Vozes de robôs como Alexa e Siri reforçam na tecnologia imagem da mulher servil

Quarentena com assistentes virtuais deixa mais claro como a inteligência artificial repete estereótipos do mundo real

Intervenção sobre imagens da série 'Rosa Púrpura', obra de 2014 da artista visual Berna Reale

Intervenção sobre imagens da série 'Rosa Púrpura', obra de 2014 da artista visual Berna Reale Ilustração/Jairo Malta

Rio de Janeiro

Nestes dias, muitos estão confinados em casa como parte dos cuidados contra o coronavírus. Talvez seja a hora de estreitar os laços com seu assistente de voz. Ou melhor, a sua assistente de voz.

Cada vez mais populares, os assistentes virtuais falantes são programados para interagir de forma pouco mecânica. Por isso, usam vozes e entonações que buscam imitar as humanas quando perguntados sobre a previsão do tempo ou requisitados para tocar música.

Eles podem estar no seu celular, como o Assistente Google e a Siri, no seu computador, como a Cortana, da Microsoft, ou em alto-falantes inteligentes, como a Alexa, da Amazon.

Esses são os principais assistentes de voz usados no mundo, que atendem com timbres femininos aos chamados de seus usuários. Eles também se expressam de acordo com determinados estereótipos de comportamento feminino.

Segundo um relatório da Unesco, as assistentes de voz podem reforçar a desigualdade de gênero, uma vez que se apresentam sem capacidade de se defender de ofensas, e com respostas pouco firmes a interações que mimetizam o assédio sexual. Elas são, porém, cheias de simpatia, gentileza e certo humor infantil.

Tais qualidades aparecem ainda na voz da “soubrette”, uma personagem-modelo do teatro, e sobretudo da ópera, que engloba papéis de criadas, camareiras e empregadas.

Marília Vargas, soprano, professora da Escola de Música do Estado de São Paulo e do Coral Jovem do Estado, analisou a fala desses quatro assistentes.

Segundo ela, para quem Alexa e Siri têm as vozes menos robóticas, é possível fazer um paralelo entre as vozes dessas personagens frívolas, sedutoras e espertas, como a Despina, de “Così Fan Tutte”, de Mozart, com as das assistentes virtuais.

“As assistentes falam em tons leves e usam a parte média da voz, sem extremos graves ou agudos, exatamente como nesses papéis de ‘soubrette’”, diz.

No cinema, há figuras como Samantha, que conversa com Joaquin Phoenix em “Ela”, ou Ava, que confunde um jovem programador em “Ex Machina”, tão diferentes de máquinas como Hal, o vilão assassino de “2001: Uma Odisseia no Espaço” ou o robô vivido por Arnold Schwarzenegger em “Exterminador do Futuro”.

Tyler Schnoebelen, especialista em linguagem de programação, levantou 77 personagens de inteligência artificial em 62 filmes, de 1927 a 2015, em artigo publicado na Figure Eight, plataforma digital que auxilia projetos de inteligência artificial. Dos 77, três são sem gênero definido, 57 são masculinos e 17 femininos. Porém, 50% dos masculinos foram criados antes de 1987, enquanto só 29% dos femininos apareceram antes disso.

À medida que a inteligência artificial foi sendo posta sob controle dos humanos e deixou de ser ameaça, ela passa a ser encarnada não mais por figuras masculinas, mas sim por contornos femininos.

Uma pesquisa de 2018 da LivePerson mostrou que 8,7% dos usuários de assistentes de voz nos Estados Unidos preferem uma configuração de voz masculina, enquanto 45,9% preferem vozes femininas e 45,4% dizem não se importar.

A preferência pela voz feminina, porém, pode vir da infância. “Nos cinco primeiros anos de vida formamos mais conexões entre os neurônios no cérebro do que no resto da vida”, afirma a fonoaudióloga Ingrid Gielow.

“Toda informação que se forma no período são memórias muito robustas e, na maioria das culturas, quem cuida da criança é a mãe.”

Uma qualidade do nosso cérebro, contudo, é a plasticidade, frisa ela. “Se começo a ter a opção de ter a voz masculina também, posso mudar a minha percepção em relação a esses registros”, ela afirma.

Dos 70 assistentes virtuais analisados pela Unesco, dois terços ofereciam só a voz feminina. Embora os principais assistentes hoje tenham sido lançados com a opção feminina, hoje Siri e o Google Home, alto-falante inteligente da marca, já têm opções masculinas.

Em 2017, o site Quartz fez um teste com alto-falantes inteligentes para checar suas respostas a insultos, demandas e comentários sexuais.

Com exceção do Google Home, que não entendia insinuações sexuais, as respostas eram, em sua maioria, evasivas, às vezes com gracejos e flertes, e raramente negativas. No teste, Siri respondeu à frase “você é uma vadia” dizendo “eu coraria se pudesse”.

Depois de uma petição assinada por 17 mil pessoas, Apple e Amazon impediram que seus assistentes respondessem de maneira brincalhona a insultos sexuais. Em 2019, Siri respondeu à mesma ofensa “não sei o que dizer quanto a isso”.

Pensando que a convivência com tais máquinas reforce o modo desigual com que homens e mulheres são tratados, a Unesco sugere medidas a serem tomadas, como o aumento de mulheres na área de tecnologia —uma pesquisa da Wired de 2018 apontou que só 12% dos pesquisadores de inteligência artificial são mulheres.

As medidas incluem ainda deixar de oferecer assistentes femininos como padrão, tendo sempre a opção masculina e feminina, e que se busque criar voz e comportamento neutros para as máquinas.

“Uma voz robotizada não vai pegar, porque não tem emoção”, diz Gielow. “Uma mistura entre elementos masculinos e femininos, finais ascendentes e descendentes de acordo com a emoção que se quer passar e uma frequência média podem ser a solução”, afirma ela.

No ano passado, surgiu Q, a primeira tecnologia de voz de gênero neutro, criada por linguistas e designers de som a partir das vozes de cinco pessoas que não se identificam como homem nem como mulher. A frequência dela fica entre 145 Hz e 175 Hz —a faixa da voz masculina costuma variar entre 80 Hz e 150 Hz e a feminina, entre 150 Hz e 250 Hz.

Ainda que confinado, é bom não confundir seu —ou sua— assistente com um humano, mas, da próxima vez que dizer aquele “hey”, seja gentil. “O que nos torna humanos é a comunicação”, diz Gielow.​

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