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Cinema

No streaming, festival Varilux é boa pedida para fugir de Hollywood

Evento disponibiliza filmes online gratuitamente como saída para o isolamento causado pelo coronavírus

Todos os anos o Festival Varilux oferece uma prévia, nos cinemas, do que o cinema francês procura mostrar ao mundo como o seu melhor. Como esse “melhor” vem do cinema comercial da França, e como esse costuma ter repercussão estritamente local, o alcance do festival costuma ser um tanto restrito.

Desta vez, por motivos óbvios, o festival será online. Desta vez, por gentileza ou necessidade, será gratuito. O tipo de programação não muda muito, mas com pandemia e quarentena, a perspectiva se altera. O festival acontecerá online e os filmes podem ser vistos de graça.

No mais, os filmes do Varilux podem não ser, em geral, grandes eventos artísticos, mas oferecem um tanto de distração. E distração pode ser, conforme o momento, o que de melhor se pode ter numa quarentena.

Dito isso, passemos por “Vidas Duplas”, bom filme de Olivier Assayas, um dos melhores diretores franceses em atividade, já exibido nos cinemas. Assayas acopla ali duas questões –chegada da meia-idade para um editor de livros e um escritor e, ao mesmo tempo, os problemas impostos pelas transformações que a tecnologia digital introduz ao mundo editorial. Para completar, eles também enfrentam problemas conjugais, e é aí que entra Juliette Binoche, estrela absoluta do filme.

Por falar em estrela, nenhuma é mais duradoura do que Catherine Deneuve, que reaparece aqui em “A Ùltima Loucura de Claire Darling”, de Julie Bertuccelli, em que atua ao lado da sua filha, Chiara Mastroianni. O título sugere uma comédia, mas o que está em questão é mais a lembrança de dias não raro trágicos, no momento em que Claire acredita estar em seu último dia de vida. Outro que não é inédito, mas ganhará nova vida online.

Já em “O Reencontro”, Deneuve reencontra outra estrela do cinema francês da grande época, Mylène Demongeot, 84. Seja por plásticas bem feitas, seja pela qualidade da água, sei lá, há atrizes francesas que parecem eternas.

Se alguém rivaliza com Deneuve ou Demongeot em tempo de estrelato é Asterix. Sempre melhor na animação do que nos filmes com atores, o gaulês (ainda melhor nos álbuns de Uderzo e Goscinny) chega em dois episódios, “O Domínio dos Deuses”, de 2014, e “O Segredo da Poção Mágica”, do ano passado. Sempre vale.

Como acontece com frequência, a parte histórica é forte no cinema francês. Desta vez, o mais promissor parece ser “O Imperador de Paris”, de Jean-François Richet, em que Vincent Cassel interpreta o célebre ladrão Vidocq. Cassel, por sinal, está em outro filme histórico, “Gauguin – Viagem ao Taiti”, no papel do célebre pintor.

Se se fala em estrela no cinema francês é impossível omitir Fabrice Luchini. Seu prestígio só fez crescer, desde que foi lançado por Eric Rohmer, ainda nos anos 1970. Desta vez ele vem na comédia “O Mistério de Henri Pick”, em que um crítico literário tenta desvendar o mistério da autoria de um best-seller escrito, supostamente, por um pizzaiolo pouco afeito às letras.

Frequentadora do festival de Cannes e dos prêmios César, a realizadora Susan Anspach tem uma espécie de tripla nacionalidade. Nascida na Islândia, país da mãe, com pai americano por adoção e alemão por nascimento, acabou se fixando na França, onde estudou cinema e filma habitualmente. Sua comédia dramática “Lulu, Nua e Crua”, de 2013, teve aceitação acima da média na França e retorna ao Brasil no Varilux deste ano.

Um gênero pouco abordado pelo cinema francês é o terror, hoje muito presente e não raro com filmes importantes, como os de Jordan Peele nos Estados Unidos. Mas certa proximidade entre o horror e o suspense é algo que ressurge desde “As Diabólicas”, de 1954, de Henri-Georges Clouzot. Desta vez, “Carnívoras”, de Jérémie e Yannick Rénier, parece promissor, ao nos introduzir à saga de duas irmãs no mundo do cinema (o que não deixa de lembrar “O que Terá Acontecido a Baby Jane”, de Robert Aldrich, lançado em 1962).

Se não é possível enumerar os 50 filmes propostos pelo festival online, é impossível contornar outra estrela, o carismático Omar Sy, que comparece em “Jornada de Vida”, ou um cineasta irregular, mas capaz por vezes do melhor, como François Ozon (“Graças a Deus”, sobre abusos em crianças, assim como “Inocência Roubada”).

Sim, o cinema francês costuma dividir os espectadores de forma quase tão radical (e irracional) quanto os pró e contra a cloroquina. De todo modo, a Europa (e não só a França) teve seus filmes expulsos do grande circuito pelo cinema americano, pelo menos, nas últimas três décadas.

O Festival Varilux deste ano oferece uma bela (e gratuita) oportunidade de sair um pouco da dieta hollywoodiana oferecida pelos circuitos, pelas TVs pagas ou grandes serviços de streaming. E, sobretudo, a chance de se familiarizar com o que há de muito bom, não tão bom e francamente ruim num dos países de produção mais tradicional do mundo. Será uma chance de se distrair e, por vezes, descobrir o que existe de interessante na produção recente de uma das cinematografias mais tradicionais do mundo.

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