Associar estilo de jogo e caráter nacional é ilusão, diz autor

Jornalista questiona explicações 'racialistas' sobre desempenho no futebol

Christian Schwartz

[RESUMO] Autor afirma que não passa de miragem a ideia de que existem estilos de jogo no futebol associados a determinada ‘raça’ ou nacionalidade.

 

Alguns anos atrás, num livro infelizmente pouco lido fora dos círculos acadêmicos, o professor gaúcho Arlei Sander Damo, um refinado etnógrafo do futebol, foi (literalmente) a campo instigado pela seguinte —e ousada— suposição:

“Se o futebol-arte não é apenas uma ficção sem referente empírico, então ele deve ser aprendido e ensinado. A hipótese parece razoável, mas também parece ser pertinente a conjectura inversa: se nada é aprendido e ensinado em termos de futebol-arte, então essa é uma ficção dos mediadores, especializados ou não, sem correspondência concreta”.

Em “Do Dom à Profissão” (Hucitec, 2007), extensa etnografia realizada em categorias de base no Brasil e na França, Damo investigou os supostos estilos nacionais de jogo, como prática e discurso. Na etapa brasileira, relata interessante vivência em equipes juvenis cariocas e gaúchas —contraste latente na pretensa linearidade do “estilo brasileiro”.

A investigação avança, em seguida, para o mais emblemático dos gestos técnicos em se tratando de futebol-arte, de modo a testar empiricamente toda uma escola interpretativa descendente das teses de Gilberto Freyre e francamente adepta de certo determinismo. 

Afirma essa escola que os brasileiros, porque miscigenados, e graças a um ambiente de costumes em tese mais liberado, trariam no próprio corpo um quê da famosa ginga. Será?

“A pergunta pode parecer disparatada num primeiro instante, afinal, onde mais poderiam estar inscritas as predisposições para o drible à brasileira senão nos corpos dos dribladores? [...] Seria ele natural, então?”, questiona-se Damo no livro.

Suas conclusões, organizadas em torno da noção de “dom”, deveriam ser mais conhecidas: “Dei-me conta [... de] que as categorias de estilo e, particularmente, o futebol-arte, possuíam uso restrito no meu universo de observação participante, centrado no circuito da formação/produção de profissionais e, portanto, um tanto à margem dos torcedores e dos mediadores especializados”. 

É certo que muito mudou desde que, ali pelos anos 1950, aventaram-se essas hipóteses, à falta de palavra melhor, “racialistas” para explicar a excepcionalidade do nosso futebol. Mas essa chave de leitura segue influente, a ponto de voltar como explicação na análise de Juca Kfouri sobre a França: “Se a influência do sangue negro é uma ótima notícia para o mundo, para o futebol brasileiro é mais um sinal de que o reinado acabou. Porque, além de mais rico e bem organizado, a verve do drible, do improviso e da cintura bailarina, se firmam no futebol europeu”.

Persiste, portanto, uma visão do futebol como “palco entremeado das disposições, dos imaginários corpóreos e das gestualidades inerentes aos grupos sociais mais diversos”, como escreveu José Miguel Wisnik, no tipo de raciocínio que em seu “Veneno Remédio – O Futebol e o Brasil” (Companhia das Letras, 2008) conduzirá à teoria de certa “prontidão” do negro como exemplo maior de “gestualidade inerente”.

Wisnik faz as ressalvas de praxe, mas não evita a sensação de que, sob aquela mesma perspectiva racialista, caminha no fio da navalha de corroborar os piores engodos de nossa festiva miscigenação positiva (nome original da famigerada democracia racial brasileira), como fez a linhagem desde Freyre —inspiradora de Mario Filho e seu clássico “O Negro no Futebol Brasileiro” (Mauad/Fapesp)— até desembocar na ideia algo incômoda da “prontidão”.

Como sustentá-la em favor de Rivaldo e Ronaldos, em 2002, e contra Zico, Sócrates e Falcão 20 anos antes? A ironia é que os “branquelos” de 1982, embora derrotados, ficaram mais conhecidos como representantes do futebol-arte brasileiro do que os pupilos de Felipão.

Minha tese sobre estilos de jogo no futebol é a de que, a não ser que falemos deles em linhas muito genéricas e sem jamais atribuí-los a “raças” ou nacionalidades, são uma miragem; não passam de produto da imaginação de comunidades torcedoras sobre os times ou seleções que as representam. 

