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Cinema Globo de Ouro

Cinema teve mulheres fortes e testou as fronteiras do streaming

Ano na indústria foi marcado pela reorganização na pandemia e, para os brasileiros, pelo luto pela morte de Paulo Gustavo

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São Paulo

O ano foi delas. A temporada de prêmios que começa nas próximas semanas pode até não refletir isso, mas a verdade é que as mulheres protagonizaram várias das principais discussões cinematográficas de 2021.

Começou com o burburinho das premiações, com "Bela Vingança", um filme sobre estupro e revanche, tornando-se um dos títulos mais comentados e celebrados do ano, e "Nomadland" tomando o Oscar de assalto. A produção levou três estatuetas –melhor atriz, para Frances McDormand num papel de mulher forte e destemida, melhor filme e melhor direção, para a chinesa Chloé Zhao.

Ela se tornou apenas a segunda a vencer na categoria e lançou, há algumas semanas, o megaprojeto da Marvel "Eternos", um dos recordistas de bilheteria deste ano.

Depois foi a vez de Julia Ducournau estarrecer Cannes e levar a Palma de Ouro. Ao lado de Jane Campion, foi a única mulher a conquistar a honraria máxima da Riviera Francesa, com uma trama que joga com a sensualidade e a força de sua protagonista. Em Veneza, de forma similar, Audrey Diwan, Maggie Gyllenhaal e a própria Campion se destacaram e ganharam troféus.

E aí vieram super-heroínas como Viúva Negra, princesas como Raya, espiãs como a nova 007, vilãs como Cruella e gente normal como a reencarnação de Anita de "Amor, Sublime Amor". Todas com uma vontade imensa de serem vistas e ouvidas.

Sinal dos tempos, assim como a discussão que se deu em torno da volatilidade das fronteiras que dividem cinema e streaming.

Elas já vinham ficando turvas há anos, conforme cineastas de prestígio e público recorriam cada vez mais ao sob demanda, mas foi na ressaca da crise provocada pela pandemia de Covid-19, num momento em que exibidores e estúdios se reorganizavam com o alento trazido pelas vacinas, que uma relação menos emergencial entre os dois meios começou a se desenhar.

Tudo em 2020 aconteceu em caráter temporário, como se a inevitabilidade de certas mudanças não passasse de uma solução excepcional para tempos excepcionais. Mas a verdade é que barreiras foram se rompendo, e hoje vivemos num mundo em que uma plataforma como a Mubi sai do Festival de Cannes com cinco dos longas premiados debaixo do braço.

Enquanto isso, Netflix e Apple TV+ compravam títulos de gente consagrada, como, novamente, Jane Campion ou Joel Coen, e Disney e Warner passavam para suas plataformas próprias lançamentos envoltos em expectativa, de "Luca" a "Em Um Bairro de Nova York".

É claro que nem tudo se resolveu com streaming, afinal, é preciso haver uma sinergia entre estúdios e parque exibidor, e este precisava desesperadamente de ajuda após meses de salas fechadas e insegurança do público. O socorro, no entanto, não veio exatamente da forma como queriam –janelas de exclusividade se provaram elásticas e por vezes inexistentes, o que causou desconforto no setor.

Até celebridades entraram na briga, mais notavelmente Scarlett Johansson, que, alienada do potencial lucro que receberia com a bilheteria de "Viúva Negra", disse que iria processar a Disney. O impasse foi resolvido antes de chegar aos tribunais, mas não sem inflar outras estrelas que pensaram em fazer o mesmo.

Houve, no entanto, quem arriscasse uma temporada longa e exclusiva nas telonas antes de ir para o streaming, defendendo o velho cinema com certo sucesso –caso de "Sem Tempo para Morrer"– ou com frustração, como o "Amor, Sublime Amor" de Steven Spielberg, que despertou críticas impressionadas, apostas para o Oscar, mas não o interesse dos millennials.

Agora, "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa" bate recordes nas bilheterias –e expulsa covardemente qualquer produção de porte menor dos cinemas brasileiros–, ensaiando uma normalização para um parque exibidor que, só no Brasil, perdeu cerca de 300 salas em meio à pandemia, de acordo com a Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas.

