Descrição de chapéu Folha, 100 jornalismo

A Folha é 'Falha' ou 'Foice'? Leitores de esquerda, centro e direita debatem

Jornal convidou representantes de diferentes ideologias para classificar sua posição

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São Paulo

Falha ou Foice? Golpista ou comunista? Ou apenas um jornal tentando se equilibrar em nosso polarizado debate ideológico?

Em seus 100 anos de vida, a Folha acostumou-se a receber críticas vindas de todos os lados, mas os últimos tempos foram especialmente pródigos em ataques contra a linha editorial do jornal.

Manifestantes picham a fachada da Folha durante protesto contra impeachment de Dilma Rousseff, em 2016
Manifestantes picham a fachada da Folha durante protesto contra impeachment de Dilma Rousseff, em 2016 - Fabio Braga - 31.ago.16/Folhapress

Nos anos em que o PT governou o país, o jornal era apontado como parte da “mídia golpista” que sabotava o partido, e chamado frequentemente de “Falha de S.Paulo”. No bolsonarismo, passou a integrar a “extrema imprensa” que milita contra um presidente de direita, e virou "Foice".

Afinal, de que lado está a Folha? Para tentar responder a essa pergunta, o jornal promoveu no dia 3 de fevereiro um debate virtual com 6 pessoas: 2 esquerdistas, 2 direitistas e 2 que se definem como de centro.

Previsivelmente, os que se situam nos polos ideológicos travaram um duelo para qualificar o jornal como representante do extremo oposto, especialmente ao comentarem algumas reportagens polêmicas recentes.

Os centristas tenderam a ser mais simpáticos às opções do jornal. Mas nem eles se fizeram de rogados nas críticas. Confira os melhores momentos do debate.

Opinião sobre a Folha

O primeiro embate na conversa foi visual. Jornalista durante 17 anos, inclusive com passagem pela Folha, o advogado Estanislau de Freitas, 51, participou com uma gravata vermelha, para demarcar sua posição de esquerda.

O gesto foi respondido pela aposentada direitista Cristina Rocha, 72, que colocou um lenço com a bandeira dos EUA no rosto durante alguns momentos.

Para Estanislau, morador de São Paulo, a Folha é “cínica e hipócrita”. “O Estadão e a CNN são órgãos de direita e assumem. A Folha posa de moderninha, mas é absolutamente de direita. Bota gente pelada na Ilustrada, cita palavrões, tem a coluna do Zé Simão. Mas é que nem o [João] Doria, puro marketing”, disse ele, que chamou de “ridícula” a campanha do jornal em defesa da democracia.

“Um jornal que apoiou a ditadura, depois a chamou de ditabranda, apoiou o golpe e vem com esse papinho...”

Ao ouvir que a Folha é de direita, Cristina, bolsonarista convicta que já participou de manifestações na avenida Paulista em defesa do presidente, se indignou. Para ela, é exatamente o contrário.

“Eu assinava Estado, Veja, depois Folha, sempre gostei muito. Hoje estou chocada com o rumo que tomou a imprensa, que deixou de ser imparcial. Para mim, a Folha está no desespero, como a CartaCapital e o Diário do Cu do Mundo [referência ao Diário do Centro do Mundo, site de esquerda]. Fico pasma de ver o tanto de mentira publicado na imprensa”, afirmou ela, que divide seu tempo entre Rio e São Paulo.

Contador que vive em Curitiba, mas que avisa logo de cara não ser fanático pela Lava Jato, Marco Aurélio Sabag, 55, disse que se relaciona com a Folha desde 1982, época em que trabalhava como office boy.

“Eu lia O Globo, Folha, Estadão, Jornal do Brasil, Gazeta do Povo. De lá para cá fui fazendo uma seleção, a única que permaneceu e eu assino é a Folha”, declarou ele, de perfil centrista.

O motivo, afirmou, é “justamente por ser xingada tanto pela direita quanto pela esquerda”. “Existem matérias que são tendenciosas, mas são uma maneira de formar meu pensamento. Se não concordo, vou discutir, contestar, e tirar a minha análise."

