Descrição de chapéu Perspectivas

Museus e curadores passam a buscar artistas fora do mainstream

Tendência inclui resgate de obras de talentos que estavam esquecidos ou nunca tinham sido valorizados

Daniel Rangel

"Hilma af Klint: Mundos Possíveis", exposição em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo, retrata tendência percebida em diversas partes: o resgate da obra de artistas (mortos ou não) que estavam esquecidos ou nunca tinham sido valorizados pela história da arte.

O reconhecimento tardio não é novidade. Van Gogh, Rembrandt, Modigliani e Caravaggio estão entre os inúmeros artistas que amargaram dificuldades em vida e não poderiam imaginar a importância de seus trabalhos para o meio artístico e cultural da humanidade.

No entanto, o resgate de Af Klint (1862-1944) sugere algo diferente: a necessidade de corrigir a omissão internacional com relação à produção de artistas que não sejam europeus ou norte-americanos --ou homens. A história da arte escrita e estudada é fruto de um viés eurocentrista e machista que excluiu, por um longo o período, o que estava fora desse recorte.

Nascida na Suécia, Af Klint produziu cerca de 1.200 desenhos e pinturas abstratas no começo do século 20, anos antes daquele que é considerado o pai do abstracionismo, Wassily Kandinsky. As imagens não figurativas do russo são datadas a partir de 1910, enquanto as primeiras obras da sueca remontam a 1906.

A pedido da própria artista, que acreditava pintar incorporando espíritos, esses trabalhos ficaram escondidos por duas décadas após sua morte. O reconhecimento começou somente nos anos 1980, quando enfim sua obra passou a ser exibida nos principais museus europeus e norte-americanos --vale destacar que esta é a primeira vez que sua arte é exposta na América do Sul.

Aos poucos, a trajetória de Af Klint vem sendo introduzida na história da arte; já se fala até em uma possível maternidade do abstracionismo, em vez de uma paternidade.

O caso da sueca não é isolado. Historiadores, pesquisadores, curadores e instituições de influência começaram a revistar produções fora do mainstream.

Nos últimos anos, alguns artistas brasileiros, principalmente das gerações dos anos 50 e 60, tiveram seus trabalhos valorizados e reconhecidos no circuito internacional.

Os artistas neoconcretos Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape, todos já falecidos, lideraram inicialmente essa introdução da produção brasileira na história da arte mundial. Os três tiveram retrospectivas individuais de suas obras apresentadas nos principais museus do planeta, como o MoMA e o Metropolitan, de Nova York, e a Tate, de Londres.

Tarsila do Amaral, nossa musa moderna maior, teve neste ano uma grande individual realizada no MoMA, abrindo assim as portas para o modernismo brasileiro no sistema internacional. Não me espantaria que o próximo a conseguir essa projeção seja outro modernista, como Di Cavalcanti ou Anita Malfatti, ou talvez algum concreto, como Waldemar Cordeiro ou Augusto de Campos.

Os concretistas brasileiros (artistas e poetas) também vivem um momento de (re)valorização. Em 2007, o Museu de Belas Artes de Houston adquiriu uma importante coleção privada desses artistas, inserindo o movimento na cena norte-americana. A obra dos poetas concretos, por sua vez, vem sendo revisitada em museus no exterior, como o Getty Museum, em Los Angeles, e o Malba, em Buenos Aires.

De certa forma, esse resgate histórico vincula-se a um interesse do mercado da arte, pois faz com que o preço dessas obras aumente de forma exponencial. Contudo, não está aí a fonte desse movimento de revalorização; o mercado apenas se aproveita da tendência.

Essas (re)descobertas podem ser percebidas antes como uma espécie de resposta do meio artístico especializado ao próprio mercado. As galerias, na maioria das vezes, estão ávidas por criar valor em novos nomes, de preferência jovens ou que ao menos estejam em plena produção, e não por resgatar produções que às vezes não estão mais disponíveis para venda.

Atualmente, é fácil encontrar obras de artistas com menos de dez anos de estrada sendo vendidas por preço igual ou superior ao de trabalhos de quem iniciou sua trajetória nos anos 1970 e 1980 --e que ainda não foram "(re)descobertos".

Existem exceções, sem dúvida: jovens talentosos, de um lado, e artistas experientes sem qualidade ou consistência, de outro. Ainda assim, na arte, nada substitui a coerência e a firmeza de uma trajetória, que só se estabelece após um tempo de produção.

A história da arte carecia dessa revisão que começou a ser feita, mas que ainda se encontra distante de incluir as temáticas abordadas pelos artistas de hoje, por exemplo. Precisaremos do inevitável distanciamento temporal para isso.

Provavelmente não encontraremos um novo Van Gogh no sertão do Brasil ou na Guiné-Bissau; entretanto, parece claro que muitos novos velhos artistas ainda serão (re)descobertos e valorizados, após terem passado anos produzindo no quase anonimato. Que apareçam logo. 


Daniel Rangel, curador, faz mestrado em poéticas visuais na Escola de Comunicações e Artes da USP.

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