Com a iminente virada de 2021 para 2022, vemos filmes de porte médio, especialmente nacionais, conseguirem espaço novamente no circuito, após meses tendo seus lançamentos freados pela dúvida quanto à disposição do público de sair de casa para vê-los –afinal, se é para ir ao cinema pandêmico, que seja para ver a estreia do momento, pensou muita gente.

Um desses títulos que flutuam entre o blockbuster e o cinema de arte que conseguiram estrear é "Marighella", que há tantos anos estampa manchetes por adiamentos quase inexplicáveis.

Mas não foi só no circuito comercial que as poltronas dos cinemas voltaram a ser ocupadas. Festivais e mostras enfim puderam retornar ao formato presencial, se não totalmente, ao menos em parte.

Foi assim por aqui, com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, que recorreu a um modelo híbrido que privilegiou as sessões físicas, e, lá fora, com o Festival de Cannes voltando a receber cinéfilos, artistas, executivos e jornalistas após ter sido cancelado no ano passado. A ômicron tem ameaçado a temporada europeia que começa em breve com a Berlinale, é verdade, mas os festivais parecem determinados a não voltar para o 100% digital.

Para além da experiência cinematográfica, em termos de conteúdo, o público começou a receber este ano uma leva de filmes produzidos já sob os rígidos protocolos anti-Covid que dominaram os sets de filmagem –e percebeu que pouca coisa mudou nas tramas em si.

Especificamente em relação aos blockbusters, os universos compartilhados e as realidades paralelas se tornaram a menina dos olhos de qualquer estúdio ou streaming, num movimento capitaneado por uma Marvel que agora também tem à disposição o formato televisivo.

Para bater de frente com o poderio de Vingadores e companhia, são vários os produtores de conteúdo que tentam emplacar um universo compartilhado de sucesso, a partir do qual possam criar derivados que não necessariamente se completem, mas que ao menos reciclem elementos já conhecidos do público.

Nem só de festas de recuperação e da bonança da vacina viveu o cinema em 2021, porém. Este foi um ano especialmente trágico para os brasileiros, com a perda de um dos nossos campeões de bilheteria, Paulo Gustavo.

Morto por complicações causadas pelo novo coronavírus em maio, o ator e humorista integrava a nata do audiovisual brasileiro, com sua franquia "Minha Mãe É Uma Peça" como raro caso de sucesso entre um público normalmente mais afeito à grandiosidade de Hollywood. Sua perda mobilizou o país e deixou a comédia nacional um tanto sem rumo, especialmente após o baixo faturamento que teve em 2021.

Da mesma forma, uma outra tragédia, essa em terras americanas, chocou a comunidade cinéfila em outubro, quando uma arma manuseada por Alec Baldwin num set de filmagem disparou, ferindo o diretor e matando a diretora de fotografia do filme "Rust".

O acidente levantou debates que ainda se desenrolam em Hollywood, denunciando que regras mais rigorosas para o uso de objetos fatais nos sets precisam ser adotadas. É mais uma para a lista de mudanças urgentes que esperam para serem colocadas em prática pela indústria.

O público, afinal, hoje tem acesso a muito mais informações de bastidores. Foi sabendo do que acontecia por baixo dos panos do Globo de Ouro, por exemplo, que ele decidiu jogar o prêmio em ostracismo, junto de artistas e até da emissora NBC, que anunciou que não exibiria a tradicional cerimônia enquanto a organização que a promove não se renovasse.

Isso porque o Globo de Ouro foi alvo de uma série de reportagens que denunciou esquemas de suborno na hora de indicar e premiar os filmes. Somada ao escândalo estava ainda a revelação de que nenhum dos menos de cem membros da organização que decide o prêmio era negro.

O cinema em 2022 vai abrir justamente com a edição pós-escândalo do Globo de Ouro, que não será televisionada e que certamente não terá celebridades para abrilhantá-la, já no dia 9 de janeiro. Com a premiação sem prestígio nem relevância, mas gente poderosa por trás querendo se redimir, o próximo ano vai começar já causando muito burburinho.

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