Descrição de chapéu Financial Times Futebol Internacional

Para driblar fair-play financeiro, clubes europeus emprestam mais

Contrato curto tem menos risco para times, mas gera preocupação sobre carreira

Rory Smith
Financial Times

Quando a Inter de Milão assinou com Alexis Sánchez, do Manchester United, esta semana, o clube italiano queria evitar pagar um preço salgado pela transferência.

Os clubes chegaram a acordo em torno de um empréstimo com a duração de uma temporada, sob o qual dividiriam o custo dos 18 milhões de libras anuais (mais de R$ 595 mi) em salários do atacante chileno, de acordo com duas pessoas informadas sobre os termos da transação.

A estratégia é conhecida por torcedores e comentaristas, e faz parte do futebol há décadas. Mas seu uso cresceu nos últimos anos, à medida que os clubes tentam evitar os pesados custos de transferência dos grandes jogadores, num mercado europeu deque movimenta bilhões de euros ao ano. A janela de transferência atual —o período de três meses durante o qual os clubes estão autorizados a fechar contratos com jogadores— se encerrou na segunda-feira (2) para a maioria das grandes ligas da Europa.

De acordo com uma análise do Financial Times, em 1992 empréstimos respondiam por apenas 6% das transferências nas chamadas cinco grandes ligas do futebol europeu —Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália. Uma década atrás, os acordos de empréstimo respondiam por 20% das transferências. Este ano, a proporção subiu ainda mais, para 29%.

Entrevistas com executivos e especialistas do ramo do futebol revelam que os empréstimos de jogadores não só se generalizaram como sua aplicação se tornou mais sofisticada. Embora seu uso crescente em parte resulte de planejamento financeiro mais inteligente por parte dos principais executivos de futebol, a complexidade das transações começou a atrair mais interesse das autoridades regulatórias do esporte.

No caso de Sánchez, uma transferência temporária convinha às duas partes. O jogador tinha perdido espaço no time titular do Manchester United, e o empréstimo reduziria a enorme folha salarial da equipe inglesa, que totalizou mais de 255 milhões de libras em 2018 (R$ 1,1 bilhão em valores atuais). A Inter de Milão, que não vence um título da Série A italiana desde 2010, estava disposta a apostar em um futebolista que já foi considerado um dos melhores do planeta, mas sem comprometer grandes somas em uma transferência permanente.

"O negócio é muito instável", disse um importante executivo de futebol envolvido na transação por Sánchez. "Você pode conseguir um jogador que imagina o ajudará a derrotar o mundo, e ele na verdade prova ser uma merda. Muitas vezes a coisa sensata é transferi-lo por empréstimo e recuperar pelo menos alguma coisa".

A forma pela qual os empréstimos estão começando a redefinir o mercado de transferências do futebol europeu é demonstrada pelo crescimento de uma determinada modalidade de contrato: o empréstimo com opção de compra.

Ela foi discutida no caso de Sánchez, mas não foi adotada. No entanto, foi isso que o Bayern de Munique conseguiu ao contratar o meio-campista Philippe Coutinho, do Barcelona.

De acordo com uma declaração do clube espanhol, os campeões da Bundesliga alemã concordaram em pagar 8,5 milhões de euros pelo empréstimo (quase R$ 43 mi), com a opção de adquirir o jogador permanentemente no ano que vem por 120 milhões de euros (R$ 605 mi). Essas transações de "experimente antes de comprar" estão em alta. Há 10 anos, houve apenas 28 empréstimos com cláusula de compra pelo time contratante em prazo de uma temporada. Este ano, houve 101 contratos de empréstimos contendo cláusulas de compra, nas cinco grandes ligas.

"O propósito econômico de uma opção de compra é servir como seguro", disse Stefan Szymanski, estudioso do setor de esportes na Universidade do Michigan.

"O clube [de destino] paga algo a mais para garantir que, caso decida contratar o jogador ao final do empréstimo, o preço não seja alto demais. Ou se o [clube de origem] decidir que deseja vender, o preço não seja baixo demais. Assim, esse tipo de contrato permite que os clubes negociem de maneira mais confiável os valores dos jogadores".

