'Antebellum', com Janelle Monáe, compara o racismo do passado com o de hoje

Diretores e atriz do filme, que exibe os horrores da escravidão, falam da opressão sistêmica contra negros

Candice Frederick
The New York Times

Havia pouquíssimo tempo que os cineastas Gerard Bush e Christopher Renz estavam vivendo em Los Angeles, nos Estados Unidos, quando terminaram evolvidos num leilão pelos direitos de seu ambicioso filme de estreia, “Antebellum”, que no Brasil recebeu o nome de "A Escolhida". Bush diz que aquilo realmente o surpreendeu. "Nos vimos no meio de um tornado de estúdios nos disputando e disputando nosso roteiro.”

E o filme de terror —de uma dupla mais conhecida por vídeos de justiça social como “Against the Wall”, sobre brutalidade policial e com participação do ator Michael B. Jordan— veio de um pesadelo de Bush. Nele, uma mulher negra chamada Eden gritava por socorro de maneira que ele descreve como “transdimensional”. A mulher se referia ao seu perseguidor apenas como “Ele”.

“Quando acordei, estava bem perturbado e senti vontade de me aproximar dela, de voltar a ela”, disse Bush.

Quase dois anos depois que ele e Renz escreveram um conto a respeito, o sonho de Bush se transformou num filme estrelado por Janelle Monáe. A cantora está estreando como atriz principal.

Em "A Escolhida", ela interpreta Eden, uma escrava que luta pela liberdade na era anterior à guerra civil americana. O filme oscila desse período para o presente e Monáe se alterna entre dois papéis, Eden e Veronica, uma escritora bem sucedida, casada e mãe, que enfrenta o racismo sistêmico que ainda persiste no mundo moderno. E então as vidas de Eden e Veronica colidem fantasmagoricamente.

Como Bush e Renz, Monáe é ativista há muito tempo, e seu trabalho —que inclui papéis nos dramas “Estrelas Além do Tempo” e “Moonlight: Sob a Luz do Luar”— muitas vezes trata da opressão sistêmica. Assim, ela se sentiu compelida a aceitar os papéis desafiadores em "A Escolhida" e a atrair mais atenção a atrocidades históricas que continuam a reverberar até hoje. “Não há maneira de falar sobre as injustiças raciais que continuamos a experimentar agora sem considerar o passado”, disse Monáe.

Por mais oportunos que os temas sejam, especialmente na era do movimento Black Lives Matter, alguns críticos não foram entusiásticos em sua recepção a "A Escolhida", que estreou em setembro nas principais plataformas de streaming e vídeo.

O site Polygon classificou o filme como ”claramente o pior de 2020 até o momento”, citando sua “brutalidade desnecessária” e “a reviravolta forçada na trama”. A revista Hollywood Reporter afirmou que o filme “estava mais interessado em tratar um ponto importante do que de seu tema de maneira significativa”. Já o site IndieWire descreveu o filme como “estruturado de uma maneira forçada que contradiz sua mensagem”.

Monáe, Bush e Renz conversaram comigo pelo Zoom sobre confrontos com o passado, assimilação racial e "A Escolhida". “Para nós, é realmente importante que qualquer forma de arte que pomos no mundo leve adiante o diálogo urgente que precisamos ter sobre toda uma série de questões, especialmente a questão racial nos Estados Unidos”, disse Bush. Abaixo, trechos editados dessa conversa.

*

Considerando o momento que vivemos, vocês acham que as pessoas estão enfim preparadas para enfrentar o passado?

Gerard Bush - Acho que as pessoas estavam em pausa na era Obama pensando que os Estados Unidos haviam realizado tremendos avanços em termos raciais. Isso não equivale a dizer que não o fizemos, mas continuamos a sofrer retrocessos, por não nos dispormos a encarar a verdade. Neste país, dedicamos muito tempo a respeitar a fragilidade dos brancos e precisamos tratar a população branca —a classe privilegiada— como adultos, ao confrontar as verdades do passado, em vez de criar mentiras daquilo que serviu de fundação ao país. Essa distorção da história que faz com que [os brancos] se sintam superiores, é uma falácia.

Janelle, já que o filme tem um escopo tão gigantesco, e é o seu primeiro papel principal em um longa-metragem, você sentiu alguma hesitação quando foi convidada para o trabalho?

Janelle Monáe - Bem, fiquei muito impressionada com o roteiro. Me peguei sentada na banheira lendo o roteiro do começo ao fim e terminei com os dedos das mãos e dos pés todos enrugados. Acho que o filme faz um trabalho importante em termos de nos lembrar que o passado não é passado.

Ter uma oportunidade de centrar as mulheres negras, que carregam o fardo de desconstruir o racismo sistêmico e a supremacia branca a cada dia, foi algo que sentimos que não havia sido visto na tela. Por ser negra, e assistir aos protestos e ver como comparecemos em defesa de todos mas não recebemos o amor e paz que merecemos era algo que eu queria destacar.

