Folha olha para a frente, e o futuro é bom, afirma diretor ao celebrar os 99 anos do jornal

Leia discurso de Sérgio Dávila na abertura do evento

São Paulo

Leia o discurso feito pelo diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Sérgio Dávila, na abertura do evento que celebrou os 99 anos do jornal, na tarde desta quarta (19), no Centro Cultural São Paulo.

Sérgio Dávila discursando em auditório de arena cheio
Sérgio Dávila faz discurso de abertura do 3º Encontro Folha de Jornalismo, 99 anos, no Centro Cultural São Paulo, dando início às celebrações do centenário do jornal - Reinaldo Canato/Folhapress

Boa tarde. Meu nome é Sérgio Dávila e eu sou o diretor de Redação da Folha de S.Paulo. O jornal completa 99 anos de existência no dia de hoje, 19 de fevereiro de 2020. E este evento lança o ano das comemorações que culminarão no centenário da Folha, em fevereiro que vem. Nestes 12 meses teremos mostras de cinema, debates pelo país e outras surpresas.

Agradeço aos presentes, leitores e assinantes da Folha e também pessoas interessadas em jornalismo e nos rumos do país e do mundo. Agradeço também ao Centro Cultural São Paulo, por nos hospedar, especialmente a sua diretora, Erika Palomino, que nos anos 90 recriou a cobertura da noite, da moda e do comportamento no jornal.

Para celebrar a data, assistiremos a debates sobre jornalismo e cultura.
(...)

Poucas empresas no mundo chegam ao centenário. Menos ainda atingem a marca no Brasil, onde uma em cada quatro firmas fecha antes de completar dois anos de existência. Quase nenhuma terá sobrevivido um século desagradando sistematicamente presidentes, de Arthur Bernardes, nos anos 20, a Jair Bolsonaro, atual ocupante do Planalto.

Desagradando o poder constituído não por boniteza, mas por precisão, como tão bem definiu Guimarães Rosa, se referindo ao pulo do sapo.

A precisão de fazer um jornalismo crítico, independente, pluralista e apartidário, tal como preconizado pelo Projeto Folha, dos anos 80. A precisão de ser o que Otavio Frias Filho, precocemente morto em 2018 e mentor deste projeto, chamou de “um farol a iluminar as fronteiras, sempre fluidas, entre o falso e o verdadeiro”.

Este farol ofusca e irrita o poderoso.

Irritou Lula e Fernando Henrique, Dilma e Temer, Itamar e Sarney. Irritou Collor, que permitiu que a Polícia Federal invadisse a sede da Folha. Não foi o primeiro. A Folha de S.Paulo surgiu em 1921 como Folha da Noite. Três anos depois, o presidente Arthur Bernardes mandou fechar o jornal. Para burlar a proibição, o diário circulou com o título de Folha da Tarde.

Hoje, o jornalismo profissional está sob ataque e a democracia brasileira sofre um de seus principais testes de estresse. Este ataque é amplificado como nunca pela câmara de eco das redes sociais e dos aplicativos de mensagens, onde “gabinetes de ódio” e “milícias digitais” dominam e não há regras nem responsabilização pelo conteúdo ali disseminado.

Segundo um levantamento recente, o Brasil registrou no ano passado 208 agressões físicas ou verbais contra veículos de comunicação e jornalistas. É um crescimento de 54% em relação ao ano anterior. Metade dos ataques veio de Jair Bolsonaro.

Um dos mais recentes começou com a campanha covarde deflagrada a partir de um testemunho mentiroso feito –vejam só a ironia —na Comissão Parlamentar de Inquérito que procura investigar as fake news no Congresso Nacional.

O alvo era a jornalista Patrícia Campos Mello, que deveria estar aqui hoje numa das mesas de debate deste evento mas teve de ficar na Redação da Folha para acompanhar novos depoimentos nesta mesma CPMI.

Na semana passada, Patrícia foi vítima de insultos e insinuações, reiterados ontem pelo próprio presidente da República. Por ser mulher, foi acusada de trocar informação por favores sexuais, entre uma série de outras mentiras rebatidas prontamente em reportagem da Folha documentada por fatos, áudios e imagens.

As jornalistas profissionais, como Patrícia, as mulheres que fazem do jornalismo esta força vibrante de defesa da democracia e vigilância das instituições, elas trocam informação, sim:  por horas extenuantes de apuração em que poderiam estar com a família ou os amigos; por viagens em que arriscam sua vida; por sanidade física e mental.

Nós temos uma Redação antes de tudo com coragem, entrega, dedicação, determinação e seriedade. E as mulheres são parte fundamental dela. Fica aqui esta homenagem da Folha, um jornal de substantivo feminino, para as mulheres que fizeram e que fazem o jornal.

Mas a Folha entra no ano que levará a seu centenário olhando para a frente. E o futuro é bom.

O jornal fechou o ano passado como líder de assinaturas no país e viu um aumento expressivo das suas assinaturas digitais. Parte deste aumento veio de uma campanha espontânea de pessoas que afirmaram que estavam assinando o jornal pela defesa da democracia, da liberdade de expressão, do fluxo livre de informações.

Os próximos anos prometem um crescimento ainda maior, movido pelos leitores mais jovens. As novas gerações começam a enxergar a importância do jornal como praça pública, um ambiente aberto a opiniões diversas e contraditórias, de questionamento e dúvida saudável, diferente das certezas estridentes dos condomínios fechados de ideias preconcebidas.

A descoberta da Folha pelos novos leitores dá saúde financeira ao jornal. Saúde financeira é sinônimo de independência, garantida também por um leque amplo de anunciantes. Se seguir fazendo o jornalismo que defende, a Folha perseverará por mais 100 anos.

Encerro esta fala com um parágrafo escrito por Otavio Frias Filho em abril de 1991. Ele respondia ao presidente de então, que o processava na Justiça por uma reportagem da Folha que mostrava desmandos naquela administração.

“Seu governo será tragado pelo turbilhão do tempo até que dele só reste uma pálida reminiscência, mas este jornal –desde que cultive seu compromisso com o direito dos leitores à verdade —continuará em pé.”

Obrigado.

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