Descrição de chapéu
Copa Libertadores 2020

Cuca dribla problemas, encontra soluções caseiras e se reinventa no Santos

Na final da Libertadores, técnico chega ao ápice da capacidade de administrar elencos

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

São Paulo

Com sete títulos conquistados na década passada, Cuca tem uma carreira marcada por vitórias, superstições e religião.

Correu a história de ele não deixar o motorista do ônibus do Palmeiras engatar a marcha ré na campanha do título brasileiro em 2016 (algo que hoje ele nega ter acontecido). Nos jogos da Libertadores de 2013, ficou marcado por usar uma camisa com a imagem de Nossa Senhora, que for parar no museu do Atlético-MG.

A partir de agosto de 2020, no Santos, Cuca agregou a capacidade de unir os jogadores em torno de um ideal e surpreendeu até os funcionários do clube. O resultado foi a classificação para a final da Libertadores, neste sábado (30), às 17h, diante do Palmeiras.

Cuca teve de se adaptar para ter sucesso na Vila Belmiro. O treinador que demonstrava profunda tristeza nas derrotas ficou no passado. Não importava o resultado, ele não poderia se dar ao luxo de abater os jogadores santistas.

Com o clube banido de realizar transferências por causa de problemas financeiros, o comandante sabia que no jogo seguinte aqueles mesmos atletas teriam de ser utilizados. Havia pouca margem de mudança entre os que estavam no banco e nenhuma chance de reforços.

A sua tristeza em Manizales, na Colômbia, em 2004, chamou a atenção até dos jogadores do São Paulo. Alguns notaram que Cuca ficou por mais de 30 minutos à mesa do jantar, com um prato de sopa à sua frente, apenas a mexer no líquido com a colher, cabisbaixo. Horas antes, seu time havia levado um gol do Once Caldas no último minuto e perdido a chance de ir à decisão da mesma Libertadores.

Cuca durante treino no Maracanã antes da final da Libertadores
Cuca durante treino no Maracanã antes da final da Libertadores - Ricardo Moraes/Reuters

Se esse Cuca ainda existe, não foi visto na atual passagem da Vila Belmiro.

"Por ser um elenco jovem, precisa de moral, de confiança, mesmo dos veteranos. Isso você não dá, mas faz adquirir durante os treinamentos e jogos. Tem dado tudo certo", afirmou.

Ele chegou ao ápice na capacidade de administrar elencos e conseguiu transformar os problemas financeiros fora de campo em um desafio para os jogadores dentro das quatro linhas. Chegou a dizer para os atletas que se tratava de uma disputa "deles [comissão técnica e jogadores] contra o resto do mundo".

Desde que Cuca chegou, em agosto, o clube já teve três presidentes. Um acordo e a liberação da Fifa possibilitaram, por poucos dias, a inscrição de novos atletas. A diretoria usou o prazo para registrar Robinho, contratação suspensa por causa da acusação de estupro contra ele na Itália (da qual recorre após condenação em segunda instância).

Por causa de outras dívidas, a agremiação brasileira voltou a ser proibida de contratar dias depois.

Carlos Sánchez, uma referência no meio-campo do time, rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo em outubro e ainda não voltou. Os atrasos de salários foram constantes. Cuca teve de argumentar e discutir com a diretoria que Lucas Veríssimo poderia ser vendido (foi), mas tinha de ficar no time até o final da Libertadores (ficou).

Quando a irritação com os vencimentos atrasados chegou ao limite no grupo, ele tomou a frente para fazer a cobrança pessoalmente. Em uma tática de morde e assopra, reclamou internamente dos débitos, mas, para a imprensa, disse ter certeza que eles seriam quitados.

Cuca teve de passar por situações inéditas na carreira mesmo nas escalações. O Santos teve três goleiros titulares em 2020: Vladimir, João Paulo e John. Este último, que deverá ser escalado contra o Palmeiras, chegou a ser o quarto goleiro do clube em 2019.

Ele também teve de insistir com Kaio Jorge, 19, e fez de conta não escutar as críticas de que o centroavante de 19 anos não fazia gols. Ressaltou que o atacante abria espaços para os companheiros no ataque e tinha função tática fundamental. A recompensa veio. Nos dois jogos das quartas de final, contra o Grêmio, o jovem anotou três vezes.

Com seu jeito manso de falar, o Cuca fez os jogadores acreditarem no esquema tático, sem grandes invenções, mas que exige entrega total em campo. Sem a bola, cada jogador tem uma zona a cobrir. Quando um rival entra nessa área, deve ser acompanhado de perto. Quando sai, a responsabilidade é de outro. Não é nada novo.

Quando recupera a posse da bola, o Santos procura as triangulações pelas pontas, com jogadores oferecendo opções de passes ou jogadas de linha de fundo. A entrada de Lucas Braga na equipe faz com que o time tenha quatro atacantes quando está com a bola —ainda que Soteldo tenha liberdade para desempenhar outras funções.

É uma maneira de compensar o fato de que o único meia de criação no elenco, Jean Mota, está na reserva. Assim como Sánchez, Jobson sofreu lesão no ligamento do joelho, no último dia 18. O volante era opção de saída de bola da equipe. Para dar qualidade no passe, Cuca chegou a deslocar Pará algumas vezes da lateral para o meio.

Notabilizar-se pela gestão do grupo, pela montagem de um Santos jovem que chegou à final da Libertadores e por unir o elenco não significa que o técnico tenha abandonado sua fé. Ele agora usa outra camisa com a imagem de Nossa Senhora e nesta semana foi filmado rezando no gramado do Mineirão após a derrota para o Atlético-MG pelo Brasileiro. Foi nesse estádio que conquistou o título continental em 2013.

Talvez a avalanche dos últimos meses não lhe tenha dado tempo para pensar em superstições. Muito menos mexer no time antes de um jogo tão importante.

No rival Palmeiras, o treinador ainda é lembrado pelo episódio em que, com o goleiro Fernando Prass lesionado, estava entre Jaílson e Vagner para substituí-lo no jogo contra o Vitória, pelo Brasileiro de 2016.

Cuca queria Jaílson, e o atleta já havia sido avisado pelo seu preparador que seria escalado, porque Vagner falhara na rodada anterior. Mas o técnico desejava receber um sinal que provasse estar certo.

Em um dos treinos antes da partida, na atividade de chute a gol, ele disse para os arqueiros que o próximo a ser vazado não jogaria. A primeira finalização foi contra Jaílson. Cuca achou que o goleiro defenderia, mas a bola entrou.

"Esse não valeu. Só vale a partir do próximo", gritou o técnico.

O chute seguinte, contra Vagner, também foi gol. Jaílson acabou escalado e o Palmeiras conquistou o título nacional.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.