Descrição de chapéu
Artes Cênicas

'Esperando Godot' do Teatro Oficina evoca deus pagão e pós-guerra

Montagem dirigida por Zé Celso, em cartaz no Sesc Pompeia, destaca dupla cômica da peça de Samuel Beckett

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São Paulo

Esperando Godot

  • Quando Até 17 de abril. Qua.: a sáb.: 19h; dom.: 17h (15 de abril, feriado da Sexta-feira Santa, não haverá apresentação)
  • Onde No Sesc Pompeia - r. Clélia, 93, São Paulo
  • Preço R$ 20 a R$ 40
  • Classificação 18 anos
  • Autor Samuel Beckett
  • Elenco Alexandre Borges, Marcelo Drummond, Ricardo Bittencourt, Roderick Himeros e Tony Reis
  • Direção José Celso Martinez Corrêa
  • Link: https://www.sescsp.org.br/

Perto do final de "Esperando Godot", na estreia no Sesc Pompeia nesta semana, o personagem que deveria trazer a mensagem de Godot, uma figura só mencionada e que muitos acreditam remeter a Deus, avisa que ele não virá. Que não é preciso esperar mais. "Godot morreu."

Naquele instante, uma gargalhada ecoou no amplo teatro projetado por Lina Bo Bardi, antes de ser seguida pelo público. Era de Zé Celso, o diretor da peça. A estreia coincidiu com seu aniversário de 85 anos, que ele estampou subvertendo a eventual expectativa de reverência a um autor teatral.

Cena da peça 'Esperando Godot' com Marcelo Drummond e Alexandre Borges, no Sesc Pompeia - Ronny Santos/Folhapress

É menos matar a divindade cristã do que a fazer ressurgir noutras, pagãs, como deixa claro o Menino mensageiro da peça, transformado por Zé Celso no malandro Zé Pelintra, a figura de terno e chapéu brancos na umbanda. ​Tony Reis, que interpreta o personagem aproximando os teatros de Beckett e Zé, fascinou o público na estreia.

Não é a primeira encenação do diretor para o texto. Já havia feito uma versão há duas décadas, no Rio de Janeiro, que abraçou mais a comicidade defendida pelo próprio autor irlandês, e outra para o filme de Monique Gardenberg com belas imagens do Oficina, no final do ano passado. Antes, houve a cena da peça em "Cacilda!", central para aquele espetáculo dos anos 1990.

Desta vez, com produção apoiada pelo Sesc, chegou ao palco trazendo Alexandre Borges de volta a um espetáculo da companhia. Ele foi o rei Cláudio, antagonista do príncipe Hamlet de Marcelo Drummond, no retorno do Oficina em 1993, abrindo uma nova fase de intensa criação do diretor.

Agora os dois atores respondem por Vladimir e Estragão, os mendigos ou vagabundos de chapéu-coco que esperam Godot num cenário de pós-guerra nuclear. A montagem inclui "No Fim do Mundo" como subtítulo e é precedida por um vídeo com cenas contemporâneas, de Brumadinho à guerra na Europa.

É uma dupla cômica, como tantas da metade do século 20 no teatro popular e no cinema, de "O Gordo e o Magro" aos brasileiros Oscarito e Grande Otelo. O reencontro e a nova interação buscada pelos atores, abrindo o primeiro ato e depois o segundo, são a essência desta nova encenação.

Também sua idade mais avançada. O agora sereno e paciente Didi de Borges contrasta com o ainda combativo e iconoclasta Gogô de Drummond, assimilando e reprocessando as características de seus papéis, um intelectual e otimista, o outro singelo e pessimista.

Seus diálogos, que vão do suicídio à Bíblia, conduzidos por Didi, remetem de maneira intermitente ao público. Conversam também com ele, cortando o realismo e amplificando o comentário crítico da própria cena, se encaixando ao metateatro beckettiano.

Mas a relação de cumplicidade dos dois não se sustenta com a entrada avassaladora do Pozzo de Ricardo Bittencourt, evidenciando falta de sintonia fina na montagem e sua estreia algo apressada. Em especial quanto ao prolongamento da cena, que começa no alto e vai se desgastando, embora Pozzo seja um papel que o ator veste bem, transbordante, como uma peça dentro da peça.

Vladimir e Estragão, após se manterem quase como espectadores, recuperam parte do jogo —e do público— no segundo ato.

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