar no palco durante premiação

Mulher loira com vestido dourado segura bola de metal e sorri
Hegerberg durante a cerimônia de premiação de Bola de Ouro da France Football, em Paris - Benoite Tessier/Reuters
Lyon (França) | The New York Times

A melhor jogadora do futebol feminino mundial estava caminhando por uma rua de paralelepípedos na tarde de segunda-feira quando um homem de avental saiu de um restaurante de frutos do mar para contemplá-la, incrédulo, na calçada.

"É ela mesmo?", ele disse, inclinando a cabeça.

A jogadora, Ada Hegerberg, que havia acabado de tomar um café em um silencioso café local, riu e acenou para o desconhecido sorridente. Não demorou para que o homem estivesse com o celular apontado na direção do rosto de ambos.

"A primeira Bola de Ouro do futebol feminino, e ela está com quem?", ele brincou, gesticulando animadamente na direção do celular, enquanto gravava um vídeo. "Está comigo!"

A vida de Hegerberg mudou um tanto, na última semana.

É verdade que já faz algum tempo que Hegerberg, 23, se estabeleceu como um dos maiores talentos do futebol feminino, uma atacante capaz de produzir gols em escala quase fantasiosa —120 em 95 jogos, de 2014 para cá—, defendendo o maior clube do futebol feminino francês, o Lyon.

Mas, como ela descobriu nos últimos sete dias, conquistar a Bola de Ouro —o prêmio conferido ao melhor futebolista do planeta, entregue em uma cerimônia repleta de estrelas e televisada para todo o mundo, em Paris, e que até este ano era conferido apenas a homens— pode catapultar as coisas para um nível novo e completamente atordoante.

Você é reconhecida por mais pessoas. Mais pessoas ouvem o que você tiver a dizer. Mais pessoas conhecem sua história. Mais pessoas se enganam quanto aos fatos.

"Eu sabia que isso seria a maior coisa que já aconteceu em minha vida", disse Hegerberg sobre o prêmio, "mas não sabia a dimensão que tomaria até subir naquele palco".

Foi o que aconteceu no palco que arremessou Hegerberg —não por sua responsabilidade— à consciência do público mais amplo: uma declaração engraçadinha de um DJ francês que era um dos apresentadores da cerimônia ("você faz o twerk?"); a tempestade imediata de indignação viral gerada pela questão; a subsequente onda de apoio de amigos e desconhecidos; as dezenas de pedidos de entrevistas.

"Toda esta semana", disse Hegerberg na segunda-feira, "foi uma loucura".

Ela brincou que essa nova existência, iniciada uma semana atrás, parecia uma realidade distante de seu início de vida em Sunndal, uma cidade de sete mil moradores na Noruega. Mas a situação também poderia ser vista como previsível, já que a casa em que Hegerberg cresceu funciona, essencialmente, como uma incubadora de talentos futebolísticos letais.

Os pais dela, Stein Erik Hegerberg e Gerd Stolsmo, jogaram por e treinaram clubes noruegueses de futebol. Andrine, 25, irmã de Ada, é meio-campista do Paris Saint-Germain. O irmão mais velho das duas, Silas, 32, foi jogador na juventude.

Em casa, os pais de Hegerberg lhe instalaram diversas regras —ainda que o objetivo delas fosse inspirar as crianças, não restringi-las.

Os dois jamais levavam os filhos de carro para os treinos de futebol, por exemplo. "Eles tinham de chegar ao treino correndo ou de bicicleta", disse Stein Hegerberg. "Se a coisa não é importante para você, então não vá".

As crianças da família Hegerberg eram encorajadas a fazer suas próprias escolhas e a aprender com seus erros. Acima de tudo, eram aconselhadas a manter sempre a humildade, em todas as situações.

"Você sempre pode criticar quem está por cima, mas nunca chute quem está por baixo", dizia-lhes o pai.

Esses valores fizeram de Ada Hegerberg uma atleta determinada com relação às suas crenças, ela diz.

Agora, seu objetivo é usar a plataforma ampliada que obteve com o prêmio para conscientizar o público quanto ao futebol feminino, e lutar por mais respeito pela modalidade. Entre outras coisas, ela está em campanha pela criação de mais campos de futebol na Noruega.

"Sei que tenho uma voz, e quero usá-lo ao máximo para que as coisas avancem", disse.

Ao mesmo tempo, seus valores a manterão fora da maior plataforma de seu esporte, a Copa do Mundo feminina do ano que vem, na França. No ano passado, Hegerberg deixou a seleção norueguesa, depois de concluir que a federação do país não estava fazendo o bastante —em sua opinião— para apoiar o futebol feminino.

