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Já vi essa situação na Venezuela, diz jornalista perseguido pelo governo Maduro

Exilado na Colômbia há dois anos, Roberto Deniz vê semelhanças entre os ataques de Bolsonaro à imprensa e o que ocorreu em seu país

São Paulo

O premiado jornalista investigativo Roberto Deniz enxerga semelhanças entre os ataques constantes desfechados pelo presidente Bolsonaro à imprensa brasileira e a forma como a perseguição aos jornalistas começou na Venezuela.

“No chavismo, os ataques começaram como os que vocês estão vivendo aqui, com o governo submetendo os jornalistas ao escárnio público. Nós já vimos isso na Venezuela”, declarou durante entrevista aberta ao público no 3º Encontro Folha de Jornalismo. A conversa foi mediada por Flávia Mantovani, repórter da Folha.

Roberto está de terno e gesticula com uma mão enquanto fala ao microfone. Flávia está de pernas cruzadas olhando para o colega enquanto ele fala.
Repórter venezuelano Roberto Deniz, do site de jornalismo investigativo Armando.info, e repórter da Folha Flávia Mantovani no debate "Ainda existe jornalismo na Venezuela?", no 3º Encontro Folha de Jornalismo - Reinaldo Canato / Folhapress

O venezuelano expressou solidariedade à jornalista da Folha Patrícia Campos Mello, que sofreu na terça (18) um insulto de cunho sexual perpetrado pelo presidente Jair Bolsonaro. 

“O objetivo é desqualificar o jornalismo. No final das contas, eles querem que a opinião pública não acredite em nada. Em uma sociedade polarizada, quem perde é a verdade.”

As ameaças aos familiares são outra preocupação dos jornalistas venezuelanos, afirmou. Em dezembro, a polícia política do regime de Maduro fez uma “visita intimidadora” à casa de seus pais. Os militares não chegaram a entrar, mas, para ele, o recado “vocês estão fora do país, mas nós sabemos onde está a família de vocês” foi bastante claro.

Ele diz que a censura na Venezuela é brutal e tenta retirar da imprensa seu valor de aglutinadora da nação. O repórter teve de se mudar para Bogotá, na Colômbia, onde vive em situação de exílio há dois anos, depois de publicar uma série de reportagens sobre corrupção do governo de Nicolás Maduro

Deniz e sua equipe de jornalistas investigativos do site Armando.info descobriram que os Comitês Locais de Alimentação e Produção (Clap), programa social que funciona como uma espécie de bolsa-alimentação para os mais pobres, eram usados para favorecer empresários alinhados a Maduro. 

Apenas parte da equipe do site continua em Caracas, em uma redação que precisa mudar de lugar regularmente por questões de segurança. Apesar disso, sua perspectiva é otimista. “Sinto que nós não perdemos as rédeas do país.”

Mas é muito difícil fazer jornalismo do exílio, afirmou. “Eu estudei e me formei para fazer jornalismo no país em que eu sei fazer isso, mas a gente tenta compensar as distâncias por meio da tecnologia.”

De acordo com o ranking mundial de liberdade de imprensa da organização internacional Repórteres Sem Fronteiras, a Venezuela ocupa a 148ª posição de um total de 180 países. O Brasil está em 105º.

Para Deniz, o jornalismo é o último elo da Venezuela com a democracia e está sendo fortalecido pelo que chama de “primavera dos jornalistas”, o movimento de profissionais que reconhecem a importância do ofício e criam plataformas, em sua maioria digitais, para continuar produzindo notícias. 

"Sem esse espaço, os venezuelanos estariam completamente desinformados ou teriam apenas a versão oficial do governo.”

O debate integrou evento que marca o início das comemorações dos centenário da Folha, que ocorre em 2021.

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