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Luiz Fernando Carvalho vai filmar a Independência do Brasil virada pelo avesso

Cineasta prepara programa a partir de perspectivas dos povos africanos e indígenas e deixa de lado visão eurocêntrica

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pintura

O mural 'O Primeiro Passo para a Independência da Bahia', do pintor Antônio Parreiras, localizado no Palácio Rio Branco, em Salvador Ramon Lebre/Secult-GovBa

São Paulo

Esqueça o herói de ar altivo que grita "independência ou morte” montado num cavalo imponente.

Conhecido por premiadas produções para a TV, como “Capitu”, de 2008, e “Dois Irmãos", de 2017, e para o cinema, caso de “Lavoura Arcaica”, de 2001, Luiz Fernando Carvalho vai retratar o período da Independência do Brasil sem ufanismo, ele garante.

É o primeiro projeto do diretor para a televisão depois de sua saída em 2017 da TV Globo, na qual trabalhou por mais de três décadas. O convite para conduzir uma produção sobre as primeiras décadas do século 19 veio da TV Cultura. Carvalho planeja uma série com 16 episódios, de meia hora cada um. A estreia está prevista para setembro do ano que vem, quando o país celebra os 200 anos da Independência.

Bem, celebrar, no caso dele, não é o verbo mais apropriado. “Me interessa um ponto de vista ao avesso”, diz. O diretor e o roteirista Luis Alberto de Abreu, parceiro em criações como “Hoje É Dia de Maria”, de 2005, tomam como base uma nova historiografia, que ilumina personagens que têm sido desconsiderados desde então e põe os ditos heróis sob novos contornos.

O diretor Luiz Fernando Carvalho, que prepara série sobre os 200 anos da Independência do Brasil para a TV Cultura - Divulgacao

Ainda sem um nome oficial, a série tem sido chamada como “O Sono do Homem Branco” —sono, no caso, “como ideia de entorpecimento, opressão, cegueira, passividade e morte”. Ou seja, um dos propósitos fundamentais é abordar de forma crítica a visão eurocêntrica, que prevaleceu nesses dois séculos, trazendo ao primeiro plano as perspectivas dos povos africanos e indígenas.

Nesse sentido, Carvalho ressalta a participação no projeto do compositor e estudioso das culturas africanas Tiganá Santana como pesquisador de texto. “Os livros oficiais sempre nos contaram a história de forma um tanto romanceada. A intenção é mostrar que se trata, na verdade, de uma história de barbárie”, afirma Carvalho.

Escapar do que ele classifica como “discurso hegemônico da oficialidade” implica ainda observar essa fase além do Rio de Janeiro. Diferentemente do que ocorreu na então capital, províncias como Bahia e Piauí só conseguiram sua emancipação graças a batalhas, algumas com centenas de mortos.

A série deve percorrer o período que vai de 1808, com a vinda da família real para o Rio, a 1834, com a morte de dom Pedro 1º no Palácio de Queluz, em Portugal.

Apesar dessas marcações temporais, Carvalho rejeita o conceito de “produção de época”. “É uma escavação em busca do passado, reencontrando fantasmas nas salas do império, do colonialismo, do autoritarismo, da escravidão. Fantasmas que, infelizmente, ainda se manifestam no presente como prática arraigada. Sem essa reflexão sobre a constante atualização do colonialismo histórico e suas estruturas de poder, me parece uma falácia pensarmos a ideia de um futuro”, afirma.

De acordo com José Roberto Maluf, presidente da TV Cultura, “a independência do Brasil é, inegavelmente, um acontecimento que ganha, a cada dia, mais complexidade, por isso, precisa ser reapresentado a seu público não apenas como data comemorativa, mas, principalmente, como um período que vem ganhando novas camadas e leituras históricas”.

Maluf está em sintonia com o diretor para que a série tenha “um olhar inclusivo, em que um grande número de personagens apagadas ou esquecidas injustamente será reconhecido com dignidade histórica”.

Carvalho revela entusiasmo em sua estreia, aos 61 anos, na TV Cultura. “Sempre me interessei pela missão da TV pública, de apostar em conhecimento, educação e reflexão histórica sem abrir mão do espetáculo.”

Até a estreia, no entanto, há muito a fazer. Carvalho e Abreu devem concluir o primeiro tratamento do roteiro neste mês, quando começam os ensaios num galpão na Vila Leopoldina, em São Paulo.

Sobre o elenco, adianta um nome, Grace Passô, atriz e dramaturga que se notabilizou por peças, como “Vaga Carne”, e filmes, como “Temporada”. Carvalho está avaliando atrizes europeias que possam assumir o papel da imperatriz Leopoldina, nascida na Áustria.

As filmagens, que devem se estender por quatro meses, começam em janeiro, com locações no Brasil e em Portugal.

Em meio aos trabalhos com a série, Carvalho se dedica aos ajustes finais de “A Paixão segundo G.H.”, filme baseado no livro de Clarice Lispector, com Maria Fernanda Cândido como protagonista. Ele evita arriscar uma data de estreia. “Meu objetivo é lançar quando tivermos um mínimo de conforto emocional dentro de uma sala de cinema.”

Difícil imaginar pontos de aproximação entre passagens históricas da primeira metade do século 19 e uma obra de ficção publicada em 1964. Mas eles existem, segundo Carvalho. “A solidão de G.H. não seria a mesma de Leopoldina? Uma solidão do feminino que o sistema patriarcal não apenas forjou, mas também se tornou incapaz de ler e traduzir? E como não vincular espancamentos e maus tratos diários sofridos pelas empregadas domésticas a um sistema escravista do século 21?”

O longa-metragem baseado em “G.H.” é o segundo do diretor. O primeiro foi “Lavoura Arcaica”, adaptação do clássico de Raduan Nassar. O filme, aliás, está completando duas décadas e vai ganhar uma sessão especial em 14 de outubro no Cine Belas Artes, em São Paulo, com a presença de Carvalho. Na TV ou no cinema, sabe o diretor, “nosso presente está repleto de passado”.

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