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Cinema quadrinhos

'Batman' com Robert Pattinson traz acenos a 'Se7en' e 'Taxi Driver'

Diretor Matt Reeves acerta ao apostar na sugestão no neonoir recheado de voyeurismo para renovar o herói

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João Montanaro

Batman

  • Quando Estreia nesta quinta (3)
  • Onde Nos cinemas
  • Classificação 14 anos
  • Elenco Robert Pattinson, Zoë Kravitz e Paul Dano
  • Produção EUA, 2022
  • Direção Matt Reeves

Dentre as adaptações de quadrinhos para a tela, os filmes do Homem-Morcego são regularmente vistos como aqueles em que um realizador mais tem espaço para interpretar com autenticidade seu material de origem.

Da galhofa sessentista presente na série de TV estrelada por Adam West, passando pelo neogótico expressionista de Tim Burton e, por fim, no pastiche de Michael Mann que Christopher Nolan erigiu em volta do personagem, todos trouxeram visões bastante singulares para a história do milionário —bilionário agora, ah, a inflação. É o órfão que decide se dedicar a erradicar o crime da sua cidade —e, por tabela, parte da sua má consciência de classe— como vigilante mascarado.

Enquanto a Marvel chama diretoras oscarizadas para emprestar o nome a produções que, no fim das contas, não fogem da sua fórmula e acabam servindo como uma mera ostentação de grife, é de se esperar o contrário quando um novo realizador assume a missão de contar uma nova história do "cruzado de capa".

Matt Reeves, diretor que surgiu com a excelente releitura de filme de monstro, "Cloverfield", e se consagrou na indústria humanizando os símios da franquia "Planeta dos Macacos" —a série de prelúdios do clássico filme estrelado por Charlton Henston— aqui decide por um compêndio do melhor que os diretores anteriores trouxeram para o personagem.

A Gotham City de Reeves é suspensa em um não lugar no tempo, sua arquitetura vai do gótico ao industrial. A iluminação é feita por neons e modernos telões de LED e seus habitantes parecem ter saído de um filme setentista de Scorsese.

A tensão entre o moderno e o clássico, entre a fantasia e o realismo, e entre o fetiche e o sacro criam uma interessante atmosfera para a trama sobre assassinatos em série que o filme se propõe a contar.

Na história, Batman está há só dois anos atuando na cidade e ainda é conhecido pela polícia como um vigilante mascarado fora da lei. Sua presença já causa medo entre os arruaceiros e criminosos que vagam pela noite, mas sua imagem ainda se esconde nas sombras.

Quando figuras importantes da política e da polícia da cidade começam a ser assassinadas por um maníaco mascarado conhecido como Charada, Batman precisa investigar o caso antes que o derramamento de sangue destrua as estruturas de poder de Gotham.

O filme acaba sendo um neonoir em que o olhar, o voyeurismo, a objetiva e a memória imagética guiam a investigação e seus assassinatos. Na primeira cena, um longo plano em primeira pessoa observa através das janelas de uma mansão o cotidiano familiar do prefeito antes do seu assassinato.

O Bruce Wayne de Robert Pattinson grava tudo o que vê enquanto combate o crime como Batman porque tem dificuldades de se lembrar do que aconteceu na manhã seguinte. A Mulher-Gato de Zoë Kravitz se infiltra em um clube da máfia tendo o seu olhar compartilhado com o de Bruce Wayne e, quando ela olha a si mesma no espelho, está olhando para ele também.

O Charada de Paul Dano observa presencialmente as suas vítimas à exaustão antes de atacar, como se parte do seu prazer e do seu ódio estivessem em não ser notado por essas figuras de poder que ele tanto despreza naquilo que ele sabe que são seus momentos finais.

A exploração do olhar se estende à objetiva da câmera. O uso da profundidade de campo para capturar situações de violência como manchas abstratas em desfoque põe o espectador na situação de um voyeurismo frustrado.

Uma grande perseguição de carros se sustenta pela captura de detalhes do movimento e não pela compreensão da situação. De forma muito corajosa para um filme de super-herói, Matt Reeves sabe que muitas vezes a real potência das imagens se encontra na mera sugestão e no movimento.

Mas os morcegos não enxergam muito bem e é na tensão entre a autoimagem que Bruce tem de si e do seu Batman e como sua presença realmente influencia as dinâmicas de poder da cidade que o filme cresce e acrescenta algo novo à mitologia do herói.

Ao se denominar "a vingança" e desprezar a escória criminosa feito um Travis Bickle de "Taxi Driver", ele não percebe que há muito mais em comum entre ele e seu antagonista do que ele gostaria de admitir. A ideia fascista da justiça com as próprias mãos precisa ser substituída por uma de esperança, mas se isso acontecer nós ainda estamos vendo um filme do Batman?

Este é um "Batman" de fôlego que tira proveito das suas influências —o estudo de personagem de "Taxi Driver"; a investigação contra uma força maníaca e fetichista de "Se7en - Os Sete Crimes Capitais"; o jogo de gato e rato enigmático e midiático de "Zodíaco"; e a tensão de classe entre protagonista e antagonista de "Céu e Inferno", sem nunca se esquecer que continua sendo um filme do Homem-Morcego.

A versão de Matt Reeves para o personagem pode até ser derivativa do trabalho que outros diretores fizeram com a história, mas é na maneira que ele encontra o denominador comum entre essas visões, ao mesmo tempo que explora a tensão entre as suas incongruências, que a sua visão do personagem emerge de forma poderosa.

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