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Legado de Philip Roth pode ser manchado após polêmica em torno de sua biografia

Pesquisadores defendem que obra não deveria ser a última palavra sobre o autor, mas penam para ter acesso a seu acervo

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Alexandra Alter Jennifer Schuessler
Nova York | The New York Times

No fim de sua vida, Philip Roth costumava brincar que havia duas grandes calamidades à sua espera, a morte e uma biografia. “A esperança é que a primeira chegue antes”, ele declarou numa entrevista em 2013.

Roth, autor de “Pastoral Americana”, “O Complexo de Portnoy” e mais 29 livros, não sobreviveu para ler a biografia que autorizou Blake Bailey a escrever. Mas se esforçou muito para ditar o percurso de seu legado literário. Nos anos que antecederam sua morte, em 2018, Roth concedeu centenas de horas de entrevistas e conversou longamente com Bailey. Também concedeu a ele acesso exclusivo a um verdadeiro tesouro de documentos e de escrita inédita —um mapa rico, detalhado e íntimo que Roth esperava pudesse orientar a produção do relato definitivo sobre sua vida.

Mas os esforços de Roth para controlar sua reputação póstuma podem ter saído pela culatra. Em abril, semanas depois da publicação do livro de Bailey, diversas mulheres acusaram o biógrafo de impropriedades e agressões sexuais, o que levou a editora W. W. Norton, que lançou o livro, a suspender os embarques do tomo e em seguida o tirar de catálogo. (Bailey nega as acusações.) Em maio, uma editora independente, a Skyhorse, adquiriu o livro e anunciou planos de lançar uma edição de capa mole que sairá neste mês.

O escritor Blake Bailey, que é amplamente conhecido por suas biografias literárias de Richard Yates, John Cheever, Charles Jackson e Philip Roth. Ele é o editor das edições omnibus da Biblioteca da América das histórias e romances de Cheever - New York Times

Embora Bailey tenha conseguido uma nova editora, a biografia que ele escreveu agora estará ligada inextricavelmente a uma controvérsia. As acusações que ele enfrenta intensificaram uma discussão paralela sobre o tratamento de Roth em relação às mulheres e alimentaram questões sobre o relato que Bailey faz sobre os relacionamentos românticos e sexuais do escritor, que algumas pessoas descrevem como excessivamente parcial a ele e simplista.

Diversos amigos de Roth disseram que a forma pela qual a controvérsia relacionada a Bailey avançou do autor para a obra os incomoda. “É uma vergonha que Philip tenha de ser associado ao que aconteceu”, disse o escritor Joel Conarroe, que foi amigo de Roth por décadas, e por algum tempo executor de seu espólio. “O que incomoda alguns de nós é que isso afeta a reputação de Philip.”

Outras pessoas que conheceram o escritor expressaram decepção por sua biografia autorizada se concentrar excessivamente em sua vida particular e dedicar menos atenção à sua ficção.

“Isso provavelmente manchará o nome dele, lamentavelmente, por um bom tempo”, disse Claudia Roth Pierpont, amiga do escritor (eles não são parentes) e autora de “Roth Libertado”, um estudo de seus livros que tomava por base as longas conversas entre os dois. “Adoraríamos ter uma boa biografia de Philip Roth, um livro responsável e que incluísse coisas que não estou segura de que a biografia de Blake Bailey incluiu.”

Algumas pessoas próximas a Roth disseram que o livro continha falhas mais específicas. Caro Llewellyn, escritora que foi apresentada a Roth no serviço fúnebre de John Updike, em 2009, disse que Bailey retratou incorretamente sua amizade platônica com Roth.

Na biografia, Bailey a identifica pelo pseudônimo Mona. Ele descreve que Roth e Llewellyn se sentiram atraídos e tiveram intimidades físicas, mas nunca fizeram sexo porque o escritor estava incapacitado para isso, mesmo com a ajuda de Viagra. Mas Llewellyn disse que a cena descrita por Bailey jamais ocorreu. “Philip e eu jamais nos tocamos”, disse Llewellyn.

Ela —que não concedeu entrevistas a Bailey— disse que o que mais a incomodava eram coisas que ficaram fora da biografia; o livro causa a impressão de que ela era uma figura pouco importante na vida de Roth, uma paquera que não foi adiante. “Minha intimidade com Philip não se enquadrava à história que Bailey estava tentando contar", ela disse.