'A Escolhida' também aponta que sucesso como o de Veronica não protege as pessoas negras contra traumas raciais. Como mulher negra que desfrutou de grande sucesso, o que o livro dela, 'Shedding the Coping Persona', representa para você?

Janelle Monáe - No filme, ela diz “antes libertação do que assimilação” e usa uma citação de Assata Shakur, “não temos nada a perder exceto nossas correntes”. Creio que Veronica ocupa um espaço no qual seu trabalho não é se curvar ou ser assimilada por instituições que não foram construídas nos tendo em mente.

Ocupo um lugar onde não me interesso por me enquadrar em sistemas que jamais me tiveram em mente quando criados. Estou mais interessada, e creio que Veronica esteja também, em destruir esses sistemas, recomeçar e ir à mesa pronta para afirmar “é disso que precisamos”.

O final do filme traz uma grande reviravolta que desconstrói aquilo que acreditamos esteja acontecendo na história. O que vocês desejavam que Veronica realizasse, em última análise?

Gerard Bush - Queríamos que as pessoas compreendessem que não é vingança que Veronica está buscando, e sim justiça. Muitas vezes, nos Estados Unidos, nós como pessoas negras somos incapazes de obter justiça por meio das autoridades ou do governo. E, quando fazemos, isso é interpretado como vingança.

Ela precisava corrigir o histórico, o abuso que tanto ela quanto seus ancestrais sofreram. Ela monta naquele cavalo brandindo aquele machado sangrento e realmente passou por aquilo. Mas a cena também representa que ela não passou incólume pela situação. Toda a nossa existência nos Estados Unidos foi assim.

E ao passar por essa experiência, ela poderá seguir adiante em sua vida?

Gerard Bush - Ela precisa voltar à sua filha e a seu marido, mas a única maneira que tem de se restaurar por completo é confrontar a situação abertamente e obter justiça. É a única maneira.

​​Janelle, como mulher negra que reconhece visceralmente esse elo ancestral, como foi para você mergulhar no ambiente de Eden?

Janelle Monáe - Quando pisei naquela fazenda, foi difícil. Senti muita raiva, muito ódio em meu coração por todos aqueles que roubaram nosso povo e forçaram essas pessoas a vir para a América e trabalhar. Quero que as pessoas brancas não se limitem a discutir por que estamos gritando que as vidas negras importam, como se os negros fossem objetos e não sujeitos, a serem estudados até o final dos tempos. Isso não é novidade para mim, ou para Gerard e Chris e outras pessoas que cuidam das pesquisas e têm de reviver o pesadelo de ver como a supremacia branca matou tantos de nós.

Christopher Renz - No sistema escolar dos Estados Unidos, a história negra começa com a escravatura, e não há nada anterior. Assim, era importante para nós, através de Veronica, oferecer um contexto histórico sobre aquele antes.

Gerard Bush - Que aquela mulher era casada, era mãe, lutou por sua comunidade, que ela...

Christopher Renz - Fosse mostrada plenamente em seu poder e...

Gerard Bush - Tivesse agência plena sobre sua pessoa e sua vida. Não sabemos sobre o antes.

O filme dá a entender que o antes é o que torna a existência mesma de Veronica, o seu sucesso, um ato de heroísmo.

Janelle Monáe - Acho que o filme faz um excelente trabalho de humanizar Veronica. Não é pesado o tempo todo. Há muitos momentos bonitos e de alegria. Fiquei feliz por trabalhar com mulheres negras, especialmente Gabourey Sidibe, tão luminosa como a melhor amiga de Veronica. Você vê as duas relaxando, encorajando uma à outra, bebendo vinho, rindo, falando tanto sobre coisas intelectuais quanto o trabalho necessário para ser uma ótima mãe e cônjuge. São conversas que as mulheres negras têm o tempo todo umas com as outras. Adoro ver que ela se sentia segura na companhia de uma mulher negra.

E um momento de leveza bem-vindo, especialmente num filme que também destaca uma era profundamente traumática, especialmente para as audiências negras.

Gerard Bush - Para mim, é realmente desconfortável ver pessoas como eu acorrentadas. Mas o que vim a compreender é que todos nós saímos prejudicados, quando participarmos da supressão da verdade porque confrontar isso nos causa desconforto.

Vejo nossa maravilhosa comunidade judaica e como eles são vigilantes na proteção à verdade e em garantir que os horrores do Holocausto sejam examinados e reexaminados. É um grande desserviço que prestamos a nós mesmos, essa falta de disposição de explorar essas histórias. O passado continuará a assombrar nosso presente e a nos roubar de nosso futuro coletivo caso não o confrontemos.

Tradução de Paulo Migliacci

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