Descrição de chapéu Copa Libertadores

Libertadores mostra que técnicos podem ganhar com trabalhos curtos

Renato Gaúcho e Jorge Jesus opõem projetos em busca de vaga na final

Bruno Rodrigues Toni Assis
São Paulo

Tempo de trabalho é o que todos os técnicos de futebol pedem para que possam implementar suas ideias e conseguir os resultados almejados. Mas a Copa Libertadores mostra que nem sempre foi necessário um projeto longevo para alcançar títulos.

Neste século, dos 18 campeões continentais, 9 tinham treinadores com menos de um ano no cargo. Houve até vencedores com apenas dois meses de trabalho e um que participou de quatro jogos.

Nesta quarta-feira (23), o duelo de volta pela semifinal entre Flamengo e Grêmio, às 21h30 (Globo e Fox Sports transmitem), no Maracanã, que decidirá o finalista brasileiro da Libertadores de 2019, opõe diferentes apostas com relação ao tempo dos técnicos em seus respectivos clubes –no jogo de ida, em Porto Alegre, as equipes empataram em 1 a 1.

Renato Gaúcho está desde 2016 no Grêmio, o trabalho mais longevo entre os técnicos da elite do Brasil
Renato Gaúcho está desde 2016 no Grêmio, o trabalho mais longevo entre os técnicos da elite do Brasil - Nelson Almeida/AFP

Renato Gaúcho, 57, comanda o Grêmio desde 2016. Dono do trabalho mais longevo da elite do futebol brasileiro, o ídolo gremista é o exemplo de projeto longo que rende taças. Logo em seu primeiro ano no clube, sagrou-se campeão da Copa do Brasil. Na temporada seguinte, levou o time gaúcho à conquista da Copa Libertadores. Àquela altura, já tinha 13 meses no cargo.

Campeão da Recopa Sul-Americana em 2018, Renato também tem dois estaduais do Rio Grande do Sul (2018 e 2019). Com a manutenção do elenco que conquistou o tricampeonato da América há dois anos, o treinador disputa sua terceira semifinal seguida de Libertadores.

No século, contando apenas os brasileiros vencedores do torneio, só Tite, com o Corinthians em 2012, e Cuca, com o Atlético-MG em 2013, foram campeões com mais de um ano à frente dos clubes –20 meses e 23 meses, respectivamente.

A maioria das conquistas brasileiras no período, entretanto, ocorreu com trabalhos que produziram resultado em pouco tempo. Como o que pode consagrar o português Jorge Jesus, 65, há seis meses no Flamengo e que, além de semifinalista da Libertadores, é líder do Campeonato Brasileiro com dez pontos de vantagem sobre o segundo colocado, Palmeiras.

Desde que chegou à Gávea, Jesus recebeu jogadores importantes e que hoje são imprescindíveis à equipe, como os laterais Rafinha e Filipe Luís e o meia Gerson, destaque rubro-negro no jogo de ida contra o Grêmio, em Porto Alegre.

O uruguaio De Arrascaeta, que era reserva no trabalho do antecessor Abel Braga, ganhou sequência entre os titulares com Jesus e retribuiu a aposta com boas atuações e gols, formando ao lado de Gabriel e Bruno Henrique um trio de ataque poderoso. No Brasileiro, é o terceiro artilheiro flamenguista, com dez gols –Gabriel tem 19, e Bruno Henrique, 12.

Muricy Ramalho, no Santos, e Celso Roth, no Internacional, comandaram equipes campeãs com apenas dois meses de clube. Paulo Autuori, com o São Paulo, precisou somente de um mês a mais para garantir ao time do Morumbi o tricampeonato.

Abel Braga, hoje no Cruzeiro, foi quem teve mais tempo de casa antes de gritar "É campeão!" com o Internacional em 2006: oito meses.

Em 2005, Autuori chegou com a Libertadores em andamento e aproveitou a estrutura da equipe que havia sido campeã paulista com Emerson Leão no início da temporada. Para o zagueiro Diego Lugano, um dos líderes daquele elenco são-paulino, o treinador conseguiu causar um impacto no jogo da equipe, mas principalmente na parte mental.

"O Autuori era um cara muito humano e de grande percepção. Trabalhou muito bem a parte psicológica do elenco e conseguimos ser campeões", diz o uruguaio, hoje dirigente tricolor.

Já a chegada de Muricy ao Santos, em 2011, precisou de mudanças mais significativas. O time, antes treinado por Adilson Batista, corria risco de eliminação ainda na fase de grupos do torneio.

"A confiança do time era baixa. E essa experiência do técnico que já passou por um monte de situações é muito importante. Precisamos fazer um trabalho de convencer os jogadores de que era possível", completa", afirma Muricy à Folha.

Celso Roth é o caso mais emblemático de título em "tiro curto" no período. Na Libertadores de 2010, ele assumiu o Internacional após a parada para a Copa do Mundo e precisou de somente quatro partidas (as duas semifinais e as duas finais) para levar o clube gaúcho ao bicampeonato da América.

Cortez e Gabriel se estranham no jogo de ida da semifinal da Copa Libertadores
Cortez e Gabriel se estranham no jogo de ida da semifinal da Copa Libertadores - Diego Vara/ Reuters

Entre os treinadores campeões de Libertadores neste século, há um que experimentou a glória com dois projetos distintos.

O argentino Edgardo Bauza chegou à LDU (EQU) em 2006 e, dois anos depois, sagrou-se campeão continental com o clube equatoriano.

Em 2007, porém, a torcida pressionou a diretoria pela falta de resultados, forçando Bauza em certa ocasião a deixar o estádio em um carro de polícia. Com aval dos dirigentes para a manutenção do trabalho, o time faturou naquele mesmo ano o título do torneio local, o que preparou a LDU para a conquista da América no ano seguinte.

Já em 2014, o treinador assumiu um San Lorenzo (ARG) que havia acabado de ser campeão argentino. Conquistar a Libertadores era o grande projeto do clube, que convivia há décadas com a provocação dos rivais por nunca ter levantado essa taça.

"Com a Liga [de Quito] foi aos poucos, convencendo os equatorianos de que era possível jogar bem tanto fora de casa como dentro. Para nós foi muito importante ter continuidade. Com o San Lorenzo, corrigimos alguns erros e o Patón [apelido de Bauza] planificou uma espécie de ‘sprint’ para sagrar-se campeão", lembra José Di Leo, assistente do treinador nas duas conquistas.

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