Descrição de chapéu The New York Times

Diretor de time da NBA apoia protestos em Hong Kong e irrita chineses

China é o maior mercado internacional da liga de basquete

Sopan Dep Marc Stein
Nova York | The New York Times

Daryl Morey, diretor geral do Houston Rockets, publicou no Twitter uma postagem em apoio aos manifestantes de Hong Kong, o que irritou a Associação Chinesa de Basquete, presidida por Yao Ming, membro do Hall da Fama do basquete nos Estados Unidos.

O executivo tentou apaziguar os protestos na China, na noite de domingo (6), depois que o apoio que expressou no Twitter aos manifestantes pela democracia em Hong Kong incomodou patrocinadores, veículos de mídia e dirigentes de basquete em um país que investe bilhões de dólares na NBA.

A mensagem inicial de Morey na sexta-feira, na qual ele pedia "apoio a Hong Kong", colocou a NBA em confronto com seu maior e mais prioritário mercado internacional. O tuíte foi retirado rapidamente pelo executivo, e ele tentou mitigar os danos por meio de duas mensagens de esclarecimento postados de Tóquio, onde o Rockets deve jogar dois amistosos de pré-temporada contra o Toronto Raptors.

"Não era minha intenção que meu tuíte causasse ofensa aos torcedores do Rockets e aos meus amigos na China", escreveu Morey, acrescentando que sua opinião era pessoal e não representava a do Rockets ou a da NBA. "Eu simplesmente expressei um pensamento, baseado em uma interpretação, sobre um acontecimento complicado. Depois daquele tuíte, tive amplas oportunidades de ouvir e considerar outras perspectivas".

Ao retirar seu comentário, Morey e o Rockets se expuseram —e expuseram a NBA— a reações adversas dentro dos Estados Unidos, já que o pedido de desculpas contraria a reputação da NBA como uma liga que encoraja a liberdade de expressão e comentários sobre política e outras questões sociais.

Mike Bass, porta-voz da NBA, afirmou em comunicado na noite de domingo que era "lamentável" que as opiniões de Morey tivessem "ofendido profundamente muitos de nossos amigos e torcedores na China", mas deu a entender que o executivo tinha direito a expressá-las. A opinião pública na China continental é profundamente hostil aos manifestantes de Hong Kong, que a mídia noticiosa estatal retrata como arruaceiros violentos.

"Embora Daryl tenha deixado claro que seu tuíte não representa o Rockets ou a NBA, os valores da liga apoiam que indivíduos se eduquem sobre questões importantes para eles e compartilhem suas opiniões a respeito", disse Bass. "Temo grande respeito pela história e pela cultura da China e esperamos que o esporte e a NBA possam ser usados como uma força unificadora que supere as diferenças culturais e promova a união das pessoas".

 

Em um comunicado em chinês postado na popular rede social chinesa Sina Weibo, a NBA assumiu tom diferente, se declarando "profundamente decepcionada com o comentário inapropriado".

O Rockets não planeja medidas disciplinares contra Morey, de acordo com uma pessoa informada sobre as posições dos proprietários do time mas que não estava autorizada a discutir a questão publicamente. Mas resta determinar até que ponto o pedido de desculpas de Morey acalmará os torcedores e as diversas organizações na China que expressaram rejeição muito veemente ao tuíte original de Morey, que continha uma foto e o texto "lute pela liberdade, apoie Hong Kong" - uma referência aos protestos que já duram meses. O lema vem sendo repetido nas manifestações e foi pichado em paredes de toda a cidade.

Além de patrocinadores chineses como a Li Ning, fabricante de calçados esportivos, e o Shanghai Pudong Development Bank Card Center, que anunciaram a suspensão de seu patrocínio ao Rockets, os dirigentes do time enfrentam reação negativa imediata da Associação Chinesa de Basquete e do consulado chinês em Houston. A associação de basquete anunciou domingo que suspenderia sua cooperação com o Rockets, o que foi especialmente preocupante para o clube já que o presidente da associação é o ex-pivô Yao Ming, um dos astros do time entre 2002 e 2011 e integrante do Hall da Fama do basquete. O sucesso de Yao na NBA fez do time um dos times favoritos dos torcedores chineses.

