Aos 90, Minelli vê futebol feio e técnicos brasileiros sem mercado

Campeão brasileiro quatro vezes, treinador não conseguiu chegar à seleção

Rubens Minelli em seu apartamento, na zona central de São Paulo

Rubens Minelli em seu apartamento, na zona central de São Paulo Bruno Santos/Folhapress

Alex Sabino Toni Assis
São Paulo

Cansado das reclamações dos jogadores, Rubens Minelli resolveu não dizer nada. Passou 45 minutos calado. Se aquele time do Internacional, campeão brasileiro de 1975, achava que o esquema tático era rígido demais, podiam atuar como como quisessem.

No intervalo, o clube gaúcho perdia por 2 a 0.

“Vamos combinar uma coisa? Com a bola, façam o que vocês quiserem. Sem a bola, façam o que eu mando!”, pediu o treinador.

O placar final foi 3 a 2 para o Inter.

Em seu apartamento próximo à avenida Paulista, em São Paulo, Minelli se diverte ao contar histórias como essa. Às vezes ele perde a linha de raciocínio, mas as lembranças fluem, assim como as opiniões de quem passa os dias assistindo às partidas pela televisão. A última vez que esteve em um estádio de futebol aconteceu em janeiro. Foi homenageado pelo Palmeiras, o clube onde, meio sem querer, começou a carreira.

Rubens Minelli foi quatro vezes campeão brasileiro entre os anos 1960 e 1970
Rubens Minelli foi quatro vezes campeão brasileiro entre os anos 1960 e 1970 - Bruno Santos/Folhapress

Quatro vezes campeão brasileiro por três clubes diferentes e revolucionário tático do futebol nacional, Minelli continua curioso. Todo esse interesse faz com que perca a paciência. Seja com a qualidade dos jogos ou com as queixas dos treinadores do país pela chegada de profissionais do exterior.

“O futebol está feio, não é? É uma mesmice muito grande. Sem falar na violência, falta de respeito. Aí você olha o futebol europeu e é tudo totalmente diferente. Veja os jogos do Campeonato Inglês. Parece que os jogadores estão lutando por um prato de comida. Aqui o atleta recebe a bola e não tem ninguém perto. Marcação é antes de o jogador receber a bola, não depois”, reclama.

“O problema dos técnicos brasileiros é que antigamente eles tinham mercado e trabalhavam no exterior. Hoje não tem mais. E para completar, os estrangeiros chegaram e estão na frente no Brasileiro”, lembra, citando o português Jorge Jesus, do líder Flamengo, e o argentino Jorge Sampaoli, do segundo colocado Santos.

Entre os campeões nacionais, apenas Vanderlei Luxemburgo e Lula (cinco conquistas cada) venceram mais do que Minelli, ganhador em 1969 (Palmeiras), 1975, 1976 (ambos pelo Internacional) e 1977 (São Paulo).

A memória não trai o veterano técnico para lembrar como suas equipes jogavam ou o quanto trabalhava. Os jogos, treinos e viagens para observar adversários fizeram com que perdesse os oito primeiros aniversários de sua filha. Anotava as informações em cadernetas, várias ainda existentes. Em época sem computadores, ser metódico o fez montar banco de dados de esquemas preferidos pelos outros treinadores e características de atletas que lhe davam vantagens em confrontos futuros.

As viagens de férias à Espanha eram usadas para renovar a biblioteca com livros sobre futebol, uma paixão tardia de Rubens Francisco Minelli, formado em Economia e ponta de carreira discreta. Funcionário dos Correios, foi chamado para trabalhar nas divisões de base do Palmeiras por Canhotinho, ex-ponta esquerda que havia conhecido o treinador quando este comandava times da Faculdade de Ciências da USP (Universidade de São Paulo).

“Canhotinho me ensinou como deve ser uma preleção. Curta, porque senão o jogador dorme na cadeira”, diz.

O técnico paulista pode ser apontado como o mais vencedor da história do futebol nacional a não ter dirigido a seleção brasileira. Ele era a unanimidade em 1977, quando Oswaldo Brandão, um dos seus mestres, foi demitido. Seu discípulo era bicampeão brasileiro pelo Internacional. Naquele ano, conquistaria o tri, mas pelo São Paulo. Era o nome mais comentado do país.

A então CBD (Confederação Brasileira de Desportos) escolheu o preparador físico Claudio Coutinho, que tinha pequena experiência como técnico, nenhum título conquistado e comandava o Flamengo. Minelli perdeu a chance de ir à Copa do Mundo de 1978, na Argentina. .

Era a época em que ele estava na moda por causa do seu Internacional de inovações táticas, como o triângulo no meio-campo. Dupla de volantes formava a base da pirâmide no ataque quando o time tinha a bola. Na marcação, dois ficavam na defesa. A peça móvel era Paulo Roberto Falcão. Os adversários não tinham resposta para essa novidade.