Mas Szymanski critica fortemente esse tipo de transação, argumentando que elas criam um ambiente de trabalho instável para os futebolistas.

"Isso diminui o incentivo para que [os clubes] treinem e desenvolvam jogadores", ele disse. "Por que se incomodar, se você está segurado contra flutuações de valor?"

Alguns clubes também usam os empréstimos como uma forma de contornar as regras de transferência, especialmente as de Fair Play Financeiro (FPF) introduzidas em 2011 para impedir que clubes gastem excessivamente em contratações de jogadores.

Um exemplo muito citado é a aquisição, pelo Paris Saint-Germain (PSG), do atacante francês Kyrian Mbappé, emprestado pelo rival nacional Monaco em 2017. A transação incluía uma cláusula incomum: o PSG teria de comprar o atacante por 200 milhões de euros caso o clube conseguisse evitar o rebaixamento na Ligue 1, a primeira divisão do futebol francês. Essa era uma contingência altamente improvável —o time foi campeão francês naquele ano.

As regras de FPF significam que clubes como o francês, envolvidos em competições europeias como a Champions League, estão limitados a prejuízos de não mais de 30 milhões de euros (R$ 151 milhões) em três temporadas.

Tendo contratado o astro brasileiro Neymar semanas antes por um valor recorde de 222 milhões de euros (à época, R$ 824 mi), o valor de transferência e dos salários dos dois jogadores, combinado e distribuído ao longo de cinco anos de contrato, elevava o custo do PSG em 120 milhões de euros anuais (R$ hoje, R$ 605 milhões), de acordo com pessoas informadas sobre as transações.

O PSG argumentou que, porque Mbappé não foi contratado permanentemente no mesmo ano que Neymar, o pagamento por sua transferência foi postergado de maneira a respeitar os limites de gastos, de acordo com pessoas próximas a uma investigação do assunto pela Uefa, a organização que dirige o futebol europeu.

A Uefa mais tarde esclareceu as regras da FPF para definir que acordos de empréstimo "com obrigações de compra condicionais virtualmente certas... devem ser reconhecidos por ambos os clubes como transferência permanente a partir do momento da concepção do acordo de empréstimo".

As maneiras pelas quais alguns dos grandes clubes da Europa estão estruturando contratos de empréstimo de jogadores mais jovens também desperta preocupações.

Os grandes clubes muitas vezes emprestam seus jogadores mais jovens e inexperientes a equipes menores, para que ganhem experiência de jogo. Recentemente, clubes como o Liverpool e o Tottenham Hotspur vêm buscando garantias adicionais, de acordo com pessoas informadas sobre suas negociações.

Elas incluem cláusulas punitivas nos contratos de empréstimo sob as quais o time que recebe o jogador paga uma multa caso o atleta não jogue determinado número de vezes por temporada.

Penalidades financeiras como essas, nos contratos de empréstimo, estão em uso crescente nos últimos cinco anos, de acordo com Daniel Geey, advogado especializado em futebol no escritório londrino de advocacia Sheridans e autor de "Done Deal: An Insider’s Guide to Football Contracts, Multi-Million Pound Transfers and Premier League Big Business" (Negócio fechado: um guia para os contratos do futebol, transferências milionárias e grandes negócios da Premier League, em tradução livre), um livro de 2019 sobre contratos e negócios futebolísticos.

"Sob as regras da Fifa [a organização que comanda o futebol mundial], nenhum time pode ter influência material sobre as políticas de seleção e recrutamento de outro", disse Geey. "Essas penalidades em contratos de empréstimo chegam perto de violar essa norma".

Como mostram as transferências de Sánchez, Mbappé e Coutinho, mesmo os astros mais estabelecidos do esporte são negociado entre os grandes clubes da Europa por empréstimo, o que reflete a mentalidade de vencer a todo custo que permeia o esporte.

"É um sintoma da obsessão do futebol com o curto prazo", disse Omar Chaudhuri, diretor de informações futebolísticas da 21 Club, uma consultoria de futebol londrina.

"O foco é querer ir bem na atual temporada. Vencer e chegar às competições europeias, e se preocupar com futuras temporadas só mais tarde. É como a maioria dos clubes vive, com foco no que podem conseguir na campanha atual, e não em longo prazo".

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