Colombiano guarda há dez anos última camisa de Ronaldo como troféu

Wilder Medina era atacante do Tolima que eliminou o Corinthians na Libertadores de 2011

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São Paulo

Wilder Medina olhou para Ronaldo, apontou para a camisa e disse uma palavra: "Cambiar?".

O então camisa 9 do Corinthians tirou a sua, entregou para o rival, virou as costas e foi para o vestiário. Dez anos depois, o hoje aposentado atacante colombiano entende a importância do que aconteceu.

Ronaldo vai para o vestiário no intervalo da partida contra o Tolima, em Ibagué, na Libertadores de 2011
Ronaldo vai para o vestiário no intervalo da partida contra o Tolima, em Ibagué, na Libertadores de 2011 - Daniel Augusto Jr-2.fev.11/Fotoarena/Folhapress

"Guardo a camisa como um tesouro. É um dos meus maiores troféus do futebol", afirma ele. "Está bem guardada na minha casa na Colômbia".

Em 2 de fevereiro de 2011, o Deportes Tolima venceu o Corinthians por 2 a 0 na fase qualificatória da Libertadores. Medina anotou um dos gols. Doze dias depois, há exatos dez anos, Ronaldo anunciava a decisão de não jogar mais futebol profissional.

A frase "perdi para o meu corpo", dita por ele para explicar as dificuldades físicas que enfrentava, se tornou uma das mais marcantes de sua carreira.

A partida na pequena cidade em Ibagué (201 km de Bogotá) foi a despedida inesperada. Isso significa que a camisa guardada por Medina foi usada por Ronaldo nos seus derradeiros 90 minutos em um campo de futebol.

"Nunca poderia imaginar que seria o último jogo dele. Foi um privilégio enorme enfrentá-lo, ainda mais naquela situação. Ronaldo foi um dos maiores da história", elogia.

A velocidade e faro de gol de Wilder Medina ajudaram o Tolima a aposentar Ronaldo. Poucas horas após a traumática derrota, o atacante brasileiro manifestou aos dirigentes corintianos ter a intenção de continuar.

Com dores constantes após cada partida, ele voltou para casa, em São Paulo, e dias depois, ao tentar pegar no colo a filha Maria Alice, então com um ano de idade, suas costas travaram. Não conseguia se mexer. Foi quando caiu a ficha.

Ronaldo ligou para o presidente Andrés Sanchez, que foi à residência do jogador acompanhado do então diretor e hoje mandatário Duilio Monteiro Alves. Avisou que iria se aposentar, apesar dos protestos dos cartolas.

Quando o atacante anunciou o fim da carreira, Medina era o principal nome do Tolima na fase de grupos da Libertadores. A equipe não avançou às oitavas de final. Ficou em terceiro lugar em chave que tinha também Cruzeiro, Estudiantes (ARG) e Guaraní (PAR). O resultado mais marcante da campanha, da história da equipe e de Medina foi aquele contra o Corinthians.

Depois da vitória sobre o adversário brasileiro, na madrugada de Ibagué, o atacante ficou longo tempo a conversar com os jornalistas e se impressionou com os salários pagos no futebol brasileiro. Ele recebia o equivalente a R$ 12 mil mensais em 2011 e arregalou os olhos ao saber ser aquele um valor às vezes pago a garotos das categorias de base.

Wilder Medina comemora seu gol pelo Tolima contra o Corinthians
Wilder Medina comemora seu gol pelo Tolima contra o Corinthians - John Vizcaino-2.fev.11/Reuters

Chegou a pedir ajuda aos repórteres para conseguir uma transferência para o Brasil, o que não aconteceu.

O atacante permaneceu no Tolima até 2012. Foi dispensado após teste positivo no doping para maconha, pela segunda vez na carreira. Ficou quase um ano parado até o Independiente Santa Fe lhe dar nova chance. Foi duas vezes campeão nacional pela equipe e artilheiro do Torneio Apertura de 2013, ano em que o time chegou às oitavas de final da Libertadores. Acabou eliminado pelo Grêmio.

Sua carreira a partir de 2015 foi uma peregrinação por times de Equador, Bolívia e Colômbia. Hoje, aos 39, ele vive no México onde tem escola de futebol e tenta iniciar carreira como treinador. Patrocinado por uma empresa, o Wilder Medina FC vai fazer testes para garotos neste mês em Ibagué, uma volta ao passado para um atacante que poderia ter sido muito mais do que foi.

Quando começou no Club Deportivo Rionegro, aos 17 anos, ele conciliava a vida de promessa do futebol com a de integrante de gangue que andava armada pelas ruas da cidade, nas cercanias de Medellín. Ao chegar para treinar, Medina precisava esconder o revólver que carregava no vestiário.

"Não quero me justificar, mas a minha infância foi difícil e a fome te leva a fazer coisas que não deveria. Nunca matei ninguém, graças a Deus. Meu grupo tinha cerca de 30 pessoas. Hoje só quatro estão vivos", relata.

Medina confessou ter sido viciado em maconha e cocaína quando atuava profissionalmente. Antes de ir para o Santa Fe, se internou em uma clínica de recuperação. Ano passado teve de ir às redes sociais desmentir os rumores de que havia voltado a usar drogas, depois da publicação de uma foto em que supostamente estava magro demais. Respondeu que vivia bem, jogando futebol de masters e planejando o futuro de sua escola.

"Como técnico voltado a formar jogadores, trabalho com jovens e, além do futebol, compartilho a minha história e os problemas que tive. Isso pode ajudá-los a não cometer erros", finaliza o atacante, que não tem planos de se desfazer da última camisa usada por Ronaldo.

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