Descrição de chapéu The New York Times

Primeira técnica negra de beisebol dos EUA atua em time 'inimigo' de sua mãe

Criada como torcedora dos Yankees, Bianca Smith trabalha no rival Red Sox

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Juliet Macur
The New York Times

Quando Bianca Smith conseguiu emprego como treinadora dos jogadores de divisões inferiores no grupo Boston Red Sox, e se tornou a primeira mulher negra a trabalhar como treinadora de beisebol profissional, ela pensou sobre sua mãe.

Dawn Patterson morreu de câncer em 2013, e teria se orgulhado da façanha da filha.

Ela, contudo, tinha sentimentos especialmente fortes sobre o Red Sox. Sempre detestou o time.

Patterson torceu a vida toda pelo New York Yankees, e odiava o time rival a tal ponto que, quando Smith ganhou ingressos para jogos do Red Sox, na universidade, em Dartmouth –um prêmio aos alunos que assistissem a mais partidas das equipes esportivas da universidade–, a mãe se irritou com a filha por ter ousado pensar em aceitar.

“Mas, mãe, são ingressos grátis de beisebol”, Smith se lembra de argumentar, enfatizando que era uma oferta irrecusável.

A resposta firme: “Não!”

Bianca Smith é treinadora dos times do Boston Red Sox nas "minor leagues", ligas de desenvolvimento da MLB
Bianca Smith é treinadora dos times do Boston Red Sox nas "minor leagues", ligas de desenvolvimento da MLB - Kevin Miyazaki - 28.fev.2021/The New York Times

Isso é motivo de brincadeira constante na família, agora que Smith, contratada em janeiro, está fazendo história no time que sua mãe nunca suportou.

“Se eu conseguir emprego no Red Sox, mamãe vai me assombrar pelo resto da minha vida”, lembra Smith de ter dito ao seu irmão mais novo, depois que o time fez o primeiro contato com ela, no final do ano passado.

Mas sem a influência de sua mãe, Smith talvez não fosse uma pioneira do beisebol agora, fincando mais um marco para as mulheres, depois da contratação de Kim Ng como diretora geral do Miami Marlins, o que faz dela a primeira mulher a deter esse cargo na Major League Baseball (MLB).

Smith, que completa 30 anos na semana que vem, disse que a ambição, garra e ética de trabalho da mãe como atleta competitiva e advogada são parte de seu DNA. Se não fosse por sua mãe, ela não estaria procurando uma carreira no beisebol, algo que lhe valeu atenção da mídia nacional nos últimos meses, assim como patrocínios de empresas como a Nike, Oakley e Topps, e uma oferta para publicar uma autobiografia. Ela tem até um cartão de beisebol em preparo, disse Lonnie Murray, o agente de Smith.

A mãe de Smith apresentou o beisebol à filha quando ela tinha três anos, segurando a menina no colo para assistir a jogos na TV. Smith se recorda de torcer para Derek Jeter, na época shortstop do Yankees, e um dos jogadores favoritos de sua mãe. “Foi quando eu comecei a compreender o que era o beisebol”, disse Smith. “E quanto mais pudesse ver do esporte, melhor.”

A pessoa que primeiro identificou o potencial de Smith no Red Sox foi Molly Harris, especialista sênior em aquisição de talento. Encarregada de identificar candidatos talentosos e diversos, ela descobriu que o currículo de Smith tinha tudo que o time queria, e muito mais.

Estudo em uma universidade de elite. Dois diplomas de pós-graduação –um em administração esportiva, o outro em lei do esporte. Estágios no Cincinnati Reds e no Texas Rangers, e um estágio na MLB durante o qual ela ajudou a organizar o draft. Certificação no uso de diversos softwares que ajudam a analisar o trabalho de arremessadores e rebatedores.

Ao entrevistar Smith, no final do ano passado, Harris ficou tão impressionada que escreveu “UAU!” na margem de sua página de anotações.

Certa tarde do mês passado, em uma sala silenciosa de armazenagem de material esportivo da Universidade Carroll, no Wisconsin, Smith deu uma entrevista via vídeo sobre sua contratação pelo Red Sox. Atrás dela, prateleiras onde são guardadas redes, marcadores e cones serviam de pano de fundo, e ao longe se ouvia o ruído de rebatidas de beisebol.

Só lhe restavam algumas semanas em seu posto como coordenadora de rebatidas e treinadora assistente da Universidade Carroll, uma equipe da Divisão 3, e ela tinha feito uma pausa em seu trabalho com os jogadores para aperfeiçoar suas rebatidas. Logo ela vai se dirigir a Fort Myers, na Flórida, para trabalhar na preparação de jogadores de ligas menores no centro de treinamento de primavera do Red Sox. Alguns dos jogadores que ela treina pediram que a treinadora mantenha contato.

