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Cinema

Boca a boca amplificado nas redes beneficia 'Bacurau' e 'Parasita'

Um detalhe curioso é que ambos têm desempenho surpreendente nos cinemas de rua

O boca a boca sempre foi uma força motriz do cinema. Mas, hoje, com as redes sociais na palma da nossa mão, esse fenômeno potencializou-se. Que o digam dois filmes em cartaz: “Bacurau” e “Parasita”.

Para um blockbuster que estreia simultaneamente em vários países, empurrado pelo marketing milionário e por um circuito enorme —caso de “Vingadores: Ultimato”, que ocupou 2,7 mil das 3,3 mil salas do País este ano—, o boca a boca ajuda, mas não define nada. Para filmes menores, ele é fundamental.

E se antes a impressão de um espectador era partilhada num círculo de amigos, hoje ela voa longe e além.

Silvia Cruz, sócia da Vitrine, distribuidora de “Bacurau”, brinca: “O que existe agora é o boca a milhares de bocas”. Em 15 anos no setor, Silvia nunca havia visto boca a boca como o experimentado pelo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles.

“Bacurau” aterrissou em 290 salas de 83 cidades brasileiras em 29 de agosto. Quase três meses depois, segue em cartaz em 30 delas. A longa permanência é feito raro na era do streaming. Aos 110 mil ingressos do primeiro fim de semana, outros 610 mil se somaram. No último fim de semana, 3,5 mil pessoas viram o filme.

O sul coreano “Parasita”, por sua vez, estreou há apenas dez dias e vendeu 64 mil ingressos. Poderia, portanto, ser precipitado enquadrá-lo como um fenômeno do boca a boca. Mas os resultados iniciais são promissores. O filme de Joon-ho Bong foi lançado em 60 salas e assim se manteve. Conseguiu o que se chama de “dobra”, jargão do mercado para filmes que não têm o circuito reduzido após a estreia.

“O boca a boca está funcionando tão bem que o filme, no segundo final de semana, teve um público maior que no primeiro”, diz André Sturm, da distribuidora Pandora. Para se ter uma ideia, a renda de um blockbuster cai, em média, 30% do primeiro para o segundo fim de semana.

Nos Estados Unidos, “Parasita” estreou em três cinemas, no mês passado, e teve praticamente todas as sessões esgotadas. Tornou-se o filme estrangeiro com maior média de espectadores por sala dos EUA do ano e vem sendo chamado de “word-of-mouth hit”.

Historicamente, o boca a boca depende, no fundo, de uma coisa só: de que as pessoas gostem do filme e, mais do que isso, se sintam mobilizadas a dizer para os outros: “Não perca!”.

“Bacurau” virou tema de festa e de música para o Carnaval, deu origem a memes e se tornou um celeiro de vídeos. A Vitrine produziu, sozinha, mais de cem vídeos, muitos deles editados com frases dos espectadores.

Cruz, Mendonça Filho e Dornelles alimentaram essa rede não só por meio de posts, mas organizando debates com o público e levando o filme para todas as cidades que o pediram. Fizeram exibições em assentamentos, em Kombi e em telão colocado na praia. A cada cidade, quantos outros posts, twittes e stories não foram sendo gerados?

Não por acaso, a presença dos diretores em sessões seguidas de debate tornou-se uma estratégia importante no circuito off-blockbuster. Bong passou três semanas viajando pelos EUA para conversar com espectadores. Potencializa-se assim a conexão com o público e, de quebra, o barulho nas redes sociais.

Uma pesquisa realizada pelo Centre National du Cinéma (CNC), na França, mostra que o primeiro fator de atração para o espectador sair de casa é o trailer. O segundo, é o “bouche à oreille”. Segundo o estudo, 30% do público vai ver um filme motivado pelo boca a boca —hoje mais influente na tomada de decisão do que a crítica de jornal ou a publicidade. E esse percentual salta para 75% entre quem tem de 20 a 24 anos.

O boca a boca é, no entanto, um “bem” para poucos —e (muito) bons. Tanto “Parasita” quanto “Bacurau” saíram premiados do Festival de Cannes, são obras impactantes e, ainda que se enquadrem na definição de filme a de autor, têm apelo popular. Um detalhe curioso —e que talvez nem seja um detalhe— é que tanto um quanto outro têm desempenho especialmente surpreendente nos cinemas de rua.

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