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Cannes seleciona filmes de Kleber Mendonça, Aïnouz e outros dois brasileiros

Mais importante mostra de cinema do mundo acontece em maio, na França

Júlia Stockler e Carol Duarte em cena do filme 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão', de Karim Aïnouz
Júlia Stockler e Carol Duarte em cena do filme 'A Vida Invisível de Eurídice Gusmão', de Karim Aïnouz - Pedro Machado/Divulgação
 
Guilherme Genestreti
São Paulo

O Brasil emplacou quatro filmes no próximo Festival de Cannes, principal mostra de cinema do mundo, que acontece em maio. Entre os títulos estão a nova reunião entre Kleber Mendonça Filho e a atriz Sonia Braga, e o novo longa de Karim Aïnouz, que junta Fernanda Montenegro e o produtor Rodrigo Teixeira. Dois deles competem à Palma de Ouro e dois integram a seção Um Certo Olhar.

"Bacurau" é o novo longa do pernambucano Kleber, que em 2016, com "Aquarius", fez barulho ao participar de um ato político contra o impeachment de Dilma, no tapete vermelho. Desta vez ele divide a direção com Juliano Dornelles, que fez o design de produção de seus dois longas anteriores.

Os diretores de “Bacurau” evitam detalhar a nova trama, mas adiantam que envereda pelo western, ambientado no sertão num futuro próximo, diferente de dramas urbanos como “O Som ao Redor”.

“Ele vai para outros caminhos, que não os estritamente realistas a que as pessoas estão acostumadas nos meus filmes”, diz Kleber. Para Dornelles, a transposição do enredo para o sertão serviu para explorarem “símbolos de uma cultura brasileira e nordestina”. 

A sinopse fala em uma comunidade rural que some do mapa após a morte de uma de suas habitantes, uma nonagenária. Mas Kleber afirma que é um argumento “escorregadio”.

Prefere descrevê-lo como um filme coral, isto é, ancorado na história de múltiplos personagens, uma delas uma médica interpretada por Sonia Braga.

Os dois também evitam adiantar se farão qualquer protesto político no festival, a exemplo do ruidoso ato contra o impeachment de Dilma, em 2016. 

“Não tínhamos planejado nada daquilo e quisemos dizer o que acontecia na época no Brasil naquele momento”, conta Kleber. “Agora, o mundo todo já está participando do que está acontecendo no país.”

O Brasil também é um dos produtores de "O Traidor", do italiano Marco Bellocchio, sobre um mafioso que se refugiou por aqui. O cineasta veterano, de "Bom Dia, Noite" e "De Punhos Cerrados", conta a história de Tommaso Buscetta, criminoso que delatou seus antigos comparsas da Cosa Nostra, a máfia siciliana.

Os paulistas Caio e Fabiano Gullane ("Que Hora Ela Volta?") tocam o braço nacional dessa obra cinematográfica, que teve cenas rodadas no Rio de Janeiro. A atriz Maria Fernanda Cândido vive a mulher brasileira do gângster.

"É um filme que já nasceu com DNA internacional e de um dos grandes cineastas em atividade", diz Fabiano. Participar da competição, afirma, "é a coroação de um processo". "O Brasil estar nessa disputa, entre tantos cineastas importantes, é sinal de que o audiovisual nacional está num momento especial."

Tanto "Bacurau" quanto "O Traidor" concorrem à Palma de Ouro, o principal honraria do evento. A única vez que o Brasil levou a estatueta foi com "O Pagador de Promessas", de Anselmo Duarte, em 1962. 

Ainda na seleção oficial, mas fora da corrida pelo prêmio principal, há outras dois filmes que envolvem o país, ambos tocados pelo produtor Rodrigo Teixeira, de "Me Chame pelo Seu Nome". 

São elas "A Vida Invisível de Eurídice Gusmão", do cearense Karim Aïnouz, e "Port Authority", da californiana Danielle Lessovitz.  Eles fazem parte da seção Um Certo Olhar, voltada a obras mais experimentais ou com outros tipos de linguagem.

Aïnouz, de "Madame Satã" e "Praia do Futuro", escalou Fernanda Montenegro para o papel-título, uma mulher que viveu as chagas do machismo na sociedade carioca dos anos 1950.

Ao longo da trama, inspirada no livro homônimo de Martha Batalha, a personagem perde o contato com a irmã, Guida, expulsa de casa após engravidar do namorado. Carol Duarte e Júlia Stockler fazem os papéis na primeira fase da narrativa.

Teixeira, que já produziu longas como "Frances Ha" e "Alemão" descreve "Vida Invisível" como o seu "trabalho mais maduro".

"Compreendo melhor o que quero contar, o cinema que quero fazer e que dialoga com o público", diz. "É um melodrama, que é o que o Brasil sabe fazer de melhor, que apresenta a condição da mulher naquela época, mas com olhar de hoje". 

Já "Port Authority" fala de um triângulo amoroso que envolve uma jovem transexual, interpretada pela atriz trans Leyna Bloom, e que tem como pano de fundo a cena do voguing nova-iorquino, estilo baseado nos movimentos das passarelas e que ganhou fama com Madonna e com o documentário “Paris Is Burning”. 

Para Teixeira, a profusão de filmes nacionais em Cannes neste ano é sinal da criatividade, "que fica mais aguçada em tempos de crise".

