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Série de livros 'O Homem Cão' chega ao sexto volume

Saga de Dav Pilkey brinca com o fantástico e com o politicamente incorreto

São Paulo

Uma mistura de Robocop e Frankenstein, com pitadas de Gabriel García Márquez e “South Park”. Parece uma confusão, certo? Pois mesmo assim, bem radical e bagunçada, esta seria uma boa sinopse para “O Homem Cão”, série de livros que vêm fazendo a cabeça das crianças justamente por brincar com o fantástico e o politicamente incorreto.

O sexto volume, batizado de “O Homem Cão: O Confronto Selvagem” (Dav Pilkey, Companhia das Letrinhas, 224 páginas), acaba de chegar às livrarias brasileiras, e traz uma bela de uma reviravolta. Agora, o grande herói é acusado de ser um terrível vilão, e terá que provar sua inocência. Como ele sairá desta enrascada?

A saga do personagem que tem cabeça de bicho e corpo de pessoa foi lançada em 2017 no Brasil - atualmente, a série já está em seu décimo volume nos EUA. Sem papas na língua, as crianças foram apresentadas ao enredo em que o policial Rocha e seu cachorro Greg sofrem um terrível acidente, e o único jeito de continuarem vivos é fundindo seus corpos.

Como qualquer herói que se preze, o Homem Cão também tem seu arqui-inimigo, o maquiavélico –e muito fofo —gato Pepê. “Embora seja algo altamente fantasioso, tem o fato de os personagens serem maleáveis. Às vezes os vilões cometem atos de bondade, e às vezes os mocinhos sucumbem e pisam fora do riscado”, resume André Czarnobai, tradutor de todos os volumes no Brasil.

“Embora tenha essa coisa bem maniqueísta do bem contra o mal, o bem não é totalmente imaculado, assim como o mal não é irrecuperável. E tudo isso dito de uma maneira sutil, lúdica, leve. Acho um ensinamento bem importante, ainda mais para ser passado em tão tenra idade”.

Czarnobai lembra que, quando leu pela primeira vez a história de Pilkey, achou-a “simples, direta e curta”. “Mas não por isso superficial. Tem um subtexto muito interessante, planta umas sementinhas bem curiosas na mente da criançada. Ou, pelo menos, atiçou minhas sinapses de adulto”, brinca.

A estreia de “O Homem Cão” na vida do pernambucano Miguel Rios Rodrigues, 6, também foi marcante. Mesmo sem saber ler sozinho, à época, mas contando com a ajuda da mãe, que interpretava o conteúdo dos balõezinhos de fala, o menino já se encantou de cara com as ilustrações e com as aventuras do protagonista.

Menino veste regata vermelha e sorri com dois livros da série em suas mãos
Miguel Rios Rodrigues, 6, é fã dos livros da série "O Homem Cão" - Arquivo pessoal

“Agora, que ele já consegue ler as primeiras palavras, o livro está ficando ainda mais interessante”, diz Marcela Rodrigues, 36, mãe de Miguel e de Maria Geovana Rios Rodrigues, 13, que também curte o personagem. “A gente até leva os livros junto quando vai passear. Agora, na quarentena, Miguel cria os próprios quadrinhos, inspirado pelo Homem Cão.”

“Gosto do Homem Cão porque ele é bem maneiro. E é maneiro porque ele é metade homem e metade cachorro, e cachorro é meu animal preferido”, explica Miguel, que, ao ficar sabendo que tem volume novo na área, já se programa com a mãe. “Se for novo, e se for maneiro, eu dentro!”.

A editora executiva da Companhia das Letras, Mell Brites, credita parte do sucesso da série às referências que o autor distribui nos livros. “Elas provavelmente são captadas em sua maioria pelos adultos, já que citam, por exemplo, clássicos da literatura. Mas isso não torna os livros mais herméticos nem menos acessíveis às crianças”, avalia.

Caçula de uma família com dois filhos, diagnosticado com déficit de atenção e dislexia na infância, o americano Dav Pilkey, hoje com 54 anos, costumava levar bronca dos professores na escola por causa de seu comportamento. Por isso, era normal ser mandado para sentar em uma carteira no corredor.

Foi lá que ele começou a produzir os primeiros rabiscos do que viria a ser um de seus personagens mais famosos, predecessor de “O Homem Cão”: o Capitão Cueca. Ele, que virou uma série de 12 livros, traduzidos em mais de 20 idiomas. E vendeu, no Brasil, junto com “O Homem Cão”, mais de 250 mil exemplares.

“Acho muito louco esse conceito da história dentro da história, a ficção dentro da ficção, pois são duas personagens, Jorge e Haroldo, quem escrevem as histórias do Homem-Cão, bem como já faziam com o Capitão Cueca. Acho legal essa brincadeirinha mental”, explica Czarnobai.

Ele, aliás, também tem um episódio particular e curioso envolvendo “O Homem Cão”. Escritor e tradutor com muitos anos de carreira, acostumado ao anonimato comum às duas ocupações, ele estava em uma pracinha, em São Paulo, em companhia da afilhada e do irmão dela.

Czarnobai havia levado alguns volumes de “O Homem Cão” para presentear os dois, e, enquanto segurava na mão os livros, para que as crianças brincassem, um garoto de cinco anos se aproximou, apontou e disse: “Sabia que eu tenho esse livro?”.

“Meio sem saber o que responder, disse a ele que era eu quem tinha traduzido”, lembra. “Ele duvidou, respondeu ‘ahã’, e foi embora”.

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