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'Os Tais Caquinhos' é um romance esvaziado em que tudo é irrelevante

Cenas do livro de Natércia Pontes poderiam se suceder infinitamente ou terminar na página anterior

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Luís Augusto Fischer

Os Tais Caquinhos

  • Preço R$ 64,90 (144 págs.)
  • Autor Natércia Pontes
  • Editora Companhia das Letras

O romance pode quase tudo –ser poético ou ter linguagem científica, narrar no presente ou no futuro, ter uma ou muitas personagens, ser realista ou delirante, ter um narrador convencional ou múltiplos pontos de vista, vir em língua elegante ou em jargão decadente.

Graças a essa flexibilidade é que ele vem sobrevivendo e recobrando força a cada nova conjuntura dessa longa estrada da modernidade.

Seja qual for a combinação escolhida, o único realmente essencial é que tenha força. Força que vem ou de subjetividades significativas, ou de uma linguagem poderosa, ou de um ponto de vista irrecusável, ou de uma trama sedutora, de uma ou mais dessas marcas. Que escolha suas armas e seja coerente e consistente com a escolha. Para este leitor, "Os Tais Caquinhos" não tem essa força.

Há um pequeno conjunto de personagens –a narradora, Abigail, sua irmã Berta e o pai delas, Lúcio. Há outros elementos dessa família, que não participam porque já tinham parado de conviver com os três. Depois há uns amigos de Berta e uns namorados de Abigail.

Eles vivem numa degradação total, literal, com baratas e outros bichos nojentos, restos de comida, em ambiente literalmente podre, tudo narrado segundo parâmetros realistas. Não há dinheiro, mas não se sabe por quê. O pai não trabalha? Perdeu tudo?

O leitor levanta a sobrancelha —então o texto é para ser lido como uma narrativa realista?

Devemos esperar então que ou bem a narrativa nos apresente, realisticamente, razões para a degradação, ou bem ela nos leve a camadas mais subjetivas de percepção, em que relações de causa e efeito perdem espaço para as marcas da alma, ou ainda, quem sabe, rume a um patamar decididamente alegórico, em que “barata” não signifique o bicho aquele.

Na impossibilidade de decidir, o leitor tenta encontrar então outra âncora de sentido —quem sabe na linguagem ela mesma?

Nada disso. O que há aqui é um exercício de intenção talvez poética, com enumerações a sugerir um virtuosismo que não se confirma —isso entremeado com fragilidades mesmo, como alguns equívocos semânticos (o verbo “apear” é usado significando que a personagem está montada num cavalo).

Que idade terão essas personagens femininas? Sabemos que estão na escola, prestam provas de biologia e química —o pai não tem dinheiro para comida, mas pode pagar as mensalidades. Mas Abigail tem larga experiência com drogas e sexo, numa proporção que só uma pessoa adulta poderia ter, creio.

Abigail engravida —e então parece que finalmente teremos um fio de tensão narrativa a organizar o conjunto. Mas nem aí.

Nem o tempo de fato passa nem as personagens dão qualquer impressão de haverem transitado de uma situação a outra.

Tudo é anódino, tudo é irrelevante; as cenas poderiam se suceder infinitamente ou terminar na página anterior; nada converge para um campo de forças que pudesse ser o centro vital da narrativa.

Se a ideia era compor um romance esvaziado, sem personagem, trama, tensão ou linguagem significativa, baseado em sequências aleatórias de cenas e um baixo-contínuo de degradação que não se realiza como experiência humana, mantidas apenas as três personagens, bem, aí está o resultado.

Não me parece capaz nem de comover, nem de agredir, nem de proporcionar qualquer daquelas experiências de vida vicária que a literatura sabe oferecer.

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