Também não sabiam como superar a linha de impedimento. Foi com o Minelli que o futebol brasileiro viu pela primeira vez um time sair em bloco da área para deixar os rivais em condição ilegal.

“Eu copiei isso da Juventus, da Itália. Mas aqui ninguém sabia que existia. Comecei a treinar e deu certo”, afirma.

Funcionou no Inter. Ele cai na gargalhada ao lembrar que tentou o mesmo ao chegar no São Paulo, mas não teve sucesso porque havia uma palavra-chave para que os jogadores saíssem em linha para deixar o adversário em impedimento. Geralmente era “curió” porque Minelli criava a ave. No Morumbi, o responsável por comandar o movimento era Gilberto Sorriso. Todos os jogadores saíam ao grito do lateral. Menos o próprio Gilberto.

Aposentado há 20 anos, o técnico continua como referência. Convidado para ir à Academia de Futebol do Palmeiras em 2017, passou longo tempo trocando ideias com Roger Machado, então treinador da equipe. Foi chamado para dar palestra aos jogadores da seleção durante a Copa de 2014. Contou a eles a história de quando pensou em contratar Luiz Felipe Scolari para o Internacional porque o zagueiro tinha a liderança que o elenco precisava.

Não fechou negócio. Preferiu Marinho Peres, nome que sempre aparecia nas convocações para a seleção. Mas citou jogo contra o Caxias em que Felipão foi para o ataque nos acréscimos em um escanteio e chamou todos os seus companheiros para a área buscar o empate. O Inter fez a linha do impedimento e dez jogadores do Caxias ficaram impedidos.

“Agora você me f..., hein?”, lhe cochichou Scolari, ao ver os atletas rindo em 2014 com a história.

Campeão gaúcho pelo Grêmio em 1985, Minelli também chegou a ser cotado para substituir Evaristo de Macedo na seleção. A CBF contratou Telê Santana.

“O Grêmio só foi campeão em 1985 porque o Renato Gaúcho operou o joelho e ficou 60 dias afastado. Naquele período ganhamos o título. Ele era uma merda para o grupo”, detona Minelli.

Daí surge a sua maior queixa no futebol. Algo que já existia na sua época mas que hoje, avalia, está em níveis insuportáveis: o jogador que deseja mandar na equipe. Ele desanda a contar histórias da época de Renato, que pensava ser diferente de todos os outros. 

Minelli acredita ser imperdoável o astro que não se sacrifica pelo grupo. E quando teve chances de agir com relação a isso, não pensou duas vezes. Uma das vítimas foi o meia uruguaio Pedro Rocha, um dos maiores craques da história do São Paulo, em 1977.

“Eu falei para a diretoria que com o Pedro Rocha não ganharíamos nada. Ele não marcava ninguém. Sem ele, fomos campeões brasileiros. Graças a Deus nunca fui técnico do Sócrates e do Rivellino também. Sempre jogaram para eles, não para o time”, recorda.

A pergunta é inevitável para quem acompanha tão de perto o futebol atual e tem tanta experiência: e Neymar?

“É um jogador estragado pelo pai, que botou na cabeça do filho que este tem de ser malandro. Só que ele virou um malandro-trouxa.”

A visão do futebol de Rubens Minelli é pragmática. Defendida também pelo mesmo Renato Gaúcho que ele sempre achou prejudicial para a união do elenco de jogadores. Técnico bom é aquele que ganha campeonatos. O resto é conversa fiada.

“Mas meus times sempre procuraram mostrar futebol. Com a bola, os jogadores sempre tinham liberdade para se expressarem em campo. Só que sem a bola, quem mandava era eu”, reforça.

E ganhar vale tanto que pode ser preciso afrouxar um pouco a disciplina que tanto defende. Minelli dá risada com a contradição e o resumo é que futebol não é uma ciência. Não existe fórmula pronta. Depende da observação do técnico.

Ele começa então a contar longa história de quando treinou a seleção paulista e dividiu concentração com o Corinthians. Observou de perto como Sócrates passou a noite fora, chegou atrasado para o treino da manhã seguinte, quase não se mexeu em campo e ainda brincou como goleiro.

“Só que no jogo do dia seguinte, o Corinthians ganhou por 2 a 0. Dois gols do Sócrates.”

E como ele, quatro vezes campeão brasileiro e um dos maiores nomes da história do futebol do país, acredita que o técnico deve encarar uma situação como essa: um craque indisciplinado, que acredita mandar no time, mas resolve na hora da partida? O que fazer?

Rubens Minelli sorri largamente.

“Agradecer.”

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