Descrição de chapéu Tóquio 2020 São Paulo

Times e atletas ainda aprendem a lidar com ofensas nas redes sociais

Psicólogos se preocupam com reação de esportistas que recebem críticas pesadas

São Paulo

O técnico do Manchester United, Ole Gunnar Solskjaer, pediu para o meia-atacante Jesse Lingard, 27, se afastar das redes sociais por alguns meses.

Com suspeitas de que comentários negativos tenham influência no desempenho dos seus jogadores, principalmente os mais jovens, o clube inglês contratou uma equipe de especialistas para aconselhá-los sobre como lidar com xingamentos e críticas na internet.

Ben Hunt, 29, jogador de rúgbi na liga de rúgbi australiana, procurou psicólogo e confessou dificuldade para se manter mentalmente bem depois de ler ofensas direcionadas a ele no Twitter.

Arboleda comemora gol contra a Ferroviária. Nas férias, zagueiro postou foto usando camisa do Palmeiras
Arboleda comemora gol contra a Ferroviária. Nas férias, zagueiro postou foto usando camisa do Palmeiras - Rubens Chiri-29.jan20/saopaulofc.net

Kevin Durant, 31, hoje em dia no Brooklyn Nets, da NBA, tinha contas falsas nessa plataforma e as usava para se defender de ofensas. Ele depois explicou ter outros perfis, além do oficial, para se comunicar com amigos e familiares mas teria se esquecido de voltar à original para responder às críticas. 

O comissário da liga americana de basquete, Adam Silver, confessou surpresa ao perceber que vários jogadores pareciam infelizes e isolados.

Essa é uma percepção que engatinha no Brasil, especialmente no futebol, o esporte mais popular do país. Dos quatro principais times paulistas, nenhum tem psicólogo no dia a dia do elenco profissional ou faz trabalho para que os atletas saibam lidar com mensagens nas redes sociais.

O São Paulo tem uma profissional na função, mas que, segundo o clube, não participa ativamente no cotidiano.

O Palmeiras possui psicóloga para todas as categorias de base, e ela também faz o papel de assistente social. Novidade no futebol do estado, o Red Bull Bragantino tem psicólogo, assistente social e pedagoga para a base. No profissional, há um coach.

“O futebol não tem capacidade para parar e discutir esse assunto. As pessoas acham que têm de trazer comediante, gente que anda sobre cacos de vidro, em carvão na brasa... Enquanto houver esse pensamento no futebol e acreditarem em coisas assim, não vai mudar”, critica o psicólogo e neurocientista Murilo Calafange.

Os clubes brasileiros não têm o que Jim Taylor, doutor em psicologia esportiva e professor da Universidade de San Francisco, nos Estados Unidos, chama de “programa de treinamento de imagem”, em que o esportista adquire a consciência de se preservar nas redes sociais e mantém o foco apenas para sua atividade esportiva.

“Eu acredito que o atleta precisa se afastar das redes sociais antes de competições ou partidas importantes. Em um Campeonato Brasileiro de pontos corridos, claro que ele vai querer dar atenção à família e aos amigos. Isso muitas vezes acontece a partir do mesmo aparelho [celular] em que lida com as mensagens das redes sociais", diz Eduardo Cillio, psicólogo do esporte com trabalhos em 10 times da Série A e na seleção brasileira de futsal.

"Há times que limitam o uso do telefone nas refeições e nos quartos. Eu prefiro que ele tenha consciência de que precisa reservar esse tempo para descansar e aprenda a se controlar”, completa.

Ele instruiu a dupla Ágatha e Duda, do vôlei de praia, a deixar suas redes sociais nas mãos de uma empresa 20 dias antes do embarque para a Olimpíada de Tóquio. Cillio ainda tenta convencer as jogadoras da seleção feminina de rúgbi a fazer o mesmo.

“É fundamental que, em uma competição assim, elas não tenham preocupação com mensagens de outras pessoas ou críticas. Mesmo que não tenha reclamações, o volume de mensagens atrapalha. Toma tempo, exige atenção em um momento em que elas deveriam estar descansando ou se preparando para a competição”, opina.

Nas duas últimas Olimpíadas, atletas brasileiros tiveram problemas com as redes sociais. Após sua primeira prova na Rio-2016, a nadadora Joanna Maranhão escreveu uma mensagem de agradecimento aos torcedores em sua página do Facebook. Usuários fizeram comentários ofensivos contra ela, que respondeu.

Quatro anos antes, em Londres, a judoca Rafaela Silva foi eliminada nas eliminatórias por causa de um golpe irregular e recebeu xingamentos racistas nas redes sociais.

Novas modalidades, como os esports, dependem muito da interação dos jogadores com seus seguidores ou fãs. Ao contrário dos clubes de futebol, os times mais importantes de games do país contam com psicólogos.

 

“As redes sociais se transformaram no maior meio de comunicação e relação do atleta. Torna-se a sua forma de se relacionar com os outros. É um aspecto da sua personalidade. E o atleta é um influenciador. A vida é dele é compartilhada. O que fala, como se comporta, aquilo que responde, como responde...”, afirma Alessandra Dutra, psicóloga do RED Canids, organização de esports, e do COB (Comitê Olímpico do Brasil).

“É preciso que o atleta entenda o que é a sua imagem. É hipocrisia falar 'não entre nas redes'. É um preconceito. É preciso ter uma relação consciente”, completa.

Não há estatísticas sobre qual é o esporte mais visado pelos detratores das redes, conhecidos como "haters", mas pela popularidade o futebol acaba ganhando mais repercussão.

O Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo afirma ter o programa Educatleta, que fala aos jogadores como e quando se posicionar nas redes sociais.

"Os clubes não fazem questão que seus contratados participem. Eles não percebem que é algo que pode afetar também a imagem das equipes", afirma Rinaldo Martorelli, presidente da entidade.

Em 2019, o meia argentino Andreas D'Alessandro foi à Delegacia de Repressão a Crimes Informáticos em Porto Alegre com um relatório de ofensas direcionadas a ele e seus familiares nas redes sociais. Onze pessoas foram indiciadas por difamação.

D'Alessandro procurou delegacia especializada para relatar ofensas que recebeu nas redes sociais
D'Alessandro procurou delegacia especializada para relatar ofensas que recebeu nas redes sociais - Diego Vara-13.mar.19/Reuters

Em dezembro do ano passado, enquanto estava de férias no Equador, o zagueiro do São Paulo Arboleda tirou uma foto com a camisa do Palmeiras. Duramente criticado por torcedores na internet, ele logo postou pedido de desculpas.

Ao se apresentar no time tricolor, em janeiro, ouviu conselhos de funcionários do São Paulo e do técnico Fernando Diniz. Formado em psicologia, o treinador também assume o papel de psicólogo do elenco.

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