Bailey afirmou em email que baseou sua descrição do relacionamento em informações de Roth, que “tendia a ser veraz”, acrescentando que “a informação era inofensiva, de modo geral, e a identidade dela foi protegida por um pseudônimo”. Ele contesta a crítica de que seu livro se concentra demais nos relacionamentos de Roth e minimiza o papel das mulheres de sua vida.

O livro de Bailey não será a última palavra. Além de uma biografia não autorizada pelo crítico literário Ira Nadel, lançada em março, há outros livros a caminho, entre os quais uma biografia de autoria de Steven Zipperstein, professor da Universidade Stanford, e “The Philip Roth We Don’t Know”, de Jacques Berlinerblau, professor da Universidade Georgetown.

Mas estudiosos e escritores se preocupam com a possibilidade de que ninguém mais tenha acesso aos papéis pessoais que Bailey pôde ler e usar como material de pesquisa. Em maio, 23 deles divulgaram um apelo implorando que o espólio do escritor não ordenasse a destruição dos papéis, como foi declarado que poderia acontecer, e que os pusesse “facilmente à disposição” dos pesquisadores.

“Um escritor da estatura de Roth merece múltiplos relatos de sua vida, em respeito às nuances e complexidades de sua arte”, o apelo afirma.

“O trabalho de Roth fala por si, mas sempre terá a história de Blake Bailey como nota de pé de página”, disse Aimee Pozorski, editora executiva da publicação acadêmica "Philip Roth Studies" e uma das autoras do apelo dos pesquisadores ao espólio de Roth, com Berlinerblau. “Se o espólio tem o compromisso de proteger o legado dele, mais pessoas deveriam ter acesso aos materiais, a fim de adicionar mais camadas ao diálogo, para que ele não se reduza à ideia de que Roth era misógino”, ela disse.

Não se sabe o que acontecerá com o material que Roth deu a Bailey. O escritor forneceu centenas de documentos, aos quais anexou memorandos detalhados explicando a importância de cada arquivo. Ele forneceu fitas e CDs de entrevistas conduzidas por amigos próximos, entre os quais Judith Thurman, Janet Malcolm e Ross Miller, o primeiro biógrafo autorizado de Roth, que trabalhou por anos no projeto até que o escritor o removeu por demorar demais e por não ter conduzido entrevistas essenciais.

Roth também deu a Bailey dois manuscritos inéditos, “Notes for My Biographer”, uma refutação com 295 páginas de extensão do livro de memórias publicado por sua ex-mulher, a atriz Claire Bloom, em 1996, e “Notes on a Slander-Monger”, uma resposta a notas e entrevistas compiladas por Miller.

Parte do material deve ser encaminhado à Biblioteca do Congresso, que já abriga a maior parte dos arquivos de Roth. Outros documentos, como “Notes for My Biographer”, talvez jamais voltem a ser vistos.

Numa entrevista em 2012, Roth disse ter instruído os administradores de seu espólio literário a destruir seus papéis pessoais, depois que Bailey completasse o livro. Julia Golier, uma das executoras, disse à The New York Times Magazine em março que o espólio pode de fato seguir essa instrução. Desde o lançamento da biografia e o escândalo que se seguiu, o espólio vem mantendo silêncio. Golier e o agente literário Andrew Wylie, outro dos executores, se recusaram a comentar sobre os planos com relação aos papéis.

As pessoas que estão pressionando por acesso ao material confiado a Bailey argumentam que, em mãos alheias, os documentos podem resultar em percepções muito diferentes sobre a relação de Roth com o judaísmo, política, dinheiro ou doença. “É um material fundamental sobre um dos grandes escritores americanos”, disse Nadel.

O escândalo sobre os delitos de conduta de que Bailey foi acusado envolvem diversas questões éticas, entre as quais, por exemplo, se a W. W. Norton tinha justificativa para retirar o livro de circulação. Mas questões complicadas sobre aquilo que escritores, ou seus espólios, desejam que a posteridade veja existem desde que surgiram biografias.

Todos os escritores e espólios literários decidem o que ficará nos arquivos, o que ficará em posse deles e o que será destruído. Não é incomum que cartas e outros materiais pessoais em arquivos passem décadas selados, depois da morte de uma pessoa, para proteger a privacidade dela ou de alguém mais.

