Times do Brasil melhoram menos com trocas de técnicos que europeus

Equipes da Série A do Campeonato Brasileiro fazem mais mudanças que clubes da elite da Europa

São Paulo

Enquanto tentava escapar do rebaixamento, o Cruzeiro teve quatro técnicos diferentes durante o Brasileiro-2019. Em vão. Dos cinco primeiros colocados do torneio, Santos, Grêmio e Athletico-PR não trocaram de comandante, e Flamengo e Palmeiras mudaram uma vez (sem considerar interinos).

O cenário de 2019 repetiu algo comum no futebol brasileiro: dirigentes trocando de técnico na espera de uma melhora no desempenho das equipes. Na Série A, entre 2014 e 2019, houve 75 mudanças —mais que o dobro do que o registrado nas maiores ligas da Europa. O desempenho dos times após a entrada do novo comandante foi, em média, 24% melhor do que o registrado no período anterior. 

Como comparação, o Campeonato Alemão teve 22 mudanças entre as temporadas 2014/15 e 2018/19. Após as trocas, o desempenho dos times subiu 76% em média.

No período —2014 a 2019— utilizado no levantamento da Folha, houve pelo menos 240 trocas de técnico nas primeiras divisões de Alemanha, Brasil, Espanha, França, Inglaterra, Itália e Portugal. 

Foram considerados apenas nomes que tiveram no mínimo dez jogos no cargo e que assumiram o posto durante a disputa da 1ª divisão de cada país. O aproveitamento da equipe com o técnico que assumiu foi comparado com o desempenho do time antes dele, na mesma temporada.

"Na Europa, quando sai um treinador, os dirigentes têm um perfil claro do que querem. Aqui, quando um sai, coloca-se cinco nomes em debate, é uma salada de frutas. Lá se faz um processo seletivo, para definir não só qual a ideia de jogo", afirma Paulo Autuori, que foi diretor de futebol do Santos em 2019.

“O próprio atleta fica na expectativa de que a mudança aconteça, em razão dessa, teoricamente, cultura do futebol brasileiro [de muitas trocas], que para mim é uma falta de cultura. A Europa nunca teve essa tradição de alteração em meio de temporada”, complementa o técnico Dorival Jr, atualmente sem clube.

Ele cita o exemplo de Jurgen Klopp, que está há quatro anos no Liverpool e só na última temporada conquistou seu primeiro grande título, a Champions League, e agora lidera o Campeonato Inglês na atual temporada.

O time que registrou a maior diferença no desempenho após uma mudança de treinador no período analisado foi o Levante, da Espanha. Paco López assumiu a equipe que brigava para não cair e tinha menos de um terço de aproveitamento dos pontos na 27ª rodada do Espanhol de 2017/18. Em 11 partidas com ele, o time confirmou a permanência na elite, após conquistar 76% dos pontos disputados.

No Brasil, Tiago Nunes foi quem conseguiu a maior melhora de desempenho em 2019. Após assumir Athletico-PR, obteve 62% dos pontos disputados. Antes, com Fernando Diniz, a equipe de Curitiba teve 25% de aproveitamento. 

O levantamento da Folha mostra que a maioria dos times que teve melhora no aproveitamento após trocar de técnico deu mais tempo ao novo treinador que ao anterior.

Dar continuidade ao trabalho era o que queria o diretor de futebol do Fortaleza, Daniel de Paula, na volta do clube à Série A, nesta temporada.

 "Quando contratamos o Rogério [Ceni], ele vinha de um trabalho não muito efetivo no São Paulo. Quando ele perdeu o Estadual, choveu gente dizendo que a gente tinha que tirar ele. Demos tempo para que ele pudesse organizar o perfil de trabalho", afirma.

Ceni deixou o Fortaleza no meio do Brasileiro, por sua vontade, para assumir o Cruzeiro. Foi demitido três meses depois do clube mineiro e voltou para a equipe cearense.

O Fortaleza terminou a Série A em 9º, com vaga na Sul-Americana pela primeira vez. Já o Cruzeiro teve quatro técnicos diferentes e foi rebaixado, superado pelo Ceará, que ficou em 20º, na última posição que garante permanência na Série A.

O Ceará não foi um exemplo de continuidade na competição. Teve três técnicos no Brasileiro. O último, Argel Fucks, assumiu com 36% de aproveitamento, em 15º.

"Missão dada é missão cumprida", disse Argel após o clube garantir a permanência na Série A. Com o técnico —que antes comandou o rebaixado CSA—, o time teve dois empates (22% de aproveitamento), não venceu e só não caiu graças às derrotas do Cruzeiro.

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