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Carolina Maria de Jesus volta ao seu lugar com novas edições de diários

Realizados por mãos negras, os dois volumes de 'Casa de Alvenaria' devolve voz à escritora ao não interferir no texto

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Fernanda Silva e Sousa

Doutoranda em teoria literária e literatura comparada na USP

Casa de Alvenaria - vol. 1: Osasco e vol. 2: Santana

  • Preço vol. 1 R$ 39,90 (232 págs.), R$ 27,90 ebook; vol. 2 R$ 59,90 (520 págs.), R$ 39,90 ebook
  • Autor Carolina Maria de Jesus
  • Editora Companhia das Letras

Em um mundo cada vez mais influenciado pelas redes sociais, com inúmeras pessoas tendo uma legião de seguidores, talvez seja difícil mensurar o quanto a escritora Carolina Maria de Jesus foi um acontecimento na sociedade brasileira em 1960.

Hoje, com uma maior representatividade negra, aliada a um crescente reconhecimento do racismo, podemos nos esquecer de a olhar nos termos de sua época, como uma mulher negra que se lançou no mundo da literatura como um direito seu em um momento em que quase nenhum direito era garantido à população negra.

Com o sucesso de "Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada"​, editado pelo jornalista Audálio Dantas, Jesus foi transformada numa espécie de porta-voz das favelas e de seus moradores, em que a expressão “favelada” se tornou quase seu sobrenome, acompanhando a autora mesmo quando já não morava mais na favela, um tipo de lembrete contínuo de que a palavra “escritora”, por si só, não cabia em seu corpo negro.

Não à toa, "Casa de Alvenaria" é lançado em 1961 com o subtítulo “diário de uma ex-favelada”, em que o “ex” se torna uma sombra lançada em sua existência que confina seu discurso a um lugar a que nunca quis pertencer. No prefácio, Dantas diz que ela pode encerrar sua missão e a aconselha. “Guarde aquelas ‘poesias’, aqueles ‘contos’ e aqueles ‘romances’ que você escreveu”, ele diz, sobre gêneros considerados mais literários e elevados, incompatíveis com alguém que só poderia —e deveria— escrever diários.

Nesse sentido, a nova edição de "Casa de Alvenaria", pela Companhia das Letras, sob os cuidados editoriais de um conselho formado majoritariamente por pesquisadoras negras e coordenado por Conceição Evaristo e Vera Eunice, filha da escritora, confere a Jesus o que tentaram arrancar dela, o direito ao nome próprio e ao de ser escritora.

É o diário de Carolina Maria de Jesus, não o diário de uma favelada; é a escritora Carolina Maria de Jesus, que não deixou de escrever suas poesias, contos e romances —sem aspas.

Com a decisão de “resguardar a integridade da voz e da escrita” da escritora ao não realizar grandes interferências no estabelecimento do texto, a edição faz justiça ao que Conceição Evaristo chama, no prefácio, de “engenhosidade” da autora.

Em vez de ver sua escrita sob o signo da falta ou do erro, Evaristo defende o manejo sofisticado, versátil e criativo da língua portuguesa por Jesus, destacando como seu modo de escrever é parte do “pretuguês”, isto é, de um português fortemente influenciado por línguas africanas.

Com a publicação integral dos diários que escreveu entre 1960 e 1963 em dois volumes –“Osasco” e “Santana”–, acompanhamos como a “história de uma ascensão social”, como Dantas se refere à vida de Carolina Maria de Jesus em seu prefácio à primeira edição, oculta um lado perverso, o não lugar da autora na “sala de visitas”, onde luta constantemente para continuar escrevendo enquanto é assediada por todos os lados e se vê tratada como mercadoria, “exótica”, “louca”, passando por várias situações de racismo.

Porém, apesar de "Casa de Alvenaria" ser atravessado por um tom de angústia de Jesus com os rumos que sua vida tomou, os diários que percorrem o período em que morou num quartinho em Osasco, na Grande São Paulo, e, depois, numa casa de alvenaria em Santana, na zona norte paulistana, revelam a escritora desfrutando de outras facetas da vida –viagens, passeios, jantares, bailes, encontros, homenagens, em que quase conseguimos escutar o riso de felicidade de Jesus em seus momentos fugazes de liberdade e prazer.

Publicada agora sem cortes, em suas virtudes e contradições, altos e baixos, vemos como a casa de alvenaria representava muito mais do que uma conquista material. Era o território subjetivo e simbólico de liberdade para Carolina Maria de Jesus, era a promessa de uma nova existência, era outra peça para ser representada no “palco da vida”, era um novo refrão para compor e cantar, era a casa para o seu “pensamento literário”.

Se, como diz, “os meus sonhos eram altos, não estavam ao alcançe de uma mulher de pele negra”, Carolina Maria de Jesus, em "Casa de Alvenaria", nos faz pensar como o Brasil ainda é, na verdade, pequeno demais para os sonhos das mulheres negras.

Por isso, é num trabalho editorial gestado e realizado por mãos sobretudo negras que o lugar que Jesus tanto buscou e era um dos poucos a acolher sua grandeza se torna cada vez mais dela, a literatura.

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