'O Fantasma da Ópera' sobreviveu à Covid-19, e, sim, Raoul e Christine se beijam

O musical na Coreia é visto como a única produção em grande escala e em língua inglesa que continua em cartaz no planeta

Jennifer Schuessler Su Hyun Lee
The New York Times

“O Fantasma da Ópera” gerou muitos superlativos ao longo dos anos, entre os quais sua classificação como espetáculo por mais tempo em cartaz na história da Broadway. Mas nos últimos meses, a produção conquistou um título muito mais improvável: o de musical pioneiro da era da Covid-19.

Com o fechamento abrupto dos teatros de todo o mundo, e sem percurso claro para a reabertura, a turnê mundial de “O Fantasma da Ópera” continua firme, em Seul, Coreia do Sul, com oito apresentações por semana. E ela vem atraindo plateias robustas ao teatro de 1,6 mil lugares, mesmo depois que um surto no elenco resultou em uma parada compulsória de três semanas nas apresentações, em abril.

O musical, que envolve uma companhia de 126 integrantes e centenas de figurinos e adereços, é visto como a única produção em grande escala e em língua inglesa que continua em cartaz no planeta. E se manteve aberto não por meio de medidas de distanciamento social —vistas como virtualmente impossíveis em um teatro, quer logística, quer financeiramente, na opinião de muitos— mas sim por uma abordagem cuja base é higiene rigorosa.

E o compositor do musical, Andrew Lloyd Webber, argumenta que essa abordagem pode mostrar o caminho para o restante do setor, algo que ele espera demonstrar ao mundo ao se preparar para transformar o Palladium, um dos sete teatros que controla em Londres, em um laboratório para reproduzir as lições aprendidas em Seul.

“Não acredito que deveríamos ficar parados e dizer que tudo vai muito mal, e não há o que possamos fazer”, ele afirmou em uma entrevista na semana passada. “Temos de tornar os teatros o mais seguros que pudermos para todos”, ele disse. E a Coreia do Sul demonstra que isso pode funcionar, em sua opinião.

Que o espetáculo, que está em cartaz no complexo cultural Blue Square, no centro de Seul, tenha ficado em exibição é prova não só da eficácia dos protocolos adotados pelo teatro como do sistema rigoroso de exame, rastreamento e quarentena desenvolvido pela Coreia do Sul, que manteve o vírus em geral sob controle.

Outro fator foi o timing propício e uma dose de sorte, embora isso não fosse aparente de início. Quando a passagem anterior da turnê pela cidade de Busan, a segunda maior da Coreia do Sul, se encerrou, na metade de fevereiro, o país estava emergindo como o mais recente epicentro da pandemia.

Os integrantes da companhia aproveitaram a parada para ir para casa, no Reino Unido, Itália, América do Norte, Austrália e outros locais. Serin Kasif, vice-presidente da companhia de Lloyd Webber, Really Useful Group, e produtora da turnê, disse que estava recebendo mensagens diárias dos integrantes da companhia, ansiosos por saber se deveriam ou não retornar.

Em 2 de março, quando Kasif viajou a Seul a fim de iniciar os preparativos para a estreia lá, a Coreia do Sul tinha o segundo maior número de casos confirmados da Covid-19, e a pandemia ainda não havia atingido o Reino Unido com sua maior força.

Ela contrastou a “sensação esmagadora de medo” que se desenvolveu em Londres com aquilo que tinha experimentado em Seul, onde as diretrizes governamentais eram claras e seus parceiros locais já tinham vivido epidemias anteriores, como a da Sars.

“Quando conversava com nossos parceiros coreanos, para definir a decisão quanto a continuar ou não a turnê, um deles disse que a expressão ‘sem precedentes’ continuava a ser usada, mas que a situação não era sem precedentes aqui”, ela explicou.

“Surpreendentemente”, disse Kasif, toda a companhia retornou a Seul. Matt Leisy, que estudou na Universidade Northwestern e interpreta Raoul, disse que quando viajou para casa, em Nova York, durante a pausa, seus amigos “não se conformavam” com a possibilidade de que ele voltasse à Coreia do Sul. No entanto, ele disse ter sido ressegurado pelas comunicações constantes dos produtores com respeito a protocolos de segurança, bem como pelos vídeos que eles enviavam sobre a vida cotidiana em Seul.

“Foi um período bem assustador, os dias anteriores ao nosso retorno”, ele disse. “Quem imaginaria que terminaríamos em um dos lugares mais seguros do planeta?”

Os protocolos impostos pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças da Coreia do Sul são rigorosos mas não especialmente avançados em termos de tecnologia. Antes de entrarem no teatro, uma mistura leve de desinfetante é aspergida sobre os espectadores. Sensores térmicos medem a temperatura de cada pessoa e todos preenchem um questionário sobre sintomas e sobre lugares que tenham visitado recentemente, para que possam ser notificados sobre qualquer exposição a que tenham sido submetidos, por meio do app de rastreamento de contágio desenvolvido pelo governo sul-coreano.

Há postos com álcool desinfetante disponíveis por todo o local, e placas e anúncios frequentes relembrando os presentes de que devem usar máscaras o tempo todo. E em contraste com o que acontece nos cinemas, em que fileiras ou assentos alternados ficam vazios, não há assentos bloqueados (embora a primeira fila de cadeiras tenha sido removida).

