Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro

Flamengo e os paulistas da Série A disputariam títulos na Europa, diz Jesus

Flamengo e Santos duelam neste sábado (14), no Maracanã, pelo Brasileiro

Luciano Trindade
Rio de Janeiro

Passadas 18 rodadas, a tabela do Campeonato Brasileiro tem Flamengo, Santos, Palmeiras, Corinthians e São Paulo entre os seis primeiros colocados. Para o português Jorge Jesus, 65, treinador da equipe carioca, essa elite teria condições de brigar por títulos em ligas europeias.

"Sei o que estou a dizer: Se quiserem ir para os melhores campeonatos da Europa, na Espanha, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra, jogam pelos primeiros seis lugares", diz o técnico, à Folha.

Na lista citada pelo treinador, chama a atenção a ausência do Grêmio. O time gaúcho será o adversário do Flamengo na semifinal da Libertadores. O primeiro jogo será no dia 2 de outubro. No último sábado, o rubro-negro do Rio venceu o Santos, por 1 a 0, no Maracanã, e se manteve na liderança isolada do Brasileiro.

O jogo marca o primeiro encontro do português com o argentino Jorge Sampaoli, 59, único estrangeiro à frente de uma equipe brasileira até a chegada de Jesus à Gávea, há três meses.

Neste período no Brasil, o português afirma ter enfrentado adversários muito bem treinados. "Tenho jogado contra equipes com muita qualidade do ponto de vista tático, coisa que alguns anos não existia [no Brasil]".

É uma opinião diferente da que ele tinha há cerca de um ano, quando concedeu uma entrevista à revista francesa So Foot. Na ocasião, afirmou que os técnicos brasileiros estavam ultrapassados, pois sempre tiveram muitos craques à disposição.

"Quando você tem uma grande qualidade [de atletas], que os jogadores brasileiros normalmente têm e no passado resolviam sozinhos as coisas, nós treinadores, muitas vezes, nem precisamos olhar muito para a parte tática", argumenta. "Quando você tem um Messi, muitas vezes, ele resolve seus problemas", acrescenta.

Qual foi o principal aspecto que você precisou trabalhar com o elenco do Flamengo para tornar o time mais competitivoPrimeiro tivemos de incorporar nossa ideia, como uma equipe técnica nova, com ideias completamente novas. Não digo que são melhores, apenas diferentes. 

Diferente em que sentido? Somos uma equipe que, quando não temos a bola, procuramos recuperá-la rapidamente. Nós [os portugueses], na Europa, fomos os primeiros a ter essa ideia de jogo. Também temos uma força defensiva, não abdicamos disso. 

Quem tem o futebol mais bonito do país, o Grêmio, como diz o técnico Renato Gaúcho, ou o Flamengo?Isso para mim não é muito importante. Cada treinador acha que tem a melhor equipe, o melhor futebol. Isso é normal. Eu aceito a opinião de todos e eles também têm que aceitar a minha. Eu acho que a minha é melhor. O melhor só vai se ver quando o campeonato acabar, quem ganhar os títulos serão os melhores. O que fica é isso. 

"Sei o que estou a dizer: Se quiserem ir para os melhores campeonatos da Europa, na Espanha, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra, jogam pelos primeiros seis lugares", diz o técnico
"Sei o que estou a dizer: Se quiserem ir para os melhores campeonatos da Europa, na Espanha, na Itália, na Alemanha e na Inglaterra, jogam pelos primeiros seis lugares", diz o técnico - Ricardo Borges - 11.set.2019/Folhapress

Além do Flamengo, que outras equipes do futebol brasileiro, na sua opinião, poderiam competir em igualdade nas ligas da Europa?  Eu já joguei contra o Barcelona, Manchester United, Real Madrid...E eu digo: Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo, além do Flamengo jogam pelos seus primeiros lugares nos melhores campeonatos da Europa, na Espanha, Itália, Alemanha e Inglaterra. Não sei se ficariam em primeiro, segundo, terceiro ou sexto, mas jogam. E não estou a fazer favor nenhum. Isso é a verdade dos fatos. 

Qual a liga mais competitivaA da Alemanha. A Inglaterra tem um marketing atrás que faz uns cenários muito bonitos, mas não é aquilo tudo que julgam que é. 

Por que não é? Lá [na Inglaterra] não estão as grandes equipes da Europa. Este ano, sim, com o Liverpool e o Tottenham na final da Champions. Mas olhe uns quatro, cinco anos para trás se as equipes inglesas iam a alguma final da Champions. Nestes últimos dois anos, tiveram essa vantagem. 

O senhor falou com técnicos brasileiros quando foi contratado pelo Flamengo ou algum deles o procurou? Não. Antes de ser contratado pelo Flamengo, já tinha vindo ao Brasil ver alguns jogos. Não tenho uma aproximação profissional com os técnicos. Conheço o Emerson Leão, o Abel Braga, o [Péricles] Chamusca. 

E no campo, antes das partidas, algum veio lhe dar boas vindasNão. Comigo, não. Isso nunca aconteceu.