Valem, sim, um ensaio em história cultural —livro ao qual me dedico faz alguns anos— que reconstitua como as comunidades locais e nacionais narraram a si próprias nesses termos, em especial quando se configurou uma arena futebolística verdadeiramente internacional, nas primeiras décadas do século passado.

Essa foi uma época em que a nascente mídia de massa fomentava as mais variadas formas de expressão do pertencimento a nações. Não mais apenas os velhos nacionalismos de líderes carismáticos ou heróis de guerra, mas outro tipo também, cultural, por assim dizer, da ordem de um indefinível “caráter” nacional, mais próximo do que o cientista político Benedict Anderson chamou de “comunidades imaginadas”.

Evidente que a ação, em si, não é miragem: ali, no campo, emergem os belos momentos, a arte individual ou coletiva, quase fortuita, dada a natureza do jogo. Mas a fragilidade maior da tentativa de cristalização do que se poderia chamar, como fez o intelectual alemão Hans Ulrich Gumbrecht, de “dimensão da observação do estilo”, é que não leva em conta a vastidão de partidas e jogadas para a qual não há videoteipe, tampouco registro fotográfico.

Por que então diferenças relativamente pequenas na prática do esporte, as quais se resumem à oposição entre força e habilidade com a bola, e levando-se em conta que uma visão mais completa do jogo no momento da invenção dos estilos é praticamente impossível quando só o que podemos ver dos jogos são uns poucos segundos —por que, enfim, aquelas poucas diferenças ganharam tamanha importância e têm sido reiteradas ao longo de tanto tempo?

O santo graal de uma história dos estilos seria ir muito além dessa dicotomia e de sistemas táticos para desvendar o mecanismo que leva à cristalização da dimensão observadora de que fala Gumbrecht, na busca de uma pluralidade de interpretações do gesto técnico e contra sua naturalização como próprio de certa “raça” ou de certa nação. 

Seria preciso assumir, igualmente, que os observadores (comentaristas e aficionados, mas também, por reverberação, a parcela não torcedora de uma comunidade) traduzem o estilo a cada novo evento: jogo a jogo na história do futebol. 

Tal dinâmica remonta a um período anterior àquele no qual se definiram as principais reputações nacionais no esporte, entre os anos 1920 e 1930. O sociólogo alemão Tobias Werron sugere olhar para os pioneiros do jogo e para a configuração de identidades futebolísticas entre eles nas décadas finais do século 19. 

A Inglaterra do futebol se fragmentava em identidades locais por causa da organização pioneira de uma liga nacional de clubes. Tende-se a pensar que a razão para criá-la foi a necessidade de um acordo num momento em que as próprias regras variavam de um canto a outro do país.

Mas pode-se atribuir igual peso a uma demanda da imprensa por uma sequência contínua e comparável de eventos que os jornais pudessem narrar, à medida que o futebol crescia em popularidade.

Estabeleceu-se, nessa via de mão dupla, uma “lógica serial” dos eventos, para usar outra expressão de Anderson, como uma trama em capítulos que, rodada a rodada, passou a balizar a experiência dos espectadores e, em última análise, sua identidade pelo futebol, informada tanto pela ação vista em campo quanto por mitos e memória coletiva cuja fonte eram os jornais.

São poucas as imagens sobreviventes de algo que, para o futebol brasileiro, equivalha a uma “gênese do estilo”. É possível, contudo, assistir ao Brasil de 1958 —talvez nosso momento definidor, embora tenhamos mostrado a cara ao mundo já com o time de Leônidas, em 1938, e ainda antes nos torneios sul-americanos. 

Sugiro a íntegra da final Brasil 5 X 2 Suécia, apenas como confirmação de que, com olhos neutros, o que se vê são aqueles dois excepcionais de sempre —Garrincha e, sobretudo, Pelé— contra suecos bastante bons tecnicamente, à altura dos demais brasileiros nesse quesito.

Futebol só é futebol, dirão alguns, porque não importa o que nele se possa ver objetivamente. Só que, como escreveu o ensaísta Nuno Ramos: “No caso brasileiro, a reversão da tragédia de 1950 no tricampeonato de 1958-1970 trouxe junto uma aura de alegria e improviso de que não nos livramos jamais”.

Talvez tenha passado da hora de exorcizar o que deixou de ser aura para virar fantasma —e poderíamos começar conversando a sério sobre essa história de estilos.


Christian Schwartz, jornalista e tradutor, é doutor em história social (USP/Cambridge) com tese sobre a imaginação do estilo futebolístico em comunidades locais e nacionais.

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