Nos bastidores, o procedimento é semelhante: nada de abraços, apertos de mão ou contatos físicos não essenciais. Garrafas de água reutilizáveis estão proibidas, assim como compartilhar alimentos. Perucas, adereços e figurinos são limpos periodicamente com spray desinfetante, ou esfregados com tecido antibacteriano. Todos devem usar máscaras, exceto os atores em processo de maquiagem ou ao entrar no palco, e alguns membros da orquestra.

Sharon Williams, a diretora de figurino, disse que, desconsideradas as máscaras e “as mãos que são lavadas constantemente”, os protocolos seguidos pelos 17 membros de seu departamento não são tão diferentes do que seriam normalmente, excetuados os ciclos adicionais de lavagem de figurinos em alta temperatura e com detergente antibacteriano.

O elemento crucial, ela afirma, é a rigorosa cooperação de toda a companhia. “Ninguém está se recusando a seguir os procedimentos”, disse Williams.

Quanto à ação em cena, Kasif disse que não houve modificações —e sim, Raoul e Christine ainda se beijam.

O que não equivale a dizer que os atores tenham escapado a momentos de intenso nervosismo. Leisy disse que inicialmente ele estava “muito consciente” da saliva que voa pelo palco, especialmente em números movimentados como “Masquerade”, a canção com que o segundo ato do espetáculo se encerra.

“Quando enuncio minhas falas, percebo a saliva voando de minha boca”, ele disse. “Em um dado momento, estamos todos dançando e cantando alto e, quando olho em volta e vejo toda aquela saliva voando, fico pasmo”.

(A primeira fileira de assentos fica a 5,2 metros da beira do palco, uma distância aparentemente segura, de acordo cm um vídeo divulgado pelo produtor coreano do espetáculo no começo de maio, com detalhes sobre as precauções de segurança.)

A temporada, que foi estendida até agosto (depois que a produção de “War Horse” que estava em turnê e ocuparia o teatro em seguida foi cancelada), não deixou de enfrentar percalços. No final de março, cerca e duas semanas depois da estreia do espetáculo, uma das bailarinas informou que não estava se sentindo bem. Ela foi examinada, e o resultado —positivo— foi informado às 9h da manhã seguinte.

As autoridades agiram rapidamente para isolar o teatro e verificar se todas as normas estavam sendo seguidas. Uma unidade móvel de teste foi instalada no topo de um edifício de apartamentos onde os integrantes não coreanos do elenco e da equipe técnica estão hospedados, e todo mundo foi testado imediatamente, em busca do vírus e de anticorpos. (Um dos homens do elenco também foi identificado como portador do vírus, mas continuava assintomático.)

Todos os 76 membros da companhia itinerante foram submetidos a 15 dias de quarentena em seus apartamentos. Os empregados locais da produção também foram testados, e passaram por quarentena em suas casas. (Uma produção local de “Dracula: The Musical” também decidiu suspender suas apresentações no período, em resposta ao surto ocorrido em “O Fantasma da Ópera”, de acordo com reportagens na imprensa local.)

Em respeito às normas locais, as mais de 8.000 pessoas que haviam assistido a “O Fantasma da Ópera” receberam mensagens de texto, por meio do app de rastreamento, e foram informadas do surto. Mas um anúncio público também deixou claro que todos os protocolos haviam sido seguidos.

Kasif deu a entender que o fato de que o vírus não tenha se espalhado mais amplamente entre os integrantes da companhia era prova, ao menos “incidental”, em suas palavras, de que os protocolos funcionam.

“As bailarinas formam um conjunto muito unido”, ela disse. “Dividem um camarim, se aquecem juntas, atuam juntas, fazem relaxamento pós-show juntas. E também são boas amigas socialmente. Assim, se as diretrizes não funcionassem, todas elas deveriam ter o coronavírus.”

O espetáculo reestreou em 23 de abril, e as vendas de ingressos vêm registrando de 70% a 85% de lotação desde então, segundo Kasif. Mesmo na quinta-feira passada (21), quando um pico de casos novos no país levou as autoridades a fechar todos os museus, galerias de arte e espaços de entretenimento públicos da Grande Seul até 15 de junho, a casa estava praticamente cheia, de acordo com um repórter que compareceu. (Os divulgadores do espetáculo se recusaram a fornecer números de bilheteria.)

Espaços privados como o Blue Square foram autorizados a continuar funcionando, e “O Fantasma da Ópera” continua em cartaz “de acordo com as normas e instruções do Centro de Controle e Prevenção de Doenças coreano”, afirmou Kasif em comunicado.

Diversos espectadores expressaram preocupação com a subida no número de casos, mas disseram confiar nas medidas do teatro e na resposta mais ampla dos serviços de saúde pública da Coreia do Sul.

A designer gráfica Yi-seul Lee, 28, viu o musical em março e disse que não queria perder a chance de vê-lo de novo. “A menos que gritemos bem alto durante o espetáculo, ou que tiremos as máscaras, acredito que estejamos mais ou menos seguros”, ela disse.

Mas alguns fãs consideravam que as incertezas causadas pela pandemia trazem algum desânimo. In-hae Bae, 36, gerente de recursos humanos que estava assistindo a “O Fantasma da Ópera” pela sexta vez, disse que sempre que os atores se abraçavam no palco, ela pensava no vírus. E os aplausos, no final, pareceram “tímidos”, ela disse.

“Estava todo mundo calmo demais”, ela disse sobre a audiência. “Isso me fez pensar que o coronavírus sufocou nossa paixão, também.”

Tradução de Paulo Migliacci  

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