Com Mattos intocável, Palmeiras vive rotina de troca de técnicos

Diretor de futebol foi o responsável por demitir Felipão e contratar Mano

Luciano Trindade Diego Garcia
São Paulo e Rio de Janeiro

Na segunda-feira (2), por volta das 18h, Alexandre Mattos, 43, dirigiu-se à casa de Luiz Felipe Scolari, 70. O dirigente do Palmeiras foi pessoalmente comunicar a demissão do técnico. Na mesma noite, ele telefonou para Mano Menezes, 57, e, em poucas horas, acertou a contratação do novo treinador da equipe.

Contratar e demitir técnicos, além de buscar uma série de jogadores para atuar pelo time, tem sido a rotina do diretor de futebol do clube, que chegou ao Palmeiras em janeiro de 2015.

Nada que abale o poder do dirigente. Homem de confiança do presidente Maurício Galiotte, ele é visto por quem convive no clube como intocável.

Em quatro anos e oito meses de sua gestão, oito profissionais diferentes já passaram pelo comando da equipe alviverde. Além disso, mais de 60 atletas foram contratados no período. Três títulos foram conquistados por ele: dois Brasileiros (2016 e 2018) e a Copa do Brasil (2015).

Mattos foi o responsável por destinar todo o investimento aplicado pela patrocinadora Crefisa no Palmeiras. A trajetória dele no clube se iniciou justamente no ano em que parceria foi firmada.

Por temporada, a empresa investe cerca de R$ 80 milhões em patrocínio. Nos primeiros anos, além do valor repassado pelo acordo, gastou ainda R$ 120 milhões em reforços, o que gerou uma multa da Receita Federal e a obrigação de mudar o acordo, em 2018. O clube terá de devolver o valor.

A despeito disso, o Palmeiras seguiu contratando atletas. O zagueiro Vitor Hugo, 28, o meia Ramires, 32, e os atacantes Luiz Adriano, 32, e Henrique Dourado, 29, são alguns que chegaram para a temporada 2019.

Esses reforços, que compõem o elenco mais caro do país ao lado do plantel do Flamengo, porém, não foram suficientes para o sucesso do time na Copa do Brasil e na Taça Libertadores deste ano, competições em que o time acabou eliminado nas quartas de final.

Eles também não evitaram que a equipe caísse da primeira para a quinta posição do Campeonato Brasileiro no período após a Copa América. Sem vencer há sete jogos, está a seis pontos de distância de Flamengo e Santos, que lideram (36 a 30). Os palmeirenses, porém, têm uma partida a menos.

A sequência negativa elevou a pressão sobre a diretoria palmeirense, sobretudo contra Mattos. Nos protestos da torcida em frente ao CT alviverde e também nas redes sociais, o nome dele é sempre um dos mais citados, ao lado do de Felipão.

Alexandre Mattos, diretor de futebol do Palmeiras
Alexandre Mattos, diretor de futebol do Palmeiras - Cesar Greco/Agencia Palmeiras/Divulgação

A corda, mais uma vez, estourou no lado do treinador. Segundo o assessor de Scolari, Acaz Fellegger, o técnico definiu sua demissão como uma "decepção", já que traçava planos para os próximos jogos no Brasileiro, contra Goiás e Fluminense.

Mattos não quis esperar essa reação. As eliminações na Copa do Brasil e na Libertadores também pesaram no bolso dele. A Folha teve acesso a parte dos ganhos de Mattos com o Palmeiras entre os anos de 2017 e 2018, os primeiros com o atual presidente Maurício Galiotte.

Antes da recente renovação contratual, com vínculo até 2021, seu salário era de R$ 180 mil mensais. A Folha apurou que para assinar um novo acordo, ele recebeu um aumento, de valor não confirmado pelo Palmeiras.

O executivo também ganha auxílio-moradia, bônus por vitórias —também conhecido no meio futebolístico como bicho— e extras por posição nos campeonatos. Por isso, as eliminações também lhe custaram caro.

Contratado como prestador de serviços, Mattos faturou R$ 22.433,37 com o primeiro lugar na fase de grupos da Libertadores em 2018. Também ganhou mais R$ 16.825,03 após o time eliminar o América-MG na Copa do Brasil, na etapa de oitavas de final, e outros R$ 4.486,68 por vencer o Bahia, pelo Brasileiro, por exemplo.

Além das premiações pelas metas alcançadas, o Palmeiras também garante o pagamento do aluguel do dirigente na capital paulista (R$ 10.500 por mês).

Os valores foram divulgados pelo conselho fiscal do clube. Mattos sofre rejeição no órgão, e os conselheiros contestam os gastos com o profissional.

Além disso, nesta terça-feira (3), o presidente do Conselho Deliberativo, Seraphim Del Grande, teve uma conversa de áudio vazada na qual critica Mattos e a contratação de Mano.

"Acho que nem era momento de mandar o Felipão embora, devia mandar o Alexandre Mattos embora", afirmou Del Grande. "Sem dúvida, se vier o Mano Menezes, seria o caos para nós", acrescentou antes da confirmação da chegada do novo treinador.

Na noite desta terça, paredes do Allianz Parque foram pichadas com mensagens contra a diretoria, entre elas um "Fora, Mattos".

Bilheteria do Allianz Parque com protesto da torcida contra o diretor de futebol Alexandre Mattos
Bilheteria do Allianz Parque com protesto da torcida - Reprodução

Procurado pela reportagem, Alexandre Mattos não respondeu aos questionamentos. Já o Palmeiras não se pronunciou.

Pessoas próximas a Maurício Galiotte, contudo, disseram à reportagem que o presidente do Palmeiras faz uma avaliação positiva do trabalho de Mattos. A manutenção dele no cargo seria uma prova disso.

​O mandatário entende que o diretor foi importante na reestruturação do departamento de futebol, incluindo novas instalações para a base no CT de Guarulhos. E, em contrapartida à série de contrações, ajudou a gerar receitas com as vendas de Gabriel Jesus, Mina e Vitor Hugo, por exemplo.

Mano chega e tenta reverter rejeição

Escolhido por Alexandre Mattos para ser o substituto de Felipão, Mano Menezes já encara um desafio antes mesmo de ser iniciar o seu trabalho no Palmeiras. Assim que a possibilidade de sua contratação veio a público, parte da torcida demonstrou rejeição ao treinador.

Nas redes sociais, a Mancha Alvi Verde, principal organizada do clube, ajudou a promover a hashtag #manonao, umas das mais comentadas na noite de segunda-feira (2). 

No início da tarde desta terça-feira (3), pouco depois de a diretoria confirmação a contratação do treinador, Mano escreveu em seu Twitter a seguinte mensagem: "Grandes sonhos precisam de grandes decisões. Ao Palmeiras e à torcida palmeirense o meu sim: 'Sou Palmeiras, sim senhor!"

A mensagem foi comentada por milhares de usuários. Entre eles, muitos irritados com a chegada do comandante, devido a identificação do gaúcho com o rival Corinthians, clube pelo qual ele teve duas passagens e conquistou três títulos.

Antes de fechar com o Palmeiras, Mano estava desempregado, após pedir demissão do Cruzeiro, com o qual foi campeão da Copa do Brasil de 2018 ao vencer justamente o time do Parque São Jorge na final.

Ele também já teve passagens por Grêmio e Flamengo, além de ter comandado a seleção brasileira de 2010 a 2012. No período, sua único competição oficial foi a Copa América de 2011, quando o Brasil acabou eliminado nas quartas de final. Ironicamente, na seleção, ele foi substituído por Felipão.

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