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'Autobiografia da Minha Mãe', de Jamaica Kincaid, disseca a raiz da mulher

Livro de escritora cotada ao Nobel de literatura reflete sobre a opressão feminina sob o peso da herança colonial

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Maria Aparecida Salgueiro

Professora titular do Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

A Autobiografia da Minha Mãe

  • Preço R$ 69,90 (144 págs.); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor Jamaica Kincaid
  • Editora Alfaguara
  • Tradução Débora Landsberg

Dentre as boas surpresas depois de um ano de incertezas, se encontra a chegada de uma tradução tardia, mas sempre em tempo, da obra de uma celebrada escritora contemporânea, a constantemente cotada para o Nobel de literatura Jamaica Kincaid, de origem caribenha e radicada nos Estados Unidos, onde é professora da Universidade Harvard.

Seu terceiro romance, “A Autobiografia da Minha Mãe”, traduzido por Débora Landsberg, chega em publicação cuidada da Alfaguara, com leitura especial da pesquisadora Fernanda Miranda.

Tendo em sua fortuna crítica constantes referências a seu tratamento do racismo, do colonialismo, das questões de gênero e das relações familiares, Kincaid nasceu em Antígua, ilha que tem o inglês como língua oficial, em 1949. Com pano de fundo na diáspora africana, a autora, ao trabalhar a construção da identidade feminina em suas obras, se torna referência para o estudo do tema na literatura.

Ao analisar os dilemas envolvidos nas relações familiares, Kincaid valoriza a escrita negra feminina e expressa a voz de personagens tantas vezes esquecidas em obras canônicas, trazendo à luz conflitos existentes em diferentes grupos étnicos e desconstruindo ideias generalizadas sobre a construção de identidades, ao trabalhar com estratégias pós-coloniais e decoloniais.

Na medida em que a população negra é maioria em Antígua, Kincaid só se deu conta de que sua cor poderia ser entendida como forte marcador de desigualdade quando chegou aos Estados Unidos, aos 17 anos.

Ao identificar a escrita como forma poderosa de expressão, luta e manifestação artística, Kincaid privilegia o corpo feminino, denuncia mecanismos de dominação patriarcal e contribui para a desconstrução de discursos aceitos como verdades.

“A Autobiografia da Minha Mãe” é o segundo romance de Kincaid traduzido no Brasil; o primeiro foi “Lucy”, na década de 1990.

As duas obras trabalham, com lirismo e força narrativa, elementos autobiográficos em personagens complexas que buscam sua identidade, seja nas formas de sobrevivência, seja em debates identitários com seus nomes, tal como a própria autora, nascida Elaine Potter Richardson e que adotou novo nome ao começar a escrever.

No livro, lançado originalmente em 1996, a escritora mais uma vez demonstra como os movimentos diaspóricos e familiares influenciam na construção de identidades femininas —sempre partindo do desejo das protagonistas de fugir da opressão patriarcal, Kincaid as descreve ao passar por períodos de descobertas nas sociedades em que vivem e nas relações interpessoais em família.

Em meio a amor, temores, perdas e decepções, este romance de Kincaid conta a história de Xuela Claudette Richardson, mulher negra, filha de mãe caribenha e pai escocês e africano, com nome marcado pelo peso da herança colonial, tal como o da própria Kincaid.

Muito do nome do livro se esclarece a partir desse nome, revelado já em etapa avançada da narrativa, e quase idêntico ao nome da mãe da protagonista.

Desde a abertura se põe o dilema da personagem, imbricada entre duas histórias de vida e, ao mesmo tempo, a solidão. A partir da primeira linha do romance, Xuela se apresenta como narradora, e o fato ali relatado pairará, como ela mesma aponta, como um destino sobre sua vida até o final.

Kincaid envolve leitoras e leitores numa história intensa de busca, descobertas e solidão. Nesse sentido, o romance já foi celebrado pela crítica como poderoso olhar sobre a vida e segue, há 24 anos, arrebatando leitoras e leitores.

Jamaica Kincaid, escritora de Antígua e Barbuda. - Divulgacao
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