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Cinema

Documentário recupera memórias e vestígios do artista plástico Frans Krajcberg

Regina Jehá junta imagens de diferentes períodos para revisitar obra e militância ecológica do polonês naturalizado brasileiro

Neusa Barbosa

Frans Krajcberg: Manifesto

  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Regina Jehá

Documentário algum poderia esgotar todos os aspectos da vida e da obra de Frans Krajcberg (1921-2017), o polonês naturalizado brasileiro que se expressou de tantas formas na pintura, escultura, fotografia e gravura. Ciente disso, a cineasta Regina Jehá, amiga do artista por mais de 40 anos, opta por uma abordagem mais sensorial e intuitiva em “Frans Krajcberg: Manifesto”, um filme-colagem que acompanha alguns momentos da vida deste homem que se definia como “revoltado” —nas últimas décadas de sua vida, contra a destruição do planeta em geral e da Amazônia em particular.

O sítio Natura, a casa-ateliê onde ele vivia no sul da Bahia, é um dos cenários do filme, que incorpora trechos de outras obras, como “O Poeta dos Vestígios”, de Walter Salles (que cedeu a Regina imagens não utilizadas em sua montagem) e de um documentário sobre o Naturalismo Integral - este o título do manifesto criado em 1978 pelo crítico francês Pierre Restany, um dos companheiros da famosa viagem daquele ano ao Alto Rio Negro, realizada ao lado do fotógrafo e desenhista iugoslavo Sepp Baendereck e de Krajcberg, pautando alguns caminhos do artista polonês-brasileiro. 

Cena do filme "Frans Krajcberg: Manifesto"
Cena do filme "Frans Krajcberg: Manifesto" - Divulgação

Nessa fusão de imagens, sobressai a figura esguia de Krajcberg, em várias idades, como um D. Quixote brandindo sua máquina fotográfica diante de focos de incêndio nas matas de vários pontos do país e recolhendo, do saldo de sua destruição, os materiais aos quais ele dava uma nova vida. Transformava, assim, tocos e cipós das florestas queimadas em objetos artísticos de uma beleza estranha e pungente, reciclando os fantasmas da natureza em totens de sua incansável militância.

Por conta deste engajamento, Krajcberg recusou ter uma sala para sua obra no prestigiado museu Guggenheim de Nova York. “Eles não se importam com ecologia”, justificou o artista que, apesar da fama e prêmios por todo o mundo, era avesso à notoriedade. Homem reservado, guardou para o filme sua confissão tardia à cineasta que conhecia há 40 anos sobre o destino de seus parentes na Polônia - foram enterrados vivos. Ele nunca havia falado disto com ela. 

Viajando livremente na cronologia de suas imagens, o filme de Regina Jehá certamente não se propõe a ser didático nem a fornecer explicações sobre seu objeto, pontuando o fluxo de suas inquietações com algumas narrações em off, fornecidas pela diretora e eventualmente longas. Cairia bem um pouco mais de silêncio em algumas passagens, para que os espectadores pudessem apenas deixar-se levar pela contemplação daquilo que impressionava o olhar de Krajcberg. 

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