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Cinema

Filmes da produtora de direita Brasil Paralelo são um mimimi interminável

Obras como '1964: O Brasil Entre Armas e Livros' estão no universo da propaganda

Montagem com personagens do impeachment em vídeo da produtora Brasil Paralelo
Montagem com personagens do impeachment em vídeo da produtora Brasil Paralelo - Reprodução
Inácio Araujo

O filme “1964: O Brasil Entre Armas e Livros” volta ao fim da Segunda Guerra para desenvolver seu discurso sobre o golpe militar. É pena que o documentário não passe pelo neorrealismo italiano. 
Esse movimento abordou a realidade diretamente, para restaurar no cinema o primado do mundo real em detrimento do mundo paralelo da propaganda.

Os neorrealistas entendiam que o cinema tinha sido massacrado pela empreitada propagandística dos Estados, totalitários (URSS, Alemanha, Itália) ou não (EUA, em particular).

No documentário, estamos nesse universo paralelo da propaganda. A propaganda exalta qualidades, eventualmente as cria, e oculta os defeitos dos produtos. É também o que acontece na visão proposta pelo site, que retoma, com poucas variantes, a visão dos próprios militares de 1964, de que o golpe foi um contragolpe.

Nem os militares, Golbery à frente, escapam do linguajar direitista, pois, ao perseguirem terroristas, permitiram que as universidades virassem locais de pensamento livre. Péssima ideia, diz um dos entrevistados, desde então não se ouviu falar em terrorismo de esquerda no Brasil.

Mais do que péssima, sublinha Olavo de Carvalho: o verdadeiro perigo não vinha da guerrilha e sim da infiltração nas universidades, na mídia, nos livros. Pois a esquerda também se empenha em conquistar mentes a partir da transformação do conhecimento em arma ideológica. Sobram arestas nisso tudo.

Uma delas fica clara para quem assiste ao vídeo “Independência ou Morte”. Em vez de cidadãos, o ideal seria criar súditos. Para a Brasil Paralelo, o bolsonarismo é só uma parada. O fim é a restauração dos Orleans e Bragança. 

Vem daí o uso constante da palavra ideologia nesse discurso pantanoso: comércio sem ideologia, diplomacia sem ideologia etc. “Comércio ideológico” consiste em vender e comprar coisas de países com outra visão que não a dessa corrente.

Como se vê em “Dividindo Pessoas, Centralizando Poder”, essa visão acha que a esquerda é feita de fantoches (estudantes) e manipuladores (professores), que por sua vez são manipulados por partidos, professores universitários e livros. Estes são fantoches de Gramsci e da Escola de Frankfurt. Não ocorre à Brasil Paralelo que professores secundários sejam mais de esquerda porque ganham uma miséria, e não porque foram doutrinados por sinistros mestres.

“Esquerda” é, afinal, um amálgama que envolve stalinismo, PT, Brizola, FHC, esquerda festiva, universitários, fantoches, Gramsci, Golbery, governos militares —cada um desses elementos não leva muito longe, mas é da soma deles que se espera mobilizar seguidores em número grande o bastante para impor o projeto cultural extremo-direitista, o senso comum. 

Por fim, a cultura. São todos uns sanguessugas cooptados pelo Estado (como, aliás, a imprensa). Ambos segregam os direitistas. Subtexto: essa mamata tem que acabar, ao menos para eles. Para usar expressão cara à extrema direita, é um mimimi sem fim.

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