Isso seria comum na Europa? Se eu fosse treinar na Inglaterra, teria falado com o José [Mourinho], ou com o Marco [Silva], ou com os vários treinadores portugueses que estão nas outras ligas, na França, alguns na segunda liga da Espanha, na China. Aliás, o último campeão da China foi um português. Portanto, os treinadores portugueses, neste momento, são requisitados como os melhores do mundo, isso não tenho dúvida nenhuma. 

Já os treinadores brasileiros não estão presentes nas ligas europeias. O que ajuda a explicar isso?  Não tenho uma opinião para poder justificar por que não estão. Não sei explicar muito bem qual é o problema que há. Mas, nós portugueses, há muitos anos, também não tínhamos muita aceitação em parte nenhuma do mundo, pelo menos, naqueles países onde tem o maior desenvolvimento do futebol, na Europa.

O que os treinadores portugueses fizeram para quebrar essa barreira? O José Mourinho foi o primeiro a ir para a Inglaterra. Passaram a valorizar o treinador português. Pouco a pouco, foram outros. Nós criamos uma metodologia de treino que todos os treinadores europeus querem copiar.

"Quando você tem uma grande qualidade [de atletas], que os jogadores brasileiros normalmente têm e no passado resolviam sozinhos as coisas, nós treinadores, muitas vezes, nem precisamos olhar muito para a parte tática", argumenta
"Quando você tem uma grande qualidade [de atletas], que os jogadores brasileiros normalmente têm e no passado resolviam sozinhos as coisas, nós treinadores, muitas vezes, nem precisamos olhar muito para a parte tática", argumenta - Ricardo Borges - 11.set.2019/Folhapress

Dos atuais técnicos brasileiros, quem você acredita que poderia trabalhar na Europa? Se o Tite pode treinar a seleção do Brasil por que não pode treinar qualquer equipe do mundo? Tenho jogado contra equipes com muita qualidade do ponto de vista tático, coisa que há alguns anos não existia, mas hoje tem. 

Há um ano, o senhor afirmou que os treinadores brasileiros estariam defasados taticamente por sempre terem muitos craques à disposição. Quando você tem uma grande qualidade, que os jogadores brasileiros normalmente têm e no passado resolviam sozinhos as coisas, nós treinadores, muitas vezes, nem precisamos olhar muito para a parte tática. Isso é normal. Com isso, não quer dizer que [os técnicos brasileiros] estão ultrapassados. Quando você tem um Messi, muitas vezes, ele resolve seus problemas sem que você precise ser um treinador taticamente muito evoluído. 

Neste caso, hoje são os treinadores europeus que têm à disposição os melhores jogadores. Então, o treinador europeu é quem tem essa facilidade atualmente? Na Europa, se dá importância para o jogo coletivo e não só individual. Isso não sou eu que digo, sempre ouvi dizer que os jogadores brasileiros, quando vão para a Europa, viram jogadores melhores. Algum motivo tem de ser. . 

Neymar tem sido constantemente criticado por seu comportamento. Como avalia a postura dele Como treinador, eu nunca tiver o prazer de jogar contra ele, que é um grande jogador. Agora, ele precisa definir qual é o seu prazer. O que ele valoriza mais? O meu prazer e minha paixão é jogar futebol ou o meu prazer e minha paixão é a vida social que eu quero ter? Tem que escolher. Se for o futebol, vai ter um comportamento profissional e responsável, como tem o Cristiano [Ronaldo] e o Messi. Eles não são os dois melhores do mundo por acaso. Eles são os melhores em tudo, inclusive em comportamentos fora do futebol.

Quando o senhor decidiu vir trabalhar no Brasil, sua família manifestou alguma preocupação em relação às questões de segurançaEu já conhecia o Brasil mais ou menos. Portanto, vim porque o meu prazer e a minha paixão está acima de tudo. Se há coisas negativas no Brasil, também há em Portugal. Mas como meu prazer e minha paixão de vir treinar aqui era maior, tudo o que tem além disso, para mim, é secundário.

Mas seus familiares perguntaram sobre segurança? A mim não importa muito o que perguntam. A mim importa os meus comportamentos. Eu gosto de viver no Rio, é uma cidade maravilhosa. Não vejo, não senti nada até hoje do que seja diferente de viver em uma grande cidade. Não sou eu que vou ser um veículo transmissor de qualquer coisa negativa do Brasil, que é um excelente país, que tem defeitos como todos têm. 

Como o senhor avalia o governo do presidente Jair Bolsonaro? Olha, politicamente eu não tenho acompanhado muito o que se passa. O Brasil é um país muito grande. Não é fácil governar com uma ideia coletiva. Aquilo que se passa para o mundo, fora do Brasil, é que não é um país seguro. Eu não noto isso. Eu acho que, politicamente, aquilo que tentam neste momento é o que o povo brasileiro tenha segurança. Há um governo que está a tentar dar segurança.


Jorge Jesus, 65

Nascido em Amadora, Portugal, atuou como meia. Só jogou em seu país, em 12 clubes. Há 30 anos, é treinador, com passagens por Benfica, pelo qual foi tricampeão português, e Sporting. Assumiu o Flamengo em junho deste ano.

FLAMENGO
SANTOS

17h, Maracanã
Na TV: Premiere

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