"É nesses momentos que os grandes filmes acontecem. No futuro, vi haver uma restrição de financiamento às produções, mas a gente tem que tentar dialogar com o governo para que elas continuem."

A mostra francesa anunciou na manhã desta quinta (18) a sua programação. No total de 47 longas escalados, há 13 com diretoras mulheres, quatro no páreo pela Palma de Ouro —um aceno à causa de movimentos como o #MeToo, que no ano passado promoveu uma marcha no tapete vermelho.

Além do previamente divulgado "The Dead Don't Die", longa de zumbis de Jim Jarmusch, que fará a abertura do festival, foram escalados para a seleção deste ano os novos filmes de Terrence Malick, Pedro Almodóvar, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Ken Loach e Xavier Dolan na corrida pela Palma de Ouro. 

Será o segundo ano consecutivo sem a Netflix na programação. A gigante do streaming, que lançou "Roma" no Festival de Veneza do ano passado, está numa queda de braço com a mostra francesa de cinema, que impõe a condição de só exibir filmes que entrarão em cartaz nos cinemas. 

O recluso Malick, que ganhou o prêmio por "A Árvore da Vida" (2011), volta com "A Hidden Life", história sobre um austríaco, interpretado por August Diehl, que se recusa a lutar pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Os irmãos Dardenne, conhecidos pelo registro naturalista em seus dramas sociais, exibem "Le Jeune Ahmed", que fala de um adolescente belga que começa a se interessar pelo extremismo islâmico. 

Com "Dolor y Gloria, Almodóvar envereda por uma t rama com tintas autobiográficas e que tem Antonio Banderas no papel de um cineasta avaliando as escolhas que fez ao longo da vida. E o canadense Xavier Dolan, de "Eu Matei Minha Mãe" e "Mommy", volta a atuar em uma produção sua com "Matthias & Maxime".

"Rocketman", cinebiografia sobre Elton John nos moldes de "Bohemian Rhapsody", também vai estar em Cannes, mas em exibição especial e fora de competição. Asif Kapadia, que já rodou filmes sobre Ayrton Senna e Amy Winehouse, irá apresentar "Maradona", seu novo documentário, sobre o jogador argentino.

Há mistério sobre a participação de "Once Upon a Time in Hollywood", de Quentin Tarantino, que revisita a espiral de assassinatos cometidos pelos seguidores de Charles Manson, em 1969. O filme ainda está na edição e não se sabe se ficará pronto a tempo para Cannes. 

Neste ano, o mexicano Alejandro González-Iñárritu será o presidente do júro da competição, responsável por escolher o filme que levará a Palma de Ouro. E o ator francês Alain Delon receberá uma homenagem especial por sua carreira. 

Veja a lista completa de filmes anunciados

Na competição à Palma de Ouro
"The Dead Don't Die", de Jim Jarmusch
“Atlantique”, de Mati Diop
“Bacurau”, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles
“Frankie”, de Ira Sachs
“A Hidden Life”, de Terrence Malick
“It Must Be Heaven”, de Elia Suleiman
“Les Misérables”, de Ladj Ly
“Little Joe”, de Jessica Hausner
“Matthias & Maxime”, de Xavier Dolan
“Roubaix, une Lumière", de Arnaud Desplechin
“Parasite”, de Bong Joon Ho
“Portrait de la Jeune Fille en Feu", de Céline Sciamma
“Sibyl”, de Justine Triet
“Sorry We Missed You”, de Ken Loach
“Dolor y Gloria”, de Pedro Almodóvar
"O Traidor", de Marco Bellocchio
“The Whistlers”, de Corneliu Porumboiu
“The Wild Goose Lake", de Diao Yinan
“Le Jeune Ahmed”, de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne

Na seção Um certo Olhar
"Adam”, de Maryam Touzani
"Dylda”, de Kantemir Balagov
"La Femme de Mon Frère”, de Monia Chokri
"Bull”, de Annie Silverstein
"The Climb”, de Michael Covino
"EVGE”, de Nariman Aliev
"Liberté”, de Albert Serra
"A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Karim Aïnouz
"Jeanne”, de Bruno Dumont
"Chambre 212”, de Christophe Honoré
"Papicha”, de Mounia Meddour
"Summer of Changsha” de Zu Feng
"Port Authority", de Danielle Lessovitz
"Les Hirondelles de Kabul”, de Zabou Breitman e Eléa Gobé Mévellec
"O Que Arde”, de Olivier Laxe
"Zhuo Ren Mi Mi”, de Midi Z

Fora da competição ou em exibição especial
“Le Plus Belle Annés D'Une Vie", de Claude Lelouch
"Maradona”, de Asif Kapadia
"La Belle Époque”, de Nicolas Bedos
"Rocketman", de Dexter Fletcher
"Too Old to Die Young ”, de Nicolas Winding Refn
"The Gangster, the Cop, the Devil”, de Lee Won-Tae
“Family Romance, LLC.”, de Werner Herzog
“For Sama”, de Waad Al Kateab e Edward Watts
"Que Sea Ley”, de Juan Solanas
"Share”, de Pippa Bianco
"Être vivant et le savoir”, de Alain Cavalier
"Tommaso”, de Abel Ferrara

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