Fãs já se preparam para ver shows de dentro de bolhas e vestir armaduras hi-tech

Em meio ao novo coronavírus, eventos de entretenimento passam por reinvenção e ficam à luz da incerteza

São Paulo

O ano de 2020 tem sido esquisito, mas está prestes a ficar ainda mais estranho. É o que diz um tuíte recente da banda irlandesa Two Door Cinema Club. Nele, os músicos anunciam um show na arena Virgin Money Unity, que está sendo construída em Newcastle, na Inglaterra, e é definida por seus criadores como “o primeiro espaço de música socialmente a distância do Reino Unido”.

Com capacidade máxima de 2.500 visitantes, a arena foi concebida pela empresa de festivais SSD Concerts e projetada para instalar 500 núcleos de plateia, com dois metros de distância entre cada um.

Nomes como Supergrass, Craig Charles e Tom Grennan estão na lista de shows confirmados para ocorrer no local, que deve ser inaugurado no próximo mês.

Arena Virgin Money Unity, que está sendo construída em Newcastle, na Inglaterra, e é definida por seus criadores como “o primeiro espaço de música socialmente à distância do Reino Unido”. Ilustração mostra arena dividida em pequenos núcleos de espectadores
Ilustração da arena Virgin Money Unity, que está sendo construída em Newcastle, na Inglaterra, e é definida por seus criadores como "o primeiro espaço de música socialmente à distância do Reino Unido" - Reprodução

​​Depois de meses de políticas rígidas de distanciamento social, diversos países vivem agora a flexibilização dessas medidas e, por isso, novidades de todo tipo vão surgindo —mais uma vez— com estrondosa rapidez.

Primeiro, foi a vez das lives. Elas foram a primeira opção para aplacar o desejo por eventos durante a quarentena. Isoladas em suas casas, pessoas do mundo inteiro formaram enormes auditórios virtuais e passaram a adaptar alguns de seus antigos hábitos de diversão. Agora, outras alternativas culturais começam a compor o cotidiano da nova normalidade.

Mas se a ideia de ir a um show com a plateia fragmentada soa estranha para alguns, o que pensar sobre a possibilidade de curtir um evento do gênero dentro de uma bolha gigante? Um show recente da banda The Flaming Lips, que virou assunto nas redes sociais, pode exemplificar bem esse questionamento.

Durante uma apresentação no programa de TV americano "The Late Show with Stephen Colbert", realizada em junho, os músicos e fãs da banda ficaram dentro de bolhas plásticas transparentes. Tudo projetado para evitar o contágio do novo coronavírus.

De pequenas baladas a grandes festivais, os eventos de entretenimento não serão mais como antes. E, enquanto a incerteza tempera o futuro, artistas, produtores e amantes dos palcos e pistas de dança vão vivenciando novas experiências.

No Brasil, a retomada das atividades está acontecendo de forma gradual e difere para cada cidade. Em São Paulo, por exemplo, espaços e eventos culturais —exceto mostras— com público sentado poderão abrir as portas a partir do dia 27 de julho.

A liberação de eventos e estabelecimentos do setor cultural paulistano só será permitida, no entanto, quando acompanhada por uma série de protocolos, como a capacidade limitada a 40% da ocupação, carga horária de funcionamento reduzida, uso obrigatório de máscara, assentos marcados e o distanciamento de um metro e meio entre os visitantes.

“A referência não é mais a casa lotada, é aquele quarto fechado”, diz Marco Antônio Tobal Junior, sócio do grupo que comanda casas como o Espaço das Américas e o Villa Country. “Estamos começando finalmente a sair desse quarto para ver pessoas e, apesar do distanciamento, isso já é uma diferença muito grande perto do que vivemos nos últimos tempos.”

Segundo ele, tanto o Espaço das Américas quanto o Villa Country estão se preparando para reabrir e, para isso, diversas dinâmicas têm sido estudadas com cautela pelos responsáveis pelos estabelecimentos, que prometem anunciar em breve informações sobre os próximos eventos.

Ao saber da arena Virgin Money Unity, Tobal Junior diz que ficou triste e torceu para que este não fosse o único caminho disponível para o setor. “Financeiramente não é algo que vai conseguir se sustentar, a conta não fecha”, afirma o sócio.

Segundo Leonardo Cortazzo, estudante de biomedicina, a ideia de assistir a um show dentro de uma bolha plástica gigante ou num drive-in não é nenhum pouco atraente.

“Eu não iria. Além de ser tosco, acho que isso mata completamente a experiência do que é um show de música. Não precisamos viver numa sociedade distópica, é totalmente possível aguardar o fim disso tudo”, diz ele. “E o que garante que as pessoas no carro estão somente entre família? Isso não é seguro.”

Na capital paulista, shows em drive-ins estão ocorrendo frequentemente. Trocando os gritos acalorados e as palmas afobadas por sons de buzina, espectadores das apresentações musicais no Allianz Parque podem pagar até R$ 550 pelo ingresso.

“A experiência do show no Brasil é única. Tem aquele calor humano e as longas horas de fila. Tudo isso faz parte da experiência”, diz Lucas Amado, estudante de relações públicas, que, assim como Cortazzo, vai a shows e festivais com alta regularidade. “Mas eu entendo que o momento é difícil e existem muitas pessoas que dependem dessa renda envolvida.”

Já Camila Pastana, que já acampou por meses em filas de show de k-pop, diz que considera os novos tipos de evento muito mais organizados do que os tradicionais e afirma que as propostas são bem interessantes e atraentes.

Projetada para satisfazer aqueles que amam a vida noturna e eventos de entretenimento, a roupa micrashell, recém-criada pela empresa americana Producion Club, promete oferecer proteção completa contra o novo coronavírus. Na imagem, pessoas vestem roupa com capacete em um bar.
Projetada para satisfazer aqueles que amam a vida noturna e eventos de entretenimento, a roupa micrashell, recém-criada pela empresa americana Producion Club, promete oferecer proteção completa contra o novo coronavírus - Reprodução

Além da reinvenção dos palcos, o ato de frequentar espaços aglomerados, como bares e baladas, também está sendo repensado. Projetada para satisfazer aqueles que amam a vida noturna e eventos de entretenimento, a roupa micrashell, recém-criada pela empresa americana Production Club, promete oferecer proteção completa contra o novo coronavírus —e parece ter saído de um filme distópico.

O traje tem conexão a celular, tecido especial e sistema de cigarros eletrônicos. O estilista Isaac Silva explica que esse tipo de produto é chamado de roupa inteligente e depende de um alto uso de capital e tecnologia. “Provavelmente, será uma roupa bem cara [o preço ainda não foi divulgado]", diz Silva.

"Acho que as pessoas não vão querer usar e talvez até prefiram esperar mais tempo para sair de casa”, complementa. "Nesse momento, o mais importante é se proteger."

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