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No streaming, algoritmos se tornam 'curadores' e pautam produção cultural online

Ferramentas são 'a maneira mais eficaz de controlar a oferta e a demanda de produtos culturais online', diz pesquisadora

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São Paulo

Mortos cantando em línguas que nunca falaram, curadores de exposições que são robôs, obras de arte que não existem fisicamente, dublagens com as vozes dos atores originais feitas com inteligência artificial. Isso pode fazer parte de um futuro próximo, ou ainda de um presente imediato, mas as máquinas já estão presentes no nosso consumo diário de cultura.

“Quem nunca abriu o YouTube para buscar um vídeo e acabou assistindo a outros dez? É o poder dos algoritmos”, diz Rose Marie Santini, doutora em comunicação social pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro e autora de “Admirável Chip Novo: A Música na Era da Internet” e de dois volumes de “O Algoritmo do Gosto”.

Detalhe de obra do artista visual Beeple
Detalhe de obra do artista visual Beeple - Reuters

É praticamente impossível imaginar um tipo de conteúdo que alguém na internet tenha visto sem a mediação dos algoritmos de recomendação. É um meio de troca —oferecemos nossos dados em troca de recomendações.

“Em troca das sugestões, Google e Facebook nos expõem a anúncios hipersegmentados, baseados em dados da nossa vida online”, diz Santini.

João Marcelo Ferraz, designer de experiência do usuário e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco e da Michigan State University, nos Estados Unidos, diz que os algoritmos foram ainda mais usados no esquema machine learning —que “aprendem errando”, a partir da identificação de padrões.

A página inicial da Netflix, por exemplo, é diferente para cada usuário. No Spotify, as tags —categorias de tipos musicais—, diz Ferraz, se multiplicaram. Em janeiro de 2016, eram 1.377. Hoje, são 5.349.

Quanto mais categorizada é uma música, mais fácil fazer ela chegar a um determinado ouvinte. Quanto mais informações sobre o usuário —quanto maior a vigilância digital— melhor a recomendação.

Alguns algoritmos “ouvem” as músicas para extrair e categorizar informações. Há também acordos entre gravadoras e os serviços de streaming. O Spotify tem uma ferramenta que permite aos artistas e gravadoras pagarem para promover lançamentos.

Os algoritmos, diz Santini, se tornaram “a maneira mais eficaz de controlar a oferta e a demanda de produtos culturais online”. E as consequências são o algoritmo pautando a produção cultural, como as séries criadas com base naquilo que as máquinas preveem que um usuário quer.

“Assim, os sistemas de recomendação se tornaram os novos ‘curadores culturais’ e ‘formadores de opinião’, e os algoritmos são ajustados de acordo com os interesses dos donos das plataformas.”

Um exemplo problemático foram as acusações contra o TikTok. A plataforma escondia vídeos que mostrassem, entre outras coisas, pessoas com “aparência feia”, “favelas, campos rurais”, além de discursos políticos em lives.

“Algoritmos podem utilizar critérios de classificação social bastante questionáveis —por exemplo, usar estereótipos racistas ou machistas para classificação de usuários ou dos próprios conteúdos.”

Mas a principal consequência, segundo os pesquisadores, é com as novas gerações. “Os jovens percebem a personalização da informação e dos conteúdos como muito conveniente e se acostumaram com essa forma de acessar e consumir conteúdo”, diz Santini, a pesquisadora.

“Portanto, os algoritmos não são dispositivos neutros, mas peças-chave no atual processo de vigilância online, diante do qual os valores morais, jurídicos, econômicos e culturais dominantes são negociados e postos à prova.”

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