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Teatro descobriu vida na internet, mas otimismo no setor cultural é incerto

Empresários vivem euforia com espetáculos virtuais, enquanto artistas enfrentam penúria por patrocínio

Belo Horizonte

O relógio marcou 17h e Bruna Camêlo já estava pronta para assistir a uma peça. A professora de 22 anos é uma das cerca de 3.300 pessoas que moram em Chapada da Natividade, no Tocantins.

Ela se arrumou toda —passou maquiagem e escolheu sua melhor roupa. Mas o teatro mais próximo fica a 200 quilômetros dali, em Palmas.

A professora, que nunca foi ao teatro presencialmente, pagou R$ 12,50 para assistir à peça “Autobiografia Autorizada”, de Paulo Betti, pelo celular.

Apesar do frio na barriga, Bruna não pôde tirar fotos com o ator no camarim. Ainda assim, segundo ela, a experiência “valeu muito a pena”.

“E eu não veria problema em pagar para ver algo online depois da pandemia”, diz.

Em uma pesquisa feita pelo Itaú Cultural e pelo Datafolha, 67% dos entrevistados apontaram uma melhora na democratização do acesso à cultura na internet com a pandemia.

A Sympla, plataforma online de venda de ingressos, começa a se recuperar do baque causado pelo vírus. Antes de março, a média de bilhetes vendidos era de 3,2 milhões. Agora, batem em 3 milhões.

Mas basta pôr uma lupa nos números para entender que muito mudou. Em fevereiro, a empresa emitiu cerca de 53 mil ingressos para eventos online, entre gratuitos e pagos. Em outubro, foram 1,5 milhão.

“Antes, eventos online estavam restritos ao mundo corporativo e à educação”, diz a atriz e produtora Katia Lattufe, diretora de negócios da Sympla. No momento de produção desta reportagem, a plataforma contava com 414 eventos virtuais relacionados a teatro, entre espetáculos, cursos e bate-papos. Os presenciais eram 27, enquanto os espetáculos drive-in eram 11.

Ainda assim, a concentração regional continuou bem semelhante. Tanto em fevereiro quanto em outubro, quase 60% dos ingressos vendidos foram para o público do Sudeste, enquanto a região Norte fica na casa dos 3%.

Mas, mesmo que concentrada, a cultura online acaba chegando mais a lugares em que os espetáculos presenciais nem sempre alcançam. Antes da pandemia, Paulo Betti estava em turnê em Portugal e dificilmente iria se apresentar numa cidade de 3.000 habitantes no Tocantins.

“Não tem volta. Não dá para a gente ficar numa posição negacionista de que a pandemia é passageira e nós vamos voltar ao normal. Existe uma grande oportunidade de mostrar para os produtores que existem outras maneiras de atingir o público. Levar cultura descentralizada dos grandes centros para o Brasil como um todo”, diz Lattufe.

Ilustração de Silvia Rodrigues
Silvia Rodrigues

“Foi dramático, tsunâmico.” O empresário Luiz Calainho não economiza nos adjetivos para falar do crescimento do interesse por cultura nos ambientes virtuais durante a pandemia e de seu otimismo.
Calainho controla a L21, dona de teatros como o Riachuelo e o Prudential, no Rio de Janeiro, das casas Blue Note e de rádios como a Sulamérica.

“A Mix FM triplicou de audiência. O YouTube do Blue Note multiplicou por sete o número de inscritos. Nas redes do Riachuelo e do Prudential, a gente multiplicou por três o número de likes no Facebook”, diz o empresário sobre o período de março até aqui.

Fora da internet, ele também vê um cenário positivo. “A venda de ticket para o presencial está indo muito bem”, diz.

Mas e quanto à classe artística? Também está otimista?

“Se há alguma coisa de bom que a pandemia mostrou é entender que a expressão artística teatral também pode se dar através da internet”, diz Eduardo Barata, presidente da Associação de Produtores de Teatro, a APTR. “Mas não, eu não estou otimista.”

“Não dá para mercantilizar o teatro virtual só com a receita dos ingressos do público pagante, é preciso apoio financeiro”, diz. “Se eles [empresários] estão tão otimistas, eu espero que eles pratiquem esse otimismo com os patrocínios, para que a gente possa ficar otimista também.”

Katia Latuffe tira o paletó de gerente de negócios e pede permissão para falar como bicho do teatro que é.

“Eu, como artista e produtora, olharia para o mercado com um olhar muito mais empreendedor em vez de aguardar alguma política de incentivo cultural neste momento com este governo. Eu acho que ela não vai vir dentro da proporção necessária para reverter a situação do mundo cultural na pandemia”, diz Lattufe.

Paulo Betti diz ter ficado muito contente em ser assistido no interior do Tocantins, “mas não estou otimista, não”. O motivo, além do coronavírus, é o governo Bolsonaro. “Nós temos uma patrulha organizada e fortemente estruturada, com objetivo de nos sufocar. Além da pandemia, ainda temos esse sufoco.”

Para Barata, a pandemia explicitou ainda mais a desigualdade econômica no setor de espetáculos. De um lado, estão os grandes teatros, como os de Calainho, que têm dinheiro para investir em acessibilidade, integração com a internet e no cumprimento dos protocolos de distanciamento. Do outro lado, há teatros que funcionam em espaços pequenos, como o Satyros, na praça Roosevelt, em São Paulo, que só devem reabrir quando existir uma vacina contra a Covid.

Ainda assim, a pandemia foi palco de algo que trouxe otimismo à classe artística —a Lei Aldir Blanc, que destina R$ 3 bilhões do governo federal ao auxílio emergencial ao setor cultural. Na visão dele, é uma vitória em termos de articulação da classe.

“A gente nunca conseguia discutir numa dimensão tão grande como foi agora na pandemia —e foi que a internet possibilitou que o setor artístico se reunisse”, diz Barata. “‘Juntos somos fortes’ é um jargão cafona, mas que continua sendo verdade.”

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