Ela não quer repetir suas queixas específicas, mas elas foram se acumulando com o tempo, diz, até que a situação se tornou "insuportável". Houve quem descrevesse seu afastamento como temporário, como uma "pausa" em sua carreira na seleção —foi essa a posição da federação norueguesa. Mas Hegerberg insiste em que não voltará a defender a equipe nacional.

A ideia de que possa voltar à equipe para a Copa do Mundo do ano que vem, depois de receber o prêmio como melhor jogadora do mundo, está fora de questão, segundo Hegerberg.

"Fui bastante clara com eles quanto ao que eu achava que precisava ser melhorado", ela disse. "Dei-lhes razões. Desejo o melhor para minha seleção. Amo meu país. Gostaria de poder jogar por ele. Mas neste caso preciso levar a vida adiante".

A decisão de deixar a seleção lhe custou muitas noites de insônia, diz Hegerberg. Mas depois de fazer o anúncio, ela disse que sentiu como se um grande peso tivesse sido removido; a paz de espírito que ela encontrou, pondera a jogadora, talvez tenha desempenhado um papel em sua ascensão nos gramados.

No mês passado, duas semanas antes da cerimônia da Bola de Ouro, um funcionário da área de mídia do Lyon a conduziu a uma sala de reuniões no centro de treinamento do time, e perguntou se ela era capaz de guardar um segredo: A revista France Football, que organiza a premiação desde 1956, havia decidido criar uma bola do ouro para o futebol feminino este ano, disse o funcionário, e ela seria a primeira ganhadora.

Hegerberg começou a chorar. Em seguida, correu para o seu carro e ligou para seu noivo, Thomas Rogne, zagueiro do Lech Poznan, um clube da Polônia.

"Começamos a rir, e depois a chorar, e em seguida a rir de novo", ela disse.

Hegerberg tinha um grande sorriso nos lábios ao recordar a cerimônia, dizendo estar muito feliz por toda a sua família estar lá para compartilhar do momento —e da festa posterior.

"Foi uma noite tremenda", disse Stein Erik Hegerberg. "Foi alegria, harmonia, humor, tudo mais".

Online, porém, a cerimônia que a apresentou a milhões de pessoas criou reação muito diferente.

Em um momento que causaria indignação em todo o planeta, Martin Solveig, um dos apresentadores do espetáculo, recebeu Hegerberg no palco perguntando se ela sabia fazer o twerk [uma forma de dança caracterizada por movimentos sensuais]. Hegerberg respondeu com um seco "não" e deu as costas a ele —gesto que muita gente entendeu como uma demonstração de repulsa quase explícita.

A pergunta de Solveig e a resposta de Hegerberg começaram a circular na mídia social quase instantaneamente, atraindo críticas imediatas e generalizadas de pessoas de dentro e de fora do esporte, que sentiam que o incidente havia prejudicado um grande momento para a atleta, e, o mais importante, que era algo que jamais teria acontecido com o Bola de Ouro do futebol masculino.

Refletindo sobre a questão na segunda-feira, Hegerberg disse que "as coisas perderam a proporção".

"Naquela situação, não levei a mal, de jeito algum", disse Hegerberg, repetindo seus comentários a jornalistas na noite da cerimônia. "Só respondi que 'não' e me afastei porque obviamente não queria dançar na frente de milhões de pessoas. Foi como que um não irônico, e eu ri porque estava lá para a Bola de Ouro e só conseguia pensar nisso".

Ela disse que havia questões mais importantes para servir de foco às suas energias, no esporte feminino, mas afirmou compreender as pessoas que se sentiram desconfortáveis com a pergunta, entre as quais o dono do restaurante de frutos do mar que a parou na rua na segunda-feira.

"No palco, quando ele te convidou para um twerk, eu quis perguntar se aquele cara estava falando sério", disse o homem, na calçada.

"As pessoas ficaram mais zangadas que eu", disse Hegerberg ao fã.

Hoje em dia, mais gente está de olho em Hegerberg. E as coisas nem sempre são o que parecem, ela disse.

Na volta a Lyon depois da festa da Bola de Ouro, por exemplo, ela apareceu para o treino no dia seguinte dirigindo um reluzente utilitário esportivo prateado. O carro atraiu atenções e gerou brincadeiras de suas colegas de time, que disseram que ela tinha se dado o carro para celebrar o prêmio. Mas na verdade o clube é que havia lhe emprestado o carro; o dela estava no conserto.

Dias mais tarde, Hegerberg recomeçou sua temporada pelo Lyon. Menos de uma semana depois de conquistar manchetes e receber um dos maiores prêmios do futebol mundial, ela embarcou no ônibus do time com as colegas, em uma viagem de oito horas para um jogo fora de casa contra o Soyaux.

"Se você acha que passei os últimos dias voando", ela disse, sorrindo, "logo voltei à terra"

Tradução de PAULO MIGLIACCI 

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