Descrição de chapéu

Morte de João Gilberto encerra a utopia de um país do futuro

Com o pai da bossa nova, são sepultados o delírio da construção de Brasília, do cinema novo e do neoconcretismo

Esplanada dos Ministérios, fotografia de Marcel Gautherot, do livro

Esplanada dos Ministérios, em fotografia de Marcel Gautherot, publicada no livro "Brasil: Uma Biografia", de Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling IMS/Divulgação

Claudio Leal

Utopia é uma palavra sequestrada pelo lodaçal brasileiro, mas a morte de João Gilberto deu uma revanche ao termo, talvez um suspiro ingênuo ou um salvo-conduto. E voltamos a reencontrar a ideia nos lamentos sobre a perda do mestre radical e eremita. 

Nesse espasmo utópico, é inevitável lembrar o Brasil do governo Juscelino Kubitschek em sua mobilização de otimismos benignos, ainda que a sua figura histórica seja revista nos excessos desenvolvimentistas. 

No ciclo de JK, avançando sobre o período de João Goulart, o país acompanhava o desenvolvimento da arquitetura modernista de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa —os inventores de Brasília—, da bossa nova, da modernização gráfica dos jornais, do concretismo dos irmãos Campos e Décio Pignatari, do neoconcretismo, do cinema novo, do futebol-arte, da crítica moderna de teatro. 

Viviam entre nós o conto de Clarice Lispector, a crônica de Rubem Braga e Antonio Maria, Guimarães Rosa, a euforia cinéfila, os museus de arte moderna, as exposições de Lina Bo Bardi. Houve até um toque português. Na Bahia, um filósofo refugiado da ditadura de Salazar, Agostinho da Silva, difundia o sebastianismo pessoano de “Mensagem”. O sonho Brasil era vendido em qualquer padaria. 

João Gilberto foi um sobrevivente dessa miragem. Síntese do artista moderno, reorganizou a tradição do samba e construiu um caminho contrário à autossacralização dentro do território seguro da bossa nova. No México, quem diria, gravou boleros. A influência intergeracional de João comprova as possibilidades culturais de sua ruptura em diálogo contínuo com outras utopias, sem excluir as que ainda não existiam. 

Vertentes distintas e conflitantes da música popular se tocam na assimilação do trauma de “Chega de Saudade”, de 1959, “O Amor, o Sorriso e a Flor”, de 1960, e “João Gilberto”, de 1961. O roqueiro Raul Seixas, que atacava os bossa-novistas baianos, reconheceria ao jornal Pasquim que “gostava de João Gilberto, gostava muito”. 

Caetano Veloso, com certeza o discípulo mais amado por João, assumiu o músico como filtro estético e humano de seu próprio projeto pessoal. Mesmo Paulinho da Viola, formado na escola de Jacob do Bandolim e César Faria, sentiria seus impactos tardios.

A bossa nova encarnou a utopia brasileira para a geração do cinema novo, empenhada em acrescentar dissonâncias —conflitos e mazelas sociais— à leitura artística do país integrado enfim ao mundo, nas beiradas do golpe de 1964. 

Essa visão estabelecida do programa cinema-novista merece um olhar cauteloso, pois João, Tom e o grupo da bossa nova não estavam alheios aos absurdos brasileiros e, em alguns momentos, houve até uma feliz contaminação de ideários.

Só em 1962 dois filmes exemplificam essa proximidade de projetos. “Cinco Vezes Favela” ganha a colaboração de Carlos Lyra, um dos criadores do Centro Popular de Cultura e compositor da “Canção do Subdesenvolvido” ao lado de Chico de Assis. E “Porto das Caixas”, de Paulo Cesar Saraceni, flutua na trilha musical de Tom Jobim. 

O cineasta Glauber Rocha não gostava de bossa nova e preferia o modernismo musical de Villa-Lobos. Ao conhecer João Gilberto nos Estados Unidos, em 1969, saiu seduzido pela esfinge, a ponto de escrever um roteiro jamais filmado em que o músico perfeccionista seria capaz de incendiar cidades.

Os escritores reconheceriam os efeitos de seu uso clarificador da língua portuguesa. A obra de Carlos Drummond de Andrade, seu poeta-modelo, sem dúvida contribuiu para o reposicionamento da palavra em seus planos musicais. Os concretistas sacaram na hora. O poeta Augusto de Campos, autor de “Balanço da Bossa e Outras Bossas”, de 1968, tornou-se seu primeiro intérprete de envergadura (mais tarde, Walter Garcia daria contribuições finas), estabelecendo os vínculos do artista com a música moderna.

O tropicalismo floresceu num Brasil já autoritário, perto do abismo do AI-5, e encontrou sua senda entre João Gilberto e Glauber Rocha. Outra vez, o bruxo de Juazeiro estava na encruzilhada. 

“O tropicalismo foi um movimento romântico-destrutivo, mas a bossa nova foi um movimento clássico construtivo”, definiu Caetano, num texto de 1984 sobre os 25 anos de carreira do mestre que o convocara a deixar de vez o exílio em Londres. 

João continuava olhando. Em sua estranha reaparição neste ano, na circunstância triste dessa morte, a ideia de um Brasil promissor nos interpela. O pensamento utópico produziu desastres no século 20, mas evitou tantos outros em seu efeito saneador nas vanguardas artísticas. 

Agora, uma ilustração da distopia. O atual presidente da República, Jair Bolsonaro, precisou ser provocado para comentar a morte de João Gilberto. “Era uma pessoa conhecida. Nossos sentimentos à família, tá OK?”, disse. Mais que anti-JK, Bolsonaro é o antipresidente bossa nova, o retrato da fissura no destino brasileiro, o vácuo apontado contra os indígenas, os negros, os gays, os professores, as florestas e os rios. 

“Morte do Leiteiro”, de Drummond, era um dos poemas favoritos de João Gilberto. “Há no país uma legenda,/ que ladrão se mata com tiro./ Então o moço que é leiteiro/ de madrugada com sua lata/ sai correndo e distribuindo/ leite bom para gente ruim.”

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