Tiago Nunes carrega perfil linha dura após rodar o país em 22 clubes

Perto do Corinthians, ex-técnico do Athletico atuou em times de todas as regiões

São Paulo

Certa vez, o técnico Tiago Nunes, 39, ouviu Mano Menezes, 57, dizer que a escolha do segundo clube grande da carreira é decisiva para poder sedimentar seu nome no mercado.

Campeão da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil pelo Athletico, o agora ex-treinador do clube paranaense escolheu o Corinthians para seguir, a partir de 2020, com sua ascensão profissional dentro do futebol brasileiro. Atualmente, ele negocia contrato com a agremiação paulista.

Antes de chegar ao time rubro-negro, Nunes precisou rodar por 21 clubes de nove estados do país e do Distrito Federal.

Técnico Tiago Nunes durante partida pelo Athletico-PR na Copa Sul-Americana
Técnico Tiago Nunes durante partida pelo Athletico-PR na Copa Sul-Americana - 12.dez.18/AFP

Durante sua peregrinação por equipes pequenas do Brasil, ele iniciou como preparador físico. Mesmo jovem, já mostrava o perfil exigente, e às vezes até linha dura, que caracterizaram seus trabalhos.

Foi assim, por exemplo, no Bacabal-MA, onde trabalhou com o técnico Luiz Carlos Winck, em 2007. "O Tiago e eu tínhamos de organizar tudo no clube. Eu como técnico, ele como preparador físico, muitas vezes ficávamos até de babá para os atletas com questões relacionadas à disciplina", conta à Folha o ex-lateral de Inter, Grêmio, Flamengo e Corinthians.

O time chegou a ser vice-campeão maranhense, mas isso não evitou que eles fossem demitidos. Naquele ano, o Bacabal tinha uma parceria com a prefeitura da cidade. Segundo o presidente do clube, Francisco de Assis Rodrigues, o prefeito da época queria mais liberdade para interferir no time e pediu a demissão de Nunes e Winck.

Winck confirma a história: "Eles queriam interferir em tudo, principalmente em contratações". Para ele, essa experiência ajudou a formar o perfil de Nunes. "A gente sabe que, para você querer colocar certas coisas em clubes grandes, tem de ter um certo cuidado."

O ex-zagueiro Serginho, atualmente dirigente no Santa Cruz-RS e que trabalhou com o treinador em vários clubes, lembra como Nunes era exigente.

"Ele gostava que a gente executasse o trabalho no limite. No Maranhão, um estado com muito calor, alguns atletas não estavam acostumados com o método de trabalho dele, e nem por isso deixou de implementar. Tinha jogadores com passagens por Vasco, Fluminense, Coritiba, e ele não arregava", diz.

Ainda como preparador físico, o gaúcho de Santa Maria conquistou o título estadual com o Luverdense, em 2009. No ano seguinte, já havia dado o salto para o comando técnico e levantou a taça do Campeonato Acriano, com o Rio Branco.

Responsável pela contratação de Tiago Nunes para as categorias de base do Grêmio, em 2013, Júnior Chávare, atualmente diretor da base do Atlético-MG, destaca essa capacidade de comando do treinador.

"Ele é um gestor, sabe gerir um grupo com muita humildade, prima muito pelo bom relacionamento e alia isso ao seu grande conhecimento técnico do futebol", diz à Folha. "Ele é muito enérgico, mas sempre educado."

Para o pai de Tiago, o aposentado Múcio da Silva Nunes, 72, o treinador carrega outras experiências que foram fundamentais em sua carreira, como ter dirigido o Bagé, em 2012, pelo qual participou de um dos clássicos mais tradicionais do Rio Grande do Sul, o Ba-Gua (Bagé x Guarany de Bagé).

"Quem enfrentou um Ba-Gua e venceu, por 3 a 0, num dia de chuva, não se assusta com nada", diz o pai.

Com esse estilo, o técnico levou o Athletico à conquista da inédita taça da Copa Sul-Americana em 2018, derrotando o Junior Barranquilla (COL) na decisão. Este ano, ele teve uma nova campanha vitoriosa, desta vez, na Copa do Brasil, ao conquistar o título superando o Internacional na final.

O Athletico, já sem pretensões no Campeonato Brasileiro após a conquista do título da Copa do Brasil, foi a Itaquera, no último dia 10 de outubro, com um time reserva, para enfrentar um Corinthians ávido por uma vitória a fim de se manter, àquela altura, no G4 da competição.

Em campo, o que se viu foi o time paulista completamente dominado pelo adversário. Sem criatividade no ataque e desorganizado na defesa, foi envolvido pelo ágil toque de bola, compactação e velocidade do Athletico.

A equipe então comandada por Fábio Carille, 46, conseguiu arrancar um empate em 2 a 2, apesar de ter jogado menos que o rival. Os gols corintianos nasceram da insistência em cruzar a bola na área. O time paranaense anotou em lances trabalhados com triangulações, organização tática e finalizações precisas.

Menos de um mês depois daquele resultado, o Corinthians resolveu apostar em Nunes para substituir Carille. Nesta quarta (6), o novo treinador alvinegro anunciou sua despedida do atual campeão da Copa do Brasil e falou que vai ouvir de seu empresário os detalhes da proposta alvinegra.

"O que vai acontecer a partir desse momento vai ser debatido, discutido, e aí vamos pensar em 2020, usando dezembro para questões de planejamento", disse o treinador, reafirmando sua vontade de só voltar a trabalhar à beira do campo na próxima temporada.

Nunes é formado em educação física pela Universidade Federal de Santa Maria e, com orgulho, um devorador de livros. Adora biografias. Já leu as histórias dos técnicos José Mourinho, Pep Guardiola e Alex Ferguson, dos quais tenta extrair noções que possa implementar ao seu trabalho.

Sua obra preferida é "Pirâmide Invertida", do jornalista inglês Jonathan Wilson. O livro se propõe a contar a evolução dos esquemas táticos no futebol, algo a que Nunes está bastante atento. "O dilema de que tratamos hoje, entre a posse de bola e as equipes reativas, é o mesmo descrito no livro entre os ingleses e escoceses no século 19", afirmou.

No Athletico, Nunes resolveu esse dilema fazendo os jogadores terem uma posse de bola objetiva, em busca do ataque, além de contra-atacar com velocidade. Com ele, a equipe tinha até o início da 31ª rodada do Brasileiro o quarto melhor ataque do torneio, com 44 gols marcados. O Corinthians havia feito 32.

Agora, o desafio será repetir esse sucesso à frente de um Corinthians que caminha para terminar este ano em crise pela sequência de maus resultados que colocaram em xeque a possibilidade de o time conseguir, ao menos, uma vaga na Libertadores de 2020, último objetivo que resta ao clube neste ano.

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