Villa-Lobos e Bethânia inspiram coreografia de francesa sobre viagem

Criação de Joëlle Bouvier para a São Paulo Companhia de Dança estreia no dia 15

Iara Biderman

Joëlle Bouvier, 59, atravessou o Atlântico para criar uma obra sobre um tema caro aos seus compatriotas franceses: a questão dos exilados buscando refúgio em outros continentes.

A viagem da coreógrafa, um dos grandes nomes da nova dança francesa, é fruto de uma coprodução entre a SPCD (São Paulo Companhia de Dança) e o Chaillot, teatro nacional da dança francês, sediado em Paris.

Ela está no Brasil criando um espetáculo para a companhia paulista, com estreia mundial marcada para o dia 15, na temporada de dança do Teatro Alfa

Na obra, Bouvier mostra fugas, naufrágios, corpos estendidos na praia. As imagens remetem imediatamente à questão dos refugiados. Ela afirma, porém, que não faz um trabalho político.

Sua arte, diz, é um olhar subjetivo e poético sobre deslocamentos humanos, combinada no espetáculo com sua visão particular do Brasil.

Nesta entrevista, Bouvier conta como criou a coreografia e fala sobre a dança contemporânea em geral. Quase romântica ao tratar de suas inspirações, torna-se pragmática ao tratar das dificuldades enfrentadas hoje pela arte.

 

Como surgiu a ideia do espetáculo?

Assisti a uma apresentação da São Paulo Companhia de Dança na França e fiquei fascinada, queria trabalhar com aqueles bailarinos que vi no palco. Logo depois, Inês [Bogéa, diretora da SPCD] viu um espetáculo meu e ficamos com vontade de dançar juntas. Ela me sugeriu fazer algo com a música de Villa-Lobos.

A senhora já tinha familiaridade com a obra do compositor?

Sabia quem era, claro, ele é mundialmente famoso, mas nunca havia criado com músicas suas. Pesquisei toda a sua obra, para entender como faz parte da identidade brasileira. Ele conseguiu levar o popular para a música erudita.

Mas não queria ter só Villa-Lobos, então misturei com trechos da “Paixão Segundo São Mateus”, de Bach. Fiz um grand-écart [grande abertura de pernas do balé] do barroco Bach à popular Maria Bethânia declamando e cantando a “Melodia Sentimental”, de Lobos.

A questão dos refugiados também parece inspirar a criação.

Sou completamente imersa na sociedade, que é uma esponja dos acontecimentos da atualidade. Há diferentes sentimentos em relação aos imigrantes, os franceses têm sido mais mesquinhos com eles, os brasileiros me parecem mais gentis. Mas isso é minha visão particular, incompleta quando falo de Brasil. E não falo de política na obra, não sou nem quero ser militante.

Mas o tema não é marcante na coreografia?

O tema é a viagem como conhecimento de si e transformação, algo que diz respeito a todos e a mim mesma. Temas universais como a solidão do viajante, a liberdade, o medo, o prazer e o amor.

São metáforas, como a sequência que chamo de poço, com todos os homens do elenco dançando juntos, que é seguida por um duo amoroso e por “O Trenzinho do Caipira”, para mim uma música feita para dançar e reflexo do jeito brasileiro.

O que é o jeito brasileiro?

Sei que minha visão sobre o Brasil é limitada. Estou aqui em um ambiente muito protegido, praticamente não saio da sala de ensaio. Mas me baseio nas minhas pesquisas, nas músicas que ouvi, no contato com os bailarinos. Um grupo de dança é como uma pequena sociedade, e as companhias aqui funcionam de forma totalmente diferente das europeias.

Já esteve outras vezes no Brasil?

Sim, em 2012 e 2014. Fiz um trabalho para um grupo de dança de São Paulo, a companhia Sociedade Masculina, e coreografei um desfile para a grife francesa Hermès, no Rio. Quando estive no Rio, a força da natureza me marcou, era uma visão do Éden. Guardo esta memória.

Não há um dilema na dança e nas artes em geral entre essa visão mais poética e sublimada do mundo e a crise social, política e econômica contemporânea?

A dança é sempre contemporânea, porque se faz no corpo das pessoas, no presente. Mas não é como o teatro, verbal, está no campo das abstrações.

A queda de público indica uma crise da dança contemporânea?

Quando fundei minha companhia [l’Esquisse] era um grande momento para a dança no meu país, o florescimento da nova dança francesa, mas isso acontecia porque havia dinheiro, financiamento. A dança precisa de mecenas ou de patrocínio público, no mundo todo. Mas continuamos a fazer coisas boas com pouco dinheiro.

No Brasil, a falta de investimento na cultura afeta todas as áreas, e os profissionais da dança se sentem ainda mais prejudicados, porque sempre recebem menos que outras artes.

Na França é igual. Talvez porque os bailarinos sejam os artistas que mais aceitam trabalhar com pouco dinheiro. Quem sabe, por ser sua prática diária passar por cima da dor, das dificuldades.

Além disso, músicos e atores têm seus sindicatos, mas os bailarinos não, mesmo em uma sociedade tão sindicalista como a francesa. Por outro lado, é melhor trabalhar com profissionais da dança. A maioria dos atores tem nariz empinado, os músicos estão sempre com cara de cansados, já os bailarinos são sempre os mais entusiasmados.

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