Descrição de chapéu Campeonato Brasileiro 2020

Chapecoense se reconstrói pela defesa em meio a crise e novo luto

Muito perto do retorno à Série A, equipe catarinense viveu novo ano de provação em 2020

São Paulo

Nos primeiros meses de 2020, a Chapecoense rondou a zona de degola do Campeonato Catarinense. Com sérios problemas financeiros e rebaixada meses antes no Brasileiro, parecia que o conto de fadas do time havia acabado depois de seis anos consecutivos na Série A.

O mesmo clube começa 2021 às portas do retorno à elite, após um ano em que precisou superar, além dos maus resultados, uma crise financeira e a morte de seu presidente, Paulo Magro, vítima da Covid-19 no dia 30 de dezembro.

A reconstrução se apoia em um desempenho defensivo histórico. A seis rodadas do encerramento da Série B, a Chapecoense, que se recuperou no estadual e acabou campeã, ocupa a segunda posição, com 63 pontos.

Chapecoense (de verde) enfrenta o Brasil de Pelotas na Arena Condá
Chapecoense (de verde) enfrenta o Brasil de Pelotas na Arena Condá - Márcio Cunha-3.jan.21/ACF

Está empatada com o líder América-MG e fica atrás por ter uma vitória a menos (18 a 17). São 12 pontos de vantagem em relação ao CSA, quinto colocado e primeira equipe fora da zona de acesso. No sábado (9), a Chape visita o Botafogo, em Ribeirão Preto, às 21h, e pode ficar ainda mais perto da elite.

Com 14 gols sofridos em 32 rodadas (média de 0,43), a retaguarda do time catarinense tem até agora o melhor desempenho da história do Campeonato Brasileiro em pontos corridos, incluídas as séries A e B.

Se sofrer menos de cinco gols nos seis jogos que restam —e guardadas as diferenças de nível entre as divisões—, vai bater a marca do São Paulo de 2007, que sofreu 19 em 38 partidas (0,50) na Série A.

A fórmula de disputa em pontos corridos teve início em 2003 na elite e em 2006 na segunda divisão.

"Desde o começo, a gente sabia que o segredo da Série B é ter uma defesa sólida e jogar por poucas bolas. É um campeonato muito truncado. Os times não têm muitas oportunidades [para fazer gols] e, quando elas aparecem, é preciso aproveitar. A ideia do esquema tático é que a defesa estivesse protegida. Quando você vê que dá certo, os jogadores ganham confiança", diz o zagueiro Felipe Santana, 34.

Com 36 gols anotados, a equipe tem apenas o oitavo melhor ataque da competição. Das 17 vitórias, apenas uma foi obtida com diferença superior a dois gols (5 a 0 na Ponte Preta).

"Pressionamos o adversário para impedir que ele tenha o passe fácil, fazemos com que não tenha organização no ataque e podemos retomar a bola em situação favorável. Isso é muito falado e treinado. É um comportamento que insistimos bastante. A marcação começa no ataque", afirma o técnico Umberto Louzer, 40, que assumiu o comando quando a Chape estava na lanterna do Catarinense.

A volta à Série A significará um alívio para o clube, que vive com problemas financeiros desde o final de 2016, quando o avião que levava o elenco para jogar a final da Copa Sul-Americana caiu nos arredores de Medellín, na Colômbia. Entre passageiros e tripulantes, 71 pessoas morreram.

Três anos após o auge, a Chapecoense não resistiu e acabou rebaixada. Na Série B, recebeu neste ano uma cota fixa de R$ 8 milhões pelos direitos de transmissão. Para o total dos 20 clubes da Série A, o Grupo Globo paga cerca de R$ 1,1 bilhão por ano, distribuídos de acordo com variáveis como número de jogos mostrados em TV aberta, pacotes de pay-per-view vendidos e colocação final na tabela de classificação.

A equipe catarinense precisa de toda a receita que conseguir. As dívidas atualmente somam R$ 82 milhões, R$ 53 milhões a serem pagos a curto prazo. Os déficits de 2018 e 2019 foram de aproximadamente R$ 40 milhões.

A Chape também encontra problemas para manter os salários em dia. A folha de março, por exemplo, foi quitada com a ajuda de uma empresa de marketing.

Dos débitos da agremiação, R$ 39 milhões se referem a acordos com vítimas do acidente aéreo.

No fim de 2020, a agremiação viveu um novo momento de luto, com a morte do presidente Paulo Magro. Ele vinha tentando sanear as contas, missão que passou a ser de Gilson Sbeghen.

"Temos de seguir o trabalho que era feito, com cautela e pés no chão. Os problemas financeiros existem, inclusive com fornecedores. O trabalho é com austeridade", defende Sbeghen, que deve ficar na presidência até as próximas eleições, no final deste ano.

As contratações feitas em 2020 foram de jogadores baratos ou que estavam disponíveis no mercado. Felipe Santana, por exemplo, estava afastado do futebol havia dois anos e havia decidido interromper a carreira por causa das seguidas lesões.

"Fiquei dois anos, seis meses e 14 dias fora de jogos oficiais. Chegou um momento em que meu corpo não conseguia mais. Mas a diretoria me procurou para falar sobre o projeto de voltar à Série A e isso foi em momento que o time não estava bem no Catarinense. Ressurgimos das cinzas no estadual e fomos campeões. Agora a gente quer não apenas subir, mas ganhar o título da Série B", afirma o zagueiro.

Terminar em primeiro significaria obter o primeiro título nacional da história da Chape. Isso tem sido ressaltado por Louzer. "Temos de coroar esse trabalho com o título", ele diz.

Sem contato com os torcedores nos estádios, já que os jogos acontecem sem a presença de público, os jogadores já falaram sobre a possibilidade de um desfile em carro aberto pelas ruas de Chapecó.

Assim, mesmo que a distância, a população que viveu as dores de 2016 e 2019 poderia saudar os atletas que recolocaram a Chapecoense na elite do país.

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