Servidora pública aposentada e atuando hoje com mediação de conflitos, Sandra Birman, 59, de São Paulo, preparou para a conversa uma lista de reportagens para mostrar como a Folha apoiou o que ela, e grande parte da esquerda, classificam como golpe, e não impeachment, contra a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).

“Em 2016, ano do golpe, as manchetes e os editoriais estão sempre batendo no Lula, parece que o PT inventou a corrupção”, afirmou.

Ela acredita que a Folha e a grande imprensa “contribuíram para isso que a gente tem hoje”. “Pode até ser que, nos costumes, a Folha seja mais progressista, mas, em relação à política, não assume seu papel”, disse.

No time dos direitistas, o empresário Dione da Silva, 34, dono de um pet shop na capital paulista, também acha que a Folha é injusta com o presidente de sua preferência. No seu caso, porém, refere-se a Bolsonaro, e não a Lula ou Dilma.

“Quando não passa as verdades, a Folha é injusta, sim. Não passa o que o governo está fazendo de bom, só fala quando o presidente solta um palavrão, ou quando fala uma coisa idiota”, afirmou.

Para ele, a Folha poupa Doria por causa das verbas publicitárias do governo de São Paulo. “O Doria aumentou a verba de publicidade dele em 70%, nenhuma empresa vai falar mal”, disse.

Outro centrista do grupo, o advogado Rodrigo Júnior, 27, afirmou que a Folha ajuda as pessoas a refletirem. “Leio todo dia e vou atrás de outras informações. A partir disso que eu vou formar meu pensamento”, relatou ele, também morador de Curitiba.

“A Folha tem na sua raiz uma modernidade líquida, que varia conforme a maré, mas não tem o objetivo de centralizar informação e fazer com que todos creiam nela. Ela me desperta a curiosidade de ir atrás”, afirmou.

Como eles se informam

Dos 6 participantes, 5 leem a Folha com alguma regularidade. Cristina é a única que diz ter desistido totalmente do jornal. Afirma se informar pelo WhatsApp, e não pela “Foice de São Paulo”.

“Isso aqui é uma reunião da esquerda”, disse, referindo-se ao debate em andamento. “Tem gente vermelha até debaixo d’água. Quando me chamaram, me avisaram: ‘Não se meta nessa porque eles vão manipular o que você falar.'" Ela não explicou por que, afinal, decidiu participar do encontro.

Estanislau também revelou uma certa relutância em participar da conversa. “Talvez vocês usem esse debate para falar ‘esquerda e direita nos criticam, então estamos no caminho certo’”, disse ele, para quem apanhar de todo mundo não significa fazer bom jornalismo.

O advogado não assina jornais para “não dar dinheiro para golpista”. Mas muitas vezes lê reportagens da Folha que aparecem em portais ou links que recebe.

“Jornalões ainda leio para saber o que a direita está dizendo e para ver o hard news [acontecimentos do dia]. E quando a gente podia sair de casa, via o que estava passando no cinema, dica de restaurante, essas coisas. Para essas coisas os jornais ainda servem”, disse. Fora isso, informa-se por sites de esquerda.

Sandra também consome mídia de esquerda, como TV 247 e jornal GGN. Ela tem uma assinatura digital da Folha, apesar de se dizer incomodada muitas vezes com o jornal.

“Em 2014, uma matéria disse que ‘Minas fez aeroporto em fazenda de um tio do Aécio’. Quem é Minas? Outra dizia que a PF apurava suposta fraude em obra em trecho do Rodoanel. Não é Alckmin, não é PSDB. Não tem o agente aqui”, afirmou.

Já Dione contou que se informa por sites e blogs de direita como Terra Brasil e Conexão Política, além das redes sociais de deputados como Carla Zambelli (PSL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). “Mostram a verdade, o que está acontecendo no governo."

Os dois centristas do grupo disseram que procuram outras fontes de informação para complementar o que leem na Folha.

Marco Aurélio afirmou que acompanha o UOL e canais no YouTube. Ele faz críticas à qualidade do produto final da Folha. “Me irrita não ter um revisor. Como tem erro de português.... Erros gritantes."

Já Rodrigo disse que busca ouvir todos os lados. Acompanha do YouTube do presidente Jair Bolsonaro ao Plural, veículo digital paranaense de perfil alternativo.