Mas a história literária também está repleta de momentos de traição, quando confidentes supostamente leais contrariaram as vontades de escritores. Max Brod desrespeitou a ordem de Franz Kafka de queimar seus manuscritos e diários inéditos. As diretivas de Vladimir Nabokov e Philip Larkin para destruir manuscritos não publicados foram contrariadas por seus herdeiros e executores literários, que não só os preservaram mas os publicaram.

Não está claro quais foram as instruções de Roth. E os amigos dele têm opiniões diferentes sobre se os acontecimentos posteriores ao lançamento da biografia as teriam mudado, ainda que alguns afirmem duvidar que Roth favorecesse o acesso aberto e imediato que alguns interessados demandam.

“Seria uma experiência muito angustiante para Philip pensar que alguém poderia ser autorizado a esmiuçar papéis e selecionar o que quisesse”, disse um dos amigos mais próximos do escritor, Bernard Avishai.

Judith Thurman, biógrafa e jornalista da revista The New Yorker, disse que os administradores do espólio estavam diante de uma tarefa impossível. “Não sabemos se ele teria autorizado alguém a ver o material de novo e não sabemos que outra pessoa ele teria escolhido”, ela disse, acrescentando que se opõe à destruição dos papéis pessoais do escritor. “Sou contra a destruição de qualquer coisa”, ela disse.

Roth tinha interesse em preservar boa parte de seus papéis. Ele começou a doar documentos à Biblioteca do Congresso na década de 1970, e a instituição coligiu cerca de 25 mil itens datados de 1938 a 2001, entre os quais correspondência com Bloom, Updike, Saul Bellow e Cynthia Ozick. Depois da morte do escritor, a biblioteca adquiriu mais papéis, entre os quais correspondência, rascunhos, notas de pesquisa, notas autobiográficas e outros documentos pessoais.

As aquisições mais recentes —cerca de 15 caixas de material datado de 1945 a 2019— só podem ser vistas com autorização do espólio de Roth, até 2050, quando o acesso será liberado para todos, disse Barbara Blair, especialista em literatura na divisão de manuscritos da biblioteca.

“Temos a esperança de que quaisquer materiais adicionais detidos por Bailey ou outros venham a ser consolidados na biblioteca, mas arranjos específicos para isso não foram concluídos”, ela disse.

Enquanto isso, o espólio de Roth agiu agressivamente para controlar acesso a materiais relacionado a ele detidos independentemente pela Universidade Princeton, adquiridos pela instituição em 2018 de Benjamin Taylor, amigo de Roth. O acervo inclui uma cópia de “Notes on a Slander-Monger”, ensaios inéditos sobre assuntos como dinheiro, casamento e doença, e uma lista, comentada, de seus relacionamentos com mulheres.

Normalmente, o acesso a materiais de arquivo é governado por um acordo com o doador, e não com a pessoa que criou os documentos. Em 2018, Princeton anunciou que a coleção estava aberta aos pesquisadores, mas subsequentemente a fechou e removeu da internet o guia sobre a coleção.

Estudiosos que estavam pesquisando para livros sobre Roth ficaram chocados com a remoção repentina. Um porta-voz da universidade disse que havia “discussões em curso” com o espólio de Roth sobre a coleção.

Provavelmente existe muito mais material de Roth que ainda não surgiu. Diversos amigos do romancista dizem que ele costumava enviar a eles manuscritos e rascunhos iniciais de romances, documentos que podem oferecer um panorama sobre a evolução de seu trabalho.

No ano passado, Conarroe vendeu cerca de 60 cartas de Roth por meio da casa de leilões Bonham’s. Ele disse que tinha cerca de cem outras cartas do escritor que planeja doar a um arquivo ou biblioteca, talvez a Biblioteca Pública de Newark, à qual Roth doou sua coleção pessoal de 7.000 livros, muitos dos quais anotados. A coleção deve ser aberta ao público neste mês.

Ainda que os pesquisadores estejam preocupados com os documentos pessoais de Roth, alguns estão otimistas sobre o futuro dos estudos quanto a ele, à medida que mais estudiosos examinam sua vida e obra. “A história certamente não acabou”, disse Nadel, autor de “Philip Roth: A Counterlife”. “O arquivo está crescendo.”

Tradução de Paulo Migliacci

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