O momento da controvérsia dificilmente poderia ser mais incômodo para a NBA. O Los Angeles Lakers, um dos clubes mais prestigiosos da liga, vai jogar dois amistosos na China continental esta semana contra o Brooklyn Nets, cujo novo proprietário, Joseph Tsai, é o bilionário cofundador do gigante chinês do comércio eletrônico Alibaba. O comissário da NBA, Adam Silver, deve conceder entrevistas coletivas no Japão e na China esta semana.

Em comunicado divulgado na noite de domingo, Tsai tentou reduzir a distância entre os torcedores dos dois continentes, mas na verdade só expôs a grande distância que existe na percepção sobre os acontecimentos de Hong Kong. Ele se referiu aos protestos como "movimento separatista", um sentimento comum na China mas um rótulo que o manifestantes rejeitam. Ele enquadrou o movimento como "questão de integridade territorial da China", ainda que a maior parte dos manifestantes insista em que não estão interessados em independência.

"Não conheço Daryl pessoalmente. Tenho certeza de que ele é um ótimo executivo da NBA, e aceitarei como sincero seu pedido de desculpa subsequente, mas ele não é uma pessoa tão bem informada quanto deveria", escreveu Tsai. "As feridas causadas pelo incidente demorarão muito tempo a se fechar".

O basquete há muito tempo é o esporte mais popular da China, e a NBA fez grandes esforços para cultivar a audiência do país, um mercado com centenas de milhões de torcedores.

O executivo Daryl Morey cumprimenta o astro dos Rockets, Dwight Howard
O executivo Daryl Morey cumprimenta o então astro dos Rockets, Dwight Howard - Scott HALLERAN - 16.mai.2015/AFP

Os maiores astros da liga viajam com frequência ao país oriental, entre as temporadas, para promover seus patrocinadores, e em julho a liga anunciou uma extensão de cinco anos em sua parceria com a Tencent Holdings, uma companhia chinesa de tecnologia, para a transmissão de jogos e outras formas de conteúdo da liga via streaming na China. O contrato é avaliado em US$ 1,5 bilhão (R$ 6 bi) —embora a Tencent tenha respondido à controvérsia anunciando, no domingo, que não transmitiria os jogos do Rockets.

Pouco depois do post inicial de Morey, Tilman Fertitta, o proprietário da equipe, repreendeu o executivo —também via Twitter— com uma mensagem que afirmava "veja bem, @dmorey NÃO fala pelo @HoustonRockets. Nossa presença em Tóquio tem a ver com promoção da @NBA internacionalmente, e NÃO somos uma organização política".

Fertitta mais tarde disse à ESPN que "tenho o melhor diretor geral da liga. Está tudo bem entre Daryl e eu. A reação negativa foi forte, e eu quis deixar claro que a organização não tem posição política. Estamos aqui para jogar basquete e não para ofender qualquer pessoa".

Os esforços da liga para se distanciar dos protestos em Hong Kong foram recebidos negativamente nos Estados Unidos, onde o movimento pró-democracia é visto de maneira favorável pelos democratas e pelos republicanos. O senador Ted Cruz, republicano do Texas, afirmou no Twitter que a NBA estava "recuando vergonhosamente". Rick Scott, senador republicano pela Flórida que recentemente viajou a Hong Kong, tuitou que a declaração da NBA era "uma completa piada".

Diversos pré-candidatos à presidência pelo Partido Democrata também se pronunciaram. Julian Castro disse que os Estados Unidos "precisam liderar com nossos valores e falar pelos manifestantes pró-democracia em Hong Kong, e não permitir que cidadãos americanos sejam intimidados por um um governo autoritário". Beto O'Rourke definiu a declaração da NBA como "embaraçosa".

Em junho, Silver admitiu as complexidades de tentar expandir a presença da liga na China e ao mesmo tempo encarar os obstáculos geopolíticos.

"Não estamos imunes à política internacional, e assim isso é algo a que estamos dedicando muita atenção", disse Silver. "Penso no esporte, e isso é algo que discuti com Yao, como se o basquete fosse algo que pode ser usado como o tênis de mesa foi usado nos dias de Richard Nixon. Talvez surja uma diplomacia do basquete, e essa é uma área em que os dois países têm um excelente histórico de cooperação".

Não houve grande reação da parte de jogadores, exceto Enes Kanter, pivô do Boston Celtics que costuma se pronunciar abertamente sobre a política da Turquia, seu país de origem.

Tradução de Paulo Migliacci

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