Celeiro de talentos, Club Noir entra em crise e fecha seu espaço na rua Augusta

Fundador do grupo, Roberto Alvim propôs guerra cultural ao apoiar Bolsonaro, mas polêmica não tira brilho de sua história

Fachada do Club Noir, na rua Augusta, em São Paulo - Moacyr Lopes Junior/Folhapress
Gustavo Fioratti
São Paulo

Roupas penduradas em araras, chapéus, botas, armas de brinquedo, luminárias. Diversos objetos usados como figurinos e cenografias durante os 15 anos de atividades pedagógicas e artísticas do teatro Club Noir estavam à venda, na sede do grupo localizado no Baixo Augusta.

A atriz Juliana Galdino, fundadora da companhia ao lado do diretor Roberto Alvim, seu marido, era quem negociava os preços das mercadorias de segunda mão, diariamente, até esta quarta (26). Era o dia em que ela disse que entregaria as chaves do imóvel com sua marcante fachada de vidro e alvenaria pintada de preto.

Com uma dívida que o casal diz ser de R$ 30 mil, referentes a aluguel, IPTU e contas de luz, o Club Noir encerrou suas atividades nesta semana. O bazar foi organizado para levantar fundos que, somados a doações via Crowdfunding, pagariam todos os débitos do grupo.

Alvim e Galdino alegaram nas redes sociais que o encerramento das atividades da casa decorreu de uma perseguição promovida pela classe teatral por razões políticas.

Desde o ano passado, ambos têm se posicionado publicamente a favor do presidente Jair Bolsonaro e também passaram a expressar fervor cristão. Eles dizem que um curso que ministrariam neste ano foi esvaziado após campanha contrária promovida por artistas e curadores de esquerda.

Alvim também atribui o cancelamento de um espetáculo seu, que seria exibido neste ano em unidade do Sesc, ao conjunto de reações contra seu atual posicionamento político.

Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc em São Paulo, nega e diz que a entidade permanece com interesse em trabalhar com o diretor “enquanto ele for o artista competente que é”. O cancelamento teria resultado, na verdade, de reposicionamento de agendas. “O Sesc não veta artistas, nem por suas posições políticas nem pelas religiosas”, diz.

Não é a primeira vez que Alvim reclama de perseguição e falta de dinheiro. Em 2014, o Club Noir esteve à beira do fechamento. Em 2015 e 2016 também, segundo anunciaram à época seus fundadores. Frequentemente, a divulgação de ameaça de fechamento vinha acompanhada de reclamações sobre a formação das comissões que escolhiam os projetos da Lei do Fomento.

Desde 2008, o Noir foi escolhido duas vezes para receber verbas de incentivo cultural da prefeitura. Naquele ano, foram R$ 200 mil. Em 2011, receberam R$ 540 mil, além de terem uma peça financiada pelo Proac, programa do governo do estado. No Sesc, nos últimos cinco anos, Alvim e Juliana emplacaram sete espetáculos teatrais.

O diretor, porém, insiste que há uma perseguição. “A arte é território da esquerda, pelo menos é assim que a esquerda pensa. Demoraram muito tempo para conquistá-la integralmente, em todos os níveis, e não querem abrir mão desse campo de modo algum, o que significa reduzir as obras a um palanque ideológico”, publicou, em menção ao que disse uma amiga, no Facebook.

Houve publicações mais agressivas contra a esquerda. No último dia 14, Alvim escreveu: “caminhando agora pela rua, cruzei com meia-dúzia de retardados, que carregavam um cartaz no qual estavam escritas coisas como: 'Lula preso político'. Não me controlei, brotou, do fundo da minha alma, um grito não-premeditado, na cara dos imbecis: vão tomar no cu!'”. Ele termina seu texto chamando os manifestantes de “bando de filhos da puta”.

Simultaneamente ao barulho que causou ao anunciar o fechamento do Noir, o diretor fez um trajeto em direção ao governo Bolsonaro. Ele se reuniu com o Secretário Especial de Cultura do governo, Henrique Medeiros Pires, há um mês. Depois, foi recebido pelo próprio presidente e deve assumir nos próximos dias cargo na Fundação Nacional de Arte, como diretor do núcleo de artes cênicas.

No Facebook, Alvim disse que promoveria uma “máquina de guerra cultural”, o que levou servidores da Funarte a repudiarem sua nomeação, em carta aberta e em coro com os protestos nas redes sociais. Mais recentemente, o artista editou a publicação, extraindo o referido trecho.

O encerramento das atividades do clube Noir representa o fim de uma história que merece ser vista distanciada de toda essa polêmica. Este repórter procurou por artistas e curadores que trabalharam com o Noir, mas nenhum deles quis falar publicamente sobre o clube. Em comum, eles relatam a dedicação de Alvim e Galdino em realizar um trabalho que prima por qualidade artística.

O temperamento de ambos também foi descrito como uma das dificuldades de manter estabilidade na companhia. As descrições falam de afetos como medo e gratidão. E a história do Noir também passa por festas, conversas na calçada, bebidas no bar que antecedia a sala de teatro e o intenso uso de cocaína, mesmo em dias de trabalho, em fase já superada. Hoje, diretor e atriz se posicionam contra o uso de drogas.

Juliana Galdino, considerada uma atriz genial desde que protagonizou peças de Antunes Filho —“Medeia”, 2001, era assustadoramente forte—, era temida por atores mais jovens por causa dos rompantes de virulência e um olhar fuzilante. Trazia na bagagem a escola de Antunes, um diretor que confrontava seus pupilos com algum fúria e jogos psicológicos, desestabilizando-os e ao mesmo tempo impulsionando-os.

Desde que a sede da companhia abriu na Augusta, em 2008, o casal propôs obras que, a exemplo do estilo do velho mestre Antunes, davam palco a talentos pescados das atividades formativas. Anualmente, realizavam oficinas de dramaturgia e de interpretação. Os trabalhos de ambos expressavam natureza de altíssimo rigor formal. Eram coreografias minimalistas e de cuidadoso artesanato vocal.

Em pouco tempo, a escuridão tornou-se uma marca do Noir. Espetáculos como “Pinókio” (que seguiu o nascimento do filho deles e iniciava descrevendo a estranha formação da vida dentro do aparelho reprodutor feminino), eram encenados com uso de pouca luz. Com essa estética, levaram ao palco todas as tragédias de Ésquilo, no projeto “Projeto Peep Classic Ésquilo”. Um tour de force.

Prolíficos, Alvim e Juliana chamaram a atenção de Caco Ciocler (“A Construção”), depois de Nathalia Timberg (“Tríptico Samuel Becket”), de Guilherme Weber, Mário Bortolotto, Pascoal de Conceição (“Fantasmas”) e muitos outros talentos. Pelas oficinas de dramaturgia de Alvim também passaram autores depois reconhecidos pela crítica, como Alexandre França, Andrew Knoll, Vinicius Calderoni.

Desde que começaram a manifestar apoio ao presidente Bolsonaro, Alvim e Galdino colocaram na cabeça de antigos colegas, muitos dos quais se afastaram deles, uma interrogação. Eles próprios tinham antes ideias afinadas com a esquerda, e ao mesmo tempo recusavam tornar o palco um palanque político.

Fica no ar se há uma estratégia por trás das novas posições políticas do casal, de suas provocações e da absoluta falta de posicionamento crítico sobre o atual governo, especialmente sobre a defesa de ​Bolsonaro do armamentismo, ditadores e torturadores.

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