“Um deles me pediu se podíamos conversar e falar por vídeo, quando eu for embora”, ela disse, com uma risada. “Eu respondi que claro que sim. É uma diversão para mim. Ajudo a qualquer pessoa que precise”.

Uma linguagem compartilhada

Em uma família de torcedores de futebol e de futebol americano –seu meio-irmão, Reggie Cannon, é presença constante na seleção masculina de futebol dos Estados Unidos–, Smith e sua mãe compartilhavam da linguagem secreta do beisebol. Elas moraram em Edison, Nova Jersey, e posteriormente em Grapevine, Texas, um subúrbio de Dallas, e a mãe ensinava à filha as estratégias do esporte.

O pai de Smith, Victor Smith, disse que Bianca aprendeu a gostar do esporte rapidamente, e assistia a partidas inteiras desde a infância, porque tinha mais atenção do que é comum nas crianças, e porque se divertia vendo a mãe torcer. Ela sempre foi precoce, disse seu pai, descrevendo uma conversa que teve certa vez com uma diretora da pré-escola da filha. A mulher lhe disse que Bianca passava o dia amarrando os tênis dos colegas. Quando ele perguntou por quê, a mulher respondeu que “ela é a única criança que sabe amarrar sapatos”.

Quando Smith cresceu, começou a assistir jogos por conta própria, durante o dia, e às vezes virava a noite vendo filmes clássicos de beisebol como “Se Brincar o Bicho Morde”, “Os Anjos Entram em Campo” e “Rookie of the Year”, até praticamente gastar os DVDs.

Ela começou tarde no softball, aos 12 anos, atraída pelo lado mental do jogo. Era pequenina mas ágil, e sua especialidade era roubar bases. Na mesma época, ela comprou sua primeira camisa de beisebol, com o número 2 de Jeter, usando a mesada que ganhava cuidando da louça e dando banho no cachorro.

Derek Jeter (dir.) cumprimenta Tito Martinez, seu companheiro de New York Yankees
Derek Jeter (dir.) cumprimenta Tito Martinez, seu companheiro de New York Yankees - Mike Blake - 23.out.1999/Reuters

As complicações do jogo a fascinavam, e continuam a fascinar. Ela encarava o esporte com mente analítica, estudando o desenrolar das jogadas e tentando prever o que os técnicos fariam em seguida.

Quando entrou na universidade, em Dartmouth, o lugar em que seus pais estudaram, sua obsessão pelo beisebol ficava evidente nas contas de celular da família.

“Aparecia um estouro no consumo de dados do celular dela, e ela pedia desculpas, dizendo que o Yankees estava indo tão bem que ela tinha de assistir aos jogos”, disse Bob Patterson, o padrasto de Smith. “Eu sempre sabia que a temporada de beisebol tinha começado”.

O envolvimento de Smith com o time de beisebol de Dartmouth a levou a um cargo na administração da equipe. Ela também jogou na equipe universitária de softball nos seus dois anos finais de universidade, e era a única mulher no time do clube de beisebol ao se formar, em 2012.

Um mês depois, sua mãe teve diagnosticada uma forma rara de câncer chamada rabdomiossarcoma, com tumores em sua cabeça e pescoço.

“Sempre achei que ela se curaria”, disse Smith, que viveu com a mãe e o padrasto durante a doença.

Afinal de contas, sua mãe era uma mulher imensamente dinâmica, que corria maratonas não porque gostasse de correr –ela odiava– mas simplesmente para provar que era capaz de aguentar a distância. Uma mulher que decidiu estudar Direito quando já estava perto dos 40 anos. Uma dançarina que fundou o Ujima, um grupo de dança em Dartmouth que leva o nome do terceiro dos sete princípios do kwanzaa.

Ela era uma mãe confiante. Quando percebeu que os times de softball na liga em que sua outra filha jogava eram todos treinados por homens, se ofereceu como treinadora, certa de que seria capaz de fazer melhor.

Em 24 de abril de 2013, nove meses depois do diagnóstico de câncer, a mãe de Smith morreu, aos 44 anos.

“Eu pensei comigo mesma que já tinha 22 anos –metade do tempo de vida de minha mãe”, disse Smith.

“Foi um chamado. Minha mãe sempre dizia que você passa a maior parte de sua vida trabalhando, e por isso eu precisava descobrir aquilo que eu amaria fazer”.

Quatro meses depois, Smith estava na Universidade Case Western, no Ohio, para estudos de pós-graduação em administração e direito, com o objetivo de se tornar executiva de um time da MLB.

