Descrição de chapéu

Eddie Van Halen foi alicerce de verdadeiro pandemônio roqueiro

Hard rock festivo da banda tinha como base o 'tapping', no qual ele batia os dedos freneticamente nas cordas da guitarra

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

0

O guitarrista Eddie Van Halen, que fundou com o irmão o grupo Van Halen, em show da banda no Rainbow Theatre, em Londres Fin Costello/Redferns/Getty Image

Quem era adolescente em 1978 pode decretar luto oficial pela morte de Eddie Van Halen. Naquele ano, o Van Halen lançou seu álbum de estreia, que leva o nome do grupo. O sucesso foi devastador, rock de garagem acrescido de um guitarrista virtuoso. Os garotos americanos de classe média encontraram na banda a trilha sonora de suas vidas.

Edward Lodewijk Van Halen morreu nesta terça, aos 65, em Santa Mônica, na Califórnia. Ele sofria de um câncer na garganta. Fundador do Van Halen com seu irmão Alex, ele sai de cena já no panteão dos deuses da guitarra. Foi eleito o melhor de todos os tempos pela revista Guitar World, bíblia do instrumento, e ficou em oitavo na lista dos maiores guitarristas do rock bancada pela revista Rolling Stone.

O hard rock festivo do Van Halen era alicerçado no modo único e extremamente veloz de Eddie tocar guitarra e na presença de palco do cantor David Lee Roth. A cozinha do quarteto é das melhores do gênero —seu irmão Alex, martelando a bateria como poucos, e o baixinho atarracado Michael Anthony, subestimado baixista que precisava rebolar para segurar as músicas nos solos delirantes de Eddie.

É curiosa a trajetória dos irmãos. Eddie nasceu em Amsterdã, em 26 de janeiro de 1955. Alex é dois anos mais velho. A família se mudou para os Estados Unidos em 1962, e os dois garotos se naturalizaram americanos. Aprenderam a tocar piano, e depois Eddie se interessou por bateria, enquanto Alex foi aprender guitarra. Mas o talento natural do irmão para a bateria fez Eddie trocar de instrumento com ele. Um mau baterista se tornou um guitarrista fantástico.

Os irmãos tiveram várias bandas desde os anos 1960, mas, em 1974, Roth e Anthony chegaram para ficar. Tocaram em quase todos os bares de Los Angeles. Na verdade, o Van Halen nunca deixou de ser uma banda de bar, tocando rock rápido, barulhento e falastrão. Com o tempo, foram parar em grandes estádios lotados, mas a essência musical continuou a mesma.

O talento de Eddie Van Halen foi desde o início o diferencial. Gene Simmons, já um ídolo com o Kiss, bancou uma demo deles em 1976 impressionado pelo modo de Eddie tocar, o "tapping", batendo freneticamente com os dedos nas cordas da guitarra. O produtor Ted Templeman, que faria o primeiro álbum da banda, achava os irmãos incríveis. Em 1978, o disco foi lançado.

Entre boas músicas autorais, como "Runnin' with the Devil", o grande hit foi um cover da banda britânica The Kinks. A versão do Van Halen para "You Really Got Me", mais pesada do que a original, fazia parte da intenção de Eddie de recriar clássicos de rock e blues com mais peso, inspirado no que Jimmy Page tinha feito no início do Led Zeppelin.

Mas, já no álbum seguinte, "Van Halen II", de 1979, o material autoral da banda foi ganhando destaque, como o hit mundial "Dance the Night Away". Os dois discos seguintes, "Women and Children First", de 1980, e "Fair Warning", de 1981, venderam menos, mas foi então que o Van Halen se firmou como um dos maiores shows do planeta. As plateias lotavam com gente querendo ver se Eddie era mesmo impressionante. E era.

Em 1982, Templeman, o produtor, compôs uma música com Michael Jackson e sugeriu que Eddie gravasse a guitarra. "Beat It" foi um dos sucessos do álbum "Thriller", recordista de todos os tempos.

"Diver Down", quinto álbum do Van Halen, reuniu rocks sólidos e poderosos, mas o grande sucesso foi outra regravação. Desta vez, "(Oh) Pretty Woman", clássico de Roy Orbison. Foi com o repertório do disco que o Van Halen fez sua única turnê no Brasil. Em 1983, foram nove shows em ginásios lotados --três no Ibirapuera, em São Paulo, três no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro, e outros três no Gigantinho, em Porto Alegre. Quem viu não esquece. Um verdadeiro pandemônio roqueiro.

"Van Halen é a maior invenção desde o advento da eletricidade", disse um fã na época ao repórter deste jornal Pepe Escobar, que viu os shows e entrevistou Eddie no Brasil.

O mesmo jornalista relatou o que chamou de uma "rock-odisseia latina", repleta de "imbróglios tropicais" —a demorada e burocrática viagem da banda pela América Latina. No Galeão, os integrantes tiveram que carregar malas pesadas, enfrentar a alfândega e esperar mais de duas horas pelo seu voo para São Paulo. Em compensação, puderam experimentar um guaraná —"muito saboroso", disse o vocalista David Lee Roth.

No ano seguinte veio a criação do maior álbum do grupo, "1984". Apoiado por clipes em alta rotação na MTV, várias canções ganharam as paradas —"Panama", "Hot for Teacher" e a fantástica "Jump", música em que Eddie toca teclados e guitarra. O disco consolidou o Van Halen como uma banda do primeiro time do rock.

Roth deixou o grupo, e o Van Halen foi buscar um substituto com o mesmo perfil de roqueiro de beira de estrada. Sammy Hagar entrou sob severas críticas dos fãs. Mesmo assim, o período com Hagar foi marcado por quatro álbuns que chegaram, sem exceção, ao primeiro lugar de vendas nos Estados Unidos. Mas o Van Halen com ele soava diferente. Mais pop, menos blues pesado, menos sujo.

A saída de Hagar foi em 1995, quando Eddie passou a lutar contra uma necrose vascular, que culminaria numa cirurgia no quadril em 1999. As dores constantes aumentaram o consumo de álcool e drogas.

Em 1998, o grupo gravou seu pior disco, "Van Halen III", com o fraco Gary Cherone, ex-cantor do Extreme. Na década seguinte, Eddie conseguiu se curar de câncer na língua. O guitarrista enfrentaria um longo processo de divórcio da atriz de TV americana Valerie Bertinelli, com quem tinha se casado em 1981. Eles tiveram um filho, Wolfgang.

Um dos nomes de Eddie, Lodewijk, é a versão holandesa para Ludwig, homenagem de seu pai a Beethoven. Seguindo a tradição familiar, Eddie batizou seu único filho numa referência a Mozart. O garoto assumiu o baixo no grupo, em lugar de Michael Anthony, afastado por desavenças em 2006. Eddie se casou em 2009 com Janie Liszewiski, assessora de imprensa da banda.

O Van Halen voltou com David Lee Roth em 2012, com o primeiro álbum de inéditas em 14 anos, "A Different Kind of Truth". Não fez tanto sucesso, e os fãs não se entusiasmaram muito. Tanto Roth quanto Eddie pareciam desanimados no palco. Agora, Eddie Van Halen é uma figura imortal entre os deuses da guitarra.

  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.