Descrição de chapéu Futebol Feminino

Museu do Futebol faz vaquinha para criar audioguia do futebol feminino

Entidade busca arrecadar R$ 80 mil até o próximo dia 20 para viabilizar o projeto

São Paulo

Sabe-se que Café Filho, responsável por assumir o governo federal após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, foi goleiro do Alecrim-RN no fim da década de 1910. É o único presidente brasileiro na história a ter jogado pelo time principal de um clube de futebol do país.

O que pouca gente sabe, porém, é que sua esposa, Jandira Café, também foi jogadora. Os dois, inclusive, se conheceram graças ao esporte, no início dos anos 1920. Ele, como vice-presidente do Centro Sportivo Natalense, e Jandira, volante da equipe potiguar.

São histórias como a de Jandira que o Museu do Futebol quer popularizar e levar ao público com a campanha "Minha voz faz história", um projeto de financiamento coletivo –a vaquinha virtual– para viabilizar a criação de um audioguia que irá repassar os mais de 100 anos da modalidade feminina no Brasil, incluindo o período de proibição da prática para mulheres, que durou de 1941 a 1979.

Jandira Café jogou como volante pelo Centro Sportivo Natalense. Na foto, o time posa junto do ABC de Natal
Jandira Café jogou como volante pelo Centro Sportivo Natalense. Na foto, o time posa junto do ABC de Natal - Instituto Tavares de Lyra

"Ano que vem é o ensejo da data dos 80 anos da proibição do futebol feminino pelo decreto do Getúlio Vargas. A gente vai fazer muito barulho, e por isso queremos esse audioguia. Discutir por que a gente demorou tanto tempo para se reencontrar com essas histórias de mulheres, muitas vezes periféricas, indígenas, prostitutas, domésticas", diz Aira Bonfim, historiadora e produtora da campanha, à Folha.

"O futebol feminino sempre esteve na periferia da experiência. Desde 2008, o museu tem o seu audioguia com as histórias mais conhecidas que estão na exposição, predominantemente masculinas. Hoje, nós nos vemos preparados para oferecer mais de 100 anos de história das mulheres jogando bola."

A ideia da curadoria do audioguia é que o visitante do museu transite pelas diferentes salas do Pacaembu com a possibilidade de seguir, ao mesmo tempo, as duas narrativas: da exposição permanente, que conta a história do futebol brasileiro basicamente pelo jogo dos homens, e o material em áudio, que levará a esse visitante o conteúdo da trajetória das mulheres.

Um exemplo mais concreto de como isso funcionará está logo na entrada do museu. Em vez de contarem apenas com os cumprimentos de Pelé, que sempre dá as boas-vindas a todos por meio de um telão, as pessoas serão recebidas também por uma jogadora, cuja voz será reproduzida no audioguia.

E para que o projeto seja viabilizado, o Museu do Futebol precisa arrecadar pelo menos R$ 80 mil até o próximo dia 20 de dezembro. A campanha, que está sediada na plataforma Benfeitoria (você pode acessar aqui), foi uma das 22 selecionadas entre 175 propostas enviadas para participar do edital "BNDES+".

A participação do órgão consiste em um novo formato de financiamento chamado matchfunding. Para cada doação, o BNDES acrescenta o dobro. Ou seja, se uma pessoa faz o aporte de R$ 60, por exemplo, são contabilizados R$ 180 para a campanha.

A vaquinha faz parte da modalidade "tudo ou nada", isto é, se o valor desejado não for arrecadado, o dinheiro será devolvido. Até a tarde desta segunda-feira (14), já haviam sido doados R$ 67,5 mil.

"Avaliamos vários critérios para a escolha dos projetos. Tradição do patrimônio, a inovação que o projeto traz para o patrimônio, o potencial de arrecadação, histórico do próprio proponente", explica Yasmin Youssef, gerente de relacionamento institucional da Benfeitoria.

"Esse projeto traz uma discussão super inovadora de ênfase ao futebol feminino e você leva a experiência física para fora das portas do museu. O audioguia poderá ser acessado virtualmente, fora do Museu do Futebol, expandindo a experiência para o ambiente externo", completa.

Com o audioguia, o Museu do Futebol fortalece sua posição de protagonismo na luta por maior visibilidade e reconhecimento para o jogo das mulheres.

Em 2015, a instituição sediou sua primeira exposição dedicada exclusivamente ao tema. "Visibilidade para o futebol feminino" levou para dentro do museu histórias da seleção brasileira e do período de clandestinidade da modalidade.

No ano passado, outra exposição reforçou esse compromisso. "Contra-Ataque! - As mulheres do futebol" discutiu e apresentou histórias de resistência do período da proibição do futebol feminino no país, entre 1941 e 1979.

Pia Sundhage, com o adesivo da campanha "Jogue como uma garota", parceria da marca Puta Peita com o Museu do Futebol
Pia Sundhage, com o adesivo da campanha "Jogue como uma garota", parceria da marca Puta Peita com o Museu do Futebol - Puta Peita/Divulgação

A historiadora Aira Bonfim, que trabalhou em ambas as exposições, espera que o audioguia seja mais um passo nessa direção e comemora o que é, para ela, "a primeira ação feminista de verdade do museu".

A característica militante está principalmente nas recompensas a quem colaborar com a vaquinha. Em parceria com a marca Puta Peita, a campanha irá premiar doadores com camisetas, lenços, mochilas e adesivos com a mensagem "Jogue como uma garota".

Para saber mais informações sobre o projeto e como colaborar, acesse www.benfeitoria.com/museudofutebol.​

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