Embora elogie a Folha por suas contribuições ao debate nacional, não gostou da campanha promovida pelo jornal no ano passado em defesa da democracia.

“A campanha do ‘Use Amarelo Pela Democracia’ me despertou um sentimento não muito bom. Me fez pensar: ‘Se eu não uso, eu não apoio a democracia’”, disse ele, que não gostou da “imposição” da cor.

Poderia passar sem essa

Durante a conversa, de cerca de 1h30min, foram exibidas algumas reportagens da Folha que geraram controvérsia nos últimos anos.

Os esquerdistas se incomodaram sobretudo com uma reportagem de dezembro de 2020 que dizia que a “década” recém-encerrada havia promovido a inclusão de negros. Faltou, segundo eles, menção explícita às políticas dos governos de Lula e Dilma.

“Esse ‘década’ é muito bom, quero que ele volte a ser presidente”, ironizou Estanislau.

Já a direita não gostou da reportagem que mostrou que empresários bancaram disparos de mensagens contra o PT, na campanha de 2018. Cristina achou absurdo isso ser tratado como algo negativo. “Foram poucas [mensagens disparadas], devia ter sido muito mais."

Diversos exemplos apresentados conseguiram a façanha de unir o grupo —contra a Folha.

Um deles foi o editorial “Jair Rousseff”, que comparava a política econômica de ambos os presidentes e gerou barulho pelo título.

“O título já é tendencioso, se eu pego um texto assim eu nem leio”, afirmou o direitista Dione.

A esquerdista Sandra fez eco ao sentimento: “Achei um título malicioso porque estabelece uma falsa equivalência, como se a Dilma estivesse no espectro oposto do Bolsonaro. Eu não vejo isso de jeito nenhum, porque para mim o Bolsonaro está além, é extrema direita”, afirmou.

Para o centrista Marco Aurélio, o título foi “apelativo”, embora ele diga que tenha entendido a intenção. “O editorial faz combinação dos nomes porque acha que os dois estão fazendo as mesmas coisas sobre o gasto público. Poderia ser Lula-FHC”, afirmou.

Outro texto a unificar o grupo contra a Folha foi a coluna de Hélio Schwartsman publicada em julho de 2020, em que ele desejava a morte de Bolsonaro.

“Sem comentários”, resumiu a bolsonarista Cristina.

“É uma coisa fútil. Ruim de se publicar um negócio desses. Dá para entender a revolta que alguns sentiram [com a coluna]”, concordou Dione, do mesmo espectro político.

Os do centro concordaram: para Marco Aurélio, o texto “poderia não ter existido”, enquanto Rodrigo afirmou que o colunista foi “infeliz”.

O único a contemporizar um pouco foi Estanislau. Isso porque o colunista usou uma corrente da filosofia, o consequencialismo, para expor seus argumentos. “A Folha adora, porque faz parte do seu DNA criar polêmica.”

Da mesma forma, a capa da Ilustrada de junho de 2020 anunciando a nomeação de Mário Frias para a Secretaria de Cultura do governo federal foi rechaçada, mesmo pelos esquerdistas do grupo. A foto mostra Frias seminu e foi parte de um ensaio sensual feito quando ele era ator da TV Globo.

“Acho péssimo, apelativo. Sou contra essa nomeação, mas a Folha deveria ter passado sem essa”, afirmou Sandra.

Rodrigo achou o conjunto preconceituoso. “Beira não só à falta de educação, mas à ilegalidade. É compreensível o que a Folha quis dizer, mas talvez tenha sido infeliz, preconceituosa”, disse.

Para Dione, o jornal “tem que criar polêmica, senão não se segura no mercado. Se quisesse, poderia ter mostrado [Frias] de gravata e terno e dizer que ele já foi ator”.

Antes do encerramento, Estanislau pede que fique registrado que sua crítica é ao jornal, não aos profissionais que nele trabalham, que, em sua opinião, são “vítimas”. E cobra da Folha que faça a autocrítica que sempre pede dos outros, citando a cobertura da Lava Jato como exemplo.

“O jornal está devendo essa autocrítica e matérias mais profundas para mostrar o tipo de atuação suja e debaixo dos panos de Dallagnol, Moro e cia”, diz.

Como leitores reagem a reportagens da Folha

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