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Valter Hugo Mãe cria povo indígena do zero em novo livro corajoso

Boas intenções à parte, 'As Doenças do Brasil' evoca mais o indianismo de José de Alencar que a anarquia de 'Macunaíma'

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Sérgio Rodrigues

Colunista da Folha

As Doenças do Brasil

  • Preço R$ 54,90 (208 págs); R$ 39,90 (ebook)
  • Autor Valter Hugo Mãe
  • Editora Globo Livros

"As Doenças do Brasil", do escritor português Valter Hugo Mãe, é um romance corajoso. Insensatamente corajoso. Se é provável que o fracasso estético seja inseparável de sua própria concepção, também aí reside seu maior mérito, o de montar uma defesa apaixonada, ainda que anacrônica e suicida, da imaginação literária como linguagem universal.

Se a literatura é por definição o reino da liberdade, isso não quer dizer que seja isenta de riscos –pelo contrário. No ar político-cultural que se respira hoje no Ocidente, está longe de ser trivial que um escritor branco —e ainda por cima estrangeiro— se proponha a tarefa de imaginar do zero, sem base em pesquisa antropológica e com ferramentas apenas literárias, todo um povo indígena brasileiro, sua cosmogonia e sua luta pela sobrevivência contra o colonizador português.

A história de "As Doenças do Brasil" —título tirado de um sermão do padre Antônio Vieira e que acaba por se relacionar de forma débil com o enredo— é conduzida pelo jovem guerreiro abaeté Honra, filho do estupro da bela Boa de Espanto por um branco.

Se sentindo amaldiçoado pela pele alva que herdou do pai biológico e alimentando sonhos de vingança contra os inimigos europeus, o atormentado Honra acaba por encontrar um aliado improvável em Meio da Noite, negro adotado pelos abaeté. A relação dos dois, ambos desajustados e "feios", rende os melhores momentos do livro.

O tom com que o narrador de Mãe conta essa história é furiosamente poético e, dentro do cardápio da poesia, mítico, como se buscasse numa idealização exacerbada o antídoto para a idealização do exótico que é um dos pilares do colonialismo. "O primeiro habitou o nome. Desde então que cada um é coágulo de seu nome. Cada coisa é coágulo da palavra. A história é a biografia da Divindade. Palavra longa que alonga."

É conhecido o talento do autor no manejo da prosa poética, e ninguém o pode acusar de carecer de convicção e entusiasmo ao se atirar à tarefa de imaginar personagens e forjar uma linguagem própria, arrevesada, para exprimir sua visão de mundo —mulher é "feminina", criança é "transparente" et cetera. Embora o narrador se esmere na empatia pelos povos conquistados, há no coração do projeto uma candura à prova de ironia que se aproxima do kitsch.

Reprodução que mostra o padre Antônio Vieira pregando aos índios, em fascículo da coleção 'História do Brasil' - Reprodução

O humor que tempera outras narrativas de Mãe —como no ótimo "A Máquina de Fazer Espanhóis", vencedor do prêmio Portugal Telecom de 2011— está ausente por completo aqui, e faz falta. Ou melhor, aparece de forma apenas acidental no modo como os abaeté, feito portugueses, se dirigem uns aos outros na segunda pessoa do singular e são acometidos de "distracção", por exemplo.

De modo geral, boas intenções pós-coloniais à parte, estamos mais perto do indianismo ingênuo de José de Alencar do que da alegoria anarcoenciclopédica de "Macunaíma" ou das múltiplas camadas de história, mitologia e tristeza que compõem "O Som do Rugido da Onça", de Micheliny Verunschk —para citar outra ficção que pode ser classificada como contracolonial e que veio a público apenas um ano antes.

Ciente dos riscos que corre, o autor termina o livro assumindo a primeira pessoa e um tom apologético. "Não é minha intenção fazer antropologia, sociologia ou sequer história. Sou um colector de palavras. Concebo verdades como se fossem sobretudo vocabulares e aceito erros."

Também precavida, a editora tratou de cercar o livro de endossos providenciais, do "blurb" simpático de Ailton Krenak —a quem o romance é dedicado— ao prefácio de Conceição Evaristo.

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