Ela mantinha três bichos de pelúcia da infância da mãe em seu quarto, e um retrato dela na sala de sua casa, para recordar o que havia perdido. Decidiu que não usaria a pulseira WWMD (iniciais em inglês para “o que mamãe faria”) que ganhou do padrasto, porque, diz, “não gosto de joias”. Houve muitos momentos em que a dor parecia ressurgir do nada. Um dia ela caiu no choro em plena aula, e um professor teve de consolá-la.

O que lhe dava lastro era o beisebol.

Oito empregos

Depois de conversar apenas 15 minutos com Matt Englander, o treinador da equipe de beisebol da Universidade Case Western, Smith foi indicada por ele para o posto de primeira gerente de operações do time.

“Ela merecia uma oportunidade, por ser tão inteligente, tão passional e provavelmente amar o esporte mais do que eu”, disse Englander. “Não assino a MLB Network para assistir jogos de beisebol de temporadas passadas. Não fico acordado até as três da manhã para ver um jogo do Padres contra o Marlins, ou os jogos de pré-temporada do Indians. Mas Bianca? Ela faz tudo isso”.

Smith não perdia um treino ou jogo. Arremessava bolas para os jogadores em treinos de rebatida, marcava as viagens e organizava as refeições do time, ajudava nos treinos atléticos, assistia a vídeos de rebatedores e enviava anotações a Englander.

Seu estágio nos Reds em 2019 foi um momento decisivo. Foi quando ela decidiu que sua verdadeira vocação era como treinadora, e não como executiva de esporte. Por fim, ela tinha descoberto o que ama fazer.

Ela queria treinar o time em campo, e não ser uma dirigente em um escritório.

Nos seus momentos de folga no departamento de operações de beisebol, Smith saía para assistir a treinos das arquibancadas e fazer anotações, o que atraiu a atenção de Donnie Ecker, treinador assistente de rebatedores. Ela contou a ele que estava interessada em ser treinadora, e ofereceu ajuda em campo. Ele aceitou. David Bell, o treinador do Reds, a encorajou a trazer sua luva para treinar.

No fim do estágio, Smith tinha uma camisa do time, com o nome “Bianca” nas costas. Ajudava nos treinos, apanhando arremessos e ajudando no aquecimento dos atletas e treinadores, e nos dias de jogo ela analisava as decisões dos rebatedores. A cada dia, ela fazia questão de fazer pelo menos uma pergunta significativa sobre beisebol aos treinadores, mas a comissão técnica também estava interessada nas ideias dela.

“Era divertido testar ideias falando com ela, descobrir sua opinião sobre as coisas e compreender o que ela estava vendo”, disse Bell. “Minha sensação era a de estar aprendendo com ela”.

Ele acrescentou: “Ela está pronta para fazer parte da comissão técnica de um time de primeira divisão e contribuir desde já? Sem dúvida. Acredito de verdade que ela é capaz de tudo nesse esporte”.

Capaz e determinada

Ela poderia ter escolhido qualquer trabalho, com seus diplomas em Administração e Direito, mas beisebol era o que ela queria. O desafio era se manter à tona financeiramente enquanto ela saía em busca desse objetivo. O custo de seu aluguel e as dívidas educacionais que ela contraiu para pagar por três diplomas eram problemas sérios.

Por algum tempo, depois da pós-graduação, enquanto procurava empregos de período integral no beisebol, Smith chegou a ter oito empregos ao mesmo tempo, para conseguir pagar as contas. Ela separava pacotes em um armazém da UPS à noite. Embalava encomendas online na Target. Trabalhava como caixa na Dollar Three. Foi motorista da Uber Eats. Bilheteira no estádio do FC Dallas. E, para adquirir experiência adicional no beisebol, ela trabalhava como voluntária na comissão técnica da Universidade de Dallas.

Às vezes, ela tinha apenas 30 minutos para ir de um desses empregos para o seguinte, e sobrevivia com refeições instantâneas preparadas no micro-ondas. Harris, a recrutadora, mal conseguia acreditar.

“Lembro-me de largar a caneta e dizer que ‘precisamos contratá-la para algum cargo’”, ela disse.

Smith conta que um treinador universitário de beisebol lhe disse um dia que ela jamais seria contratada, porque era mulher. Smith estava determinada a ter um currículo tão impressionante que “ninguém pudesse recusar”.

Harris disse que já viu isso acontecer com muitas outras mulheres. “O que vejo, como mulher, é que as candidatas às vezes têm de supercompensar, para mostrar que estão lá, são qualificadas, e devem ser tratadas como iguais”.

Para Smith, conseguir que pessoas pensassem em contratá-la exigiu algum esforço.

Antes de conseguir o emprego no Red Sox, conta, ela entrou em contato com mais de 100 treinadores de equipes universitárias de primeira divisão, e recebeu respostas de 26 deles. Só um lhe ofereceu um emprego, e o valor proposto como salário não bastava para justificar a mudança.

Ela se candidatou a entre 30 e 40 postos em organizações de beisebol universitário, e conseguiu só três entrevistas, e zero propostas. Verificando como as vagas em questão foram preenchidas, ela descobriu que só uma delas ficou com uma mulher, e 95% ficaram com homens brancos.

“Estou perfeitamente ciente de que, pelo menos em nível universitário, tenho mais qualificações do que a maioria dos contratados para as comissões técnicas”, ela disse. “E considero que enfrento menos discriminação no esporte como negra do que como mulher”.

Mesmo quando ela sai da área técnica de um time usando o uniforme da equipe, as perguntas que ouve são do tipo: Que jogador você está namorando? Qual deles é seu filho? Você treina o time feminino de beisebol?

Quando Smith foi contratada pelo Red Sox, Alyssa Nakken, que no ano passado se tornou a primeira mulher a ser contratada para uma comissão técnica da MLB em período integral, a convidou para um grupo de chat que reúne outras mulheres que trabalham em período integral no beisebol profissional. Smith ficou surpresa ao descobrir que contava com dezenas de simpatizantes prontas a recebê-la em seu clube, pequeno mas em expansão.

Bianca Smith trabalha com um jogador de beisebol da Universidade de Carroll
Bianca Smith trabalha com um jogador de beisebol da Universidade de Carroll - Kevin Miyazaki - 28.fev.2021/The New York Times

O grupo de chat esquentou recentemente, disse Smith, quando uma série de casos de assédio sexual estourou no New York Mets, e as integrantes elogiaram as mulheres que denunciaram os abusos.

“Acho que as coisas vão mudar quando mais mulheres trabalharem no esporte e se sentirem mais confortáveis ao se pronunciar”, disse Smith. “Mas os homens ainda são a maioria. Eles ainda detêm o poder”.

No trabalho, disse Smith, o único momento em que ela pensa em si mesma como uma mulher no beisebol é quando tem de procurar um banheiro, ou quando o time precisa arranjar um uniforme que caiba em uma mulher de 1,53 metro de altura.

“Haverá jogadores que se sentirão desconfortáveis na minha presença, e pode ser que eu não me conecte com todo mundo, mas desde que eles recebam a ajuda de que precisam, tudo bem”, ela disse. “Posso lhes dar espaço”.

Obrigada, mãe

Smith não percebeu que tinha feito história como primeira mulher negra a ser contratada como treinadora por um time de beisebol até que sua irmã, Rachel, descobriu o fato, em uma pesquisa na internet.

Bianca Smith, que quando estava na escola começou a usar uma faixa nos cabelos com o número 42, o da camisa de Jackie Robinson [o primeiro atleta negro a jogar pela MLB na era moderna], disse que sua mãe “teria ficado imensamente feliz”. Smith se orgulha de dizer que o Red Sox está na linha de frente da história, agora, depois de ser o último time da MLB a se integrar racialmente, em 1959, 12 anos depois que Robinson rompeu a barreira da cor.

Patterson, o padrasto de Smith, em seguida a chocou com uma pergunta: “Você já recebeu alguma ameaça de morte?” Não havia ocorrido a Smith que talvez existam pessoas que possam se enfurecer por ver uma mulher negra no esporte. Mas Cannon, seu meio-irmão, recebeu ameaças de morte e teve de ouvir comentários racistas na metade do ano passado, depois de criticar torcedores que vaiaram os jogadores por se ajoelharem durante a execução do hino nacional em um jogo do FC Dallas. Diante disso, o padrasto de Smith a aconselhou a estar pronta para tudo.

Ela não vai deixar que coisa alguma a desvie de seu objetivo de se tornar treinadora de um time de primeira divisão. Essa meta está sempre presente em seus pensamentos.

Por exemplo, em 2018 ela foi ao seu primeiro jogo de beisebol no Yankee Stadium, no Dia das Mães. Como apreciadora, ela curtiu a atmosfera. Os gritos da torcida. A música ruidosa. O cheiro de cachorros quentes e cerveja.

Ela se lembra de ter pensado: “Sinto tanto a sua falta, mamãe. Obrigado por me transformar em torcedora”.

Mas quando o árbitro sinalizou o início do jogo, a mente dela voltou ao trabalho.

“Certamente reconheci o quanto aquele momento era importante para mim”, disse Smith. “Mas depois disso me concentrei no jogo”.

Tradução